A história no escuro

Sebastião Nery

Oswaldo Aranha foi ministro do Exterior, da Fazenda e da Justiça de Getúlio. Como ministro da Justiça, foi visitar a Agência Nacional. O diretor tinha feito uma reforma e queria mostrar ao chefe:

– Senhor ministro, reorganizamos toda a agência. Fizemos isso, aquilo.

– Muito bem, muito bem.

E foi levando Oswaldo Aranha, com seus cabelos brancos, quase dois metros de altura, os olhos grandes, luminosos, pelos corredores.

Aranha e uma surpresa no arquivo

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ARANHA

Diante de uma porta, o diretor parou entusiasmado:

– Senhor ministro, aqui é a seção mais importante da Agência Nacional. É onde guardamos os recortes dos jornais que aproveitam as notícias que a Agência Nacional manda.

– O arquivo.

– Sim, ministro, o arquivo. Aqui está a documentação da vida brasileira. Um dia, para ser escrita a História de hoje, é só vir aqui e ver o que o governo pensava e a Agência Nacional escrevia. Está tudo aqui. Aqui se faz a História. O senhor quer ver?

O diretor empurrou a porta, acendeu a luz. Oswaldo Aranha entrou. No chão, por cima dos recortes, nus, um homem e uma mulher perdidamente se amavam. Oswaldo Aranha apagou a luz, fechou a porta:

– Realmente, senhor diretor, esta é a seção mais importante. Faz a História e a vida no escuro.

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LULA E DIRCEU

Lula e José Dirceu também pensaram que a Historia se faz no escuro. Bastou o Supremo Tribunal acender a luz para os dois e o PT aprenderem que o Mensalão não era “uma farsa”, uma “piada de salão”.

Dias de julgamento despejaram uma cachoeira de denúncias, mostrando porque o Ministerio Publico há anos investigava e denunciava “a quadrilha” de Lula, Dirceu, etc : – o Mensalão é o processo de Lula, do governo de Lula e do PT. Eles entraram para a Historia no escuro:

1.– “Não fomos eu e o Genoino os condenados. O PT é que foi condenado”(José Dirceu na “Folha de S. Paulo” de 11 de outubro de 2012).

2. – “O Mensalão é escabroso” (Ministro Marco Aurélio, no Globo).

3. – “Macrodelinquencia governamental da cúpula do PT… Grande organização criminosa… Uma ação moralmente deletéria, juridicamente criminosa e politicamente dissolvente… Falta de escrúpulos na ação criminosa por eles exercida. Arrogância e comportamento desonesto… São capazes de perpetrar delitos difamantes” (Ministro Celso de Melo, na Folha).

4. – “Catastrófico modo de fazer política com ação pecuniarizada de alianças argentarias. Um tipo de coalizão excomungado pela Constituição”. (Ministro Ayres Brito, no Globo).

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ZEZECO

Barra de São Miguel, a 36 quilômetros de Maceió, é um dos pedaços de terra e mar mais belos do pais. Um mar todo azul cercado de terra toda verde. Disputaram as eleições para prefeito : Zezeco, do PP, e Taciane, do PTB. Zezeco teve 3.354 votos (72,01%) e Taciane 1304 (27,99%).

Lendo assim, uma noticia banal, como em milhares de outros pequenos municípios do Brasil a fora. Acontece que Zezeco é um fenômeno social, econômico e político. Jovem paulista de 27 anos, bonitão e simpático, rico, muito rico, riquíssimo, chegou a Barra de São Miguel há quatro anos, encantou-se com o que viu, instalou-se em uma mansão sobre o mar, fundou uma ONG e começou a fazer política com obras sociais.

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LALAU

Candidatou-se a prefeito e teve a votação consagradora. Seu projeto é fazer uma “administração revolucionaria”, mudar a cara do município, depois ser deputado federal e governador. Vai conseguir? Com o dinheiro que tem e a cidade pequena e já bela, conseguirá, dizem seus amigos.

Ah, sim, como diria a luminosa Camila Pitanga no final da propaganda da Caixa Econômica: Zezeco é neto do famoso juiz Lalau, do escândalo da construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.

sebastiaonery@ig.com.br

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