A histria de Clia Regina, na favela do Acari

Jacques Gruman

Clia Regina da Conceio Germano vive na periferia do Rio. A favela de Acari s lembrada em pocas de demagogia eleitoral. Foi l que, no dia 8 de janeiro de 1994, onze pessoas foram massacradas. Entre elas, Catia Cirlene Conceio, 21 anos, filha de Clia e grvida de oito meses. Analfabeta, Clia guarda num plstico precrio o recorte amarelado do jornal com a foto da filha, j sem vida. Como se no bastasse, agora, vinte anos depois de enterrar a filha, uma bala perdida mata Ana Claudia, outra filha, igualmente grvida.

A favela tinha sido invadida por um Caveiro e, de acordo com testemunhas, no havia ningum na rua que justificasse os disparos. Faz-me lembrar o delegado Hlio Luz, o xerife da esquerda. Certa vez, ponderou que a sociedade tem a polcia que atende aos interesses da classe dominante. Perguntou, com ironia, como reagiriam a imprensa e os formadores de opinio se a polcia se comportasse na avenida Vieira Souto, em Ipanema, da mesma forma que se comporta quando invade as comunidades pobres. Imagina s o escndalo que seria um PM arrombar a porta de um triplex para averiguar denncia de consumo de drogas! A, bacana, perdeu! Ipanema brilha noite, lembram?

Clia e eu diria que, com ela, as torcidas somadas do Flamengo e do Cornthians no espera coisa alguma do Estado. O mesmo Estado que a ignora e a reduz a uma estatstica. Resignada, diz que Justia s conto com a de Deus. Sou filha de Xang, tenho meus orixs. Pode demorar, mas Xang faz justia. Olha para os netos. Aponta, preocupada, para um menino de doze anos, rfo de Ana Cludia. Esse aqui calado, tenho que estar sempre observando, s fica pelos cantos falando que a me no devia ter morrido daquele jeito. No chega, claro, a ser um destino manifesto, mas desconfio que ali est a semente de uma vingana anunciada. A espiral da violncia ganhou mais um soldado.

OS COMPANHEIROS

Na faculdade, vi um filme muito rodado na poca: Os companheiros, do italiano Mrio Monicelli. Trata-se de uma greve de mineiros, que acaba com a derrota dos grevistas. Se meus neurnios no me traem, um dos grevistas lutava para que o filho no herdasse aquele trabalho insalubre, na escurido subterrnea das minas. Perde a luta e, numa das ltimas cenas, o filho, mal entrado na adolescncia, se prepara para a primeira jornada rumo ao mundo sem luz do pai.

A Histria esculpida em senides (desculpem a recada engenheira). No h finais predeterminados. O que temos hoje uma usina parideira de Marias, Clias, Anas, Andrs, Catias e Priscilas. O Estado alimenta a violncia, quer pela represso pura e dura, quer pela tentao corruptora. Ao povo, desinformado e desconfiado da poltica, resta, muitas vezes, apenas a esperana mstica (espao onde sobrevoam espertalhes de calibre variado, braos dados com os poderosos). Impedir que o menino bote o capacete e penetre nas minas s ser possvel pela ao continuada e organizada do prprio povo. Sem iluses messinicas ou anestesias populistas.

(artigo enviado por Mrio Assis)

One thought on “A histria de Clia Regina, na favela do Acari

  1. Caro Jornalista,

    TEM GENTE QUE NO SABE CONTAR!

    No ano passado foram assassinadas 50.000 pessoas no Brasil. Em cinco anos foram assassinados 250.000.

    Dados divulgados pelo IBGE revelam que 11.000 pessoas foram mortas pela polcia entre 2009 e 2013, o que d umas 2.200 pessoas por ano.
    -O QUE MAIOR, CARO ESPECIALISTA: 250.000 ou 11.000 homicidios nesses cinco anos?
    Compare os dois nmeros e conclua quem causa a violncia no pas.
    -Quando o senhor, especialista, sair na rua mais tarde ser mais fcil ser assaltado e tomar um tiro de um ladro ou de um policial?
    -A grade que o senhor colocou na sua casa foi PARA SE PROTEGER DA POLCIA? E os CARROS BLINDADOS? E os shopping? Tero SEGURANAS ARMADOS tambm para se proteger da violncia e dos rolerzinhos policiais? E os mais de 50.000 estupros? Tambm sero obra dos “agentes pblicos”?

    ENTO FICA COMBINADO…
    Apesar dos anos de treinamento no quartel e de exerccios de tiro ao alvo com milhares de disparos, FICA COMBINADO QUE, nos tiroteios entre polcia e bandidos nas favelas cariocas, QUALQUER BALA QUE ATINJA ALGUM idosos, mulheres, crianas ou mesmo policiais TER SIDO DISPARADA PELA POLCIA. So os policiais que, equipados com mira telescpica, acertam a cabea das velhinhas na porta do barraco. Ou, apatetados como os das comdias de Buster Keaton, matam-se uns aos outros.

    A CAUSA DA VIOLNCIA NO MORRO A POLCIA
    Supondo que os policiais sejam melhores atiradores do que os traficantes se no forem, algo est errado , no se entende que no saibam contra quem esto atirando. Os paisanos tombados nos combates, por exemplo, nunca pertencem s hostes do crime. So moradores a caminho da igreja ou rapazes em visita av. Como os bandidos no matam ningum e tambm no esto entre os mortos, A VIOLNCIA NO MORRO DEVE SER CAUSADA POR UMA GUERRA ENTRE FACES DA POLCIA, pois nunca morre um bandido nos confrontos.”
    (Ruy Castro, colunista da Folha de So Paulo)

    A polcia brasileira uma droga, mas me diga qual a instituio pblica que funciona neste pas e qual o pas do mundo que no tem polcia? um mal necessrio. Mas tem gente que quer transformar a exceo em regra e a regra em exceo.

    Abraos.

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