A hora de acabar com vigarices e malandragens

Carlos Chagas 

Vão  para o  economista Paulo Rabello de Castro os primeiros aplausos da semana. Sem ser radical, muito menos sem pertencer à corrente esquerdista de seus companheiros, ele denunciou ontem uma das mais abomináveis heranças do governo Fernando Henrique Cardoso, mantida pelo governo Lula e agora, quem sabe, capaz de  ser corrigida pelo governo Dilma Rousseff.

Quando um especulador estrangeiro procura o Brasil, formando no grupo dos tais investidores responsáveis pelo apregoado sucesso de nossa economia, recebe de 25 a 30% de lucro sobre o seu capital, tanto faz o tempo em que  permaneça aqui. Podem ser meses ou até um simples  fim de semana, compondo o chamado capital-motel, aquele que chega de tarde, passa a noite e vai embora de manhã depois de haver nos  estuprado um pouquinho mais.   O  diabo, para nós, é que o especulador estrangeiro não paga imposto de renda. Sem mais aquela, leva o seu dinheiro de volta acrescido da maior taxa de juros do planeta, muitas vezes sem ter contribuído para criar um emprego ou forjar um parafuso. 

Podemos acrescentar que quando o investidor é brasileiro, preferindo aplicar aqui o seu capital, vê-se atropelado pelo imposto de renda, na base dos 20%. Se for  malandro, dá um jeito de primeiro mandar o dinheiro para fora, repatriando-o depois para especular como se estrangeiro fosse, ou seja, sem pagar imposto de renda, estabelecendo uma ciranda cruel para nossa economia.

O sociólogo criou essas e outras aberrações, como a de liberar plenamente as multinacionais para quantas remessas de lucro pretendam fazer. O que chama a atenção e,  mais do que ela, a indignação, é que o presidente Lula não se  moveu  para conter tamanho crime de lesa-pátria. Antônio Palocci, Henrique Meirelles e Guido Mantega  mantiveram os privilégios dos tempos do neoliberalismo mais descarado, apesar de a imensa maioria dos países em desenvolvimento ter criado mecanismos de defesa de seus interesses.

Vem agora Dilma Rousseff e a pergunta é se manterá essa mesma vigarice. Pode ser que não, ainda que venha a  preservar  a referida trinca do barulho  no ministério. Porque ministros existem para seguir diretrizes de presidentes da República. Quem sabe?

 DO TORTO OU DO DIREITO?

Quando estava para tomar posse, nos idos de 1979, o general João Figueiredo mudou-se para a Granja do Torto, como fará agora Dilma Rousseff assim que retornar da Coréia.  Guilherme Figueiredo, irmão do presidente, reconhecido poeta, intelectual e dramaturgo, saiu-se com uma das mais belas exortações  do período: “quem sabe ele muda o nome da residência e passa a chamá-la de Granja do Direito?”

Até que o  conselho continua aplicável, apesar de a democracia haver sido instalada no país, justiça se faça, graças a certas medidas adotadas pelo último general-presidente, como a anistia para presos políticos e para exilados e o retorno integral à liberdade de imprensa.

Hóspede permanente  ou para ocupar a residência alternativa  apenas nos fins de semana,  a verdade é que Dilma Rousseff  ainda teria condições de homenagear Guilherme Figueiredo. Algumas correções fazem-se  necessárias para que as instituições democráticas venham a funcionar em sua plenitude, completando o Estado de Direito entre nós.  Para começar, a reforma política,  em condições  de afastar de uma vez por todas a sombra do poder econômico no sistema eleitoral. E o restabelecimento dos direitos trabalhistas surripiados no governo Fernando Henrique Cardoso. Como a própria presidente eleita já declarou, também o fim da impunidade que assola o Brasil em progressão geométrica.

ENCONTRO EM PARIS

 José Serra está em Paris, onde fica pelo menos uma semana. Aécio Neves também viajou para capital francesa. Na noite da derrota, em São Paulo, bem que Serra aguardou a chegada do ex-governador de Minas para assistir seu pronunciamento final. Aécio não foi, abrindo espaço para Geraldo Alckmin, que não se afastou um só instante do companheiro frustrado. Pode ser que agora os dois se encontrem, quem sabe passeando nos Champs-Elisées ou visitando o  Louvre. Quando voltarem, porém, estarão em lados opostos, ambos empenhados em chefiar  a oposição ao governo Dilma Rousseff. Seria bom que não esquecessem Geraldo Alckmin, governador e  fiel da balança para decidir entre dois ex-governadores.

FUSÃO OU CONFUSÃO

 Nesse interregno entre a eleição e a posse de Dilma só se fala na composição de seu ministério, ainda que algumas especulações transcendam  até os partidos. Seria bom que a mídia sem assunto buscasse outros estuários, porque nada mais ridículo do que supor a fusão entre o PT e o PSB, ou entre o DEM e o PMDB. Muito menos a formação de um bloco unindo os partidos de esquerda. Faz muito  a experiência demonstra que partidos, no Brasil,  nascem e morrem conforme performances, tendências e boa ou má sorte. Jamais, porém, através de equações esotéricas. No caso das referências acima, fica óbvio  que, em período de crescimento, o PSB jamais admitiria tornar-se acólito do PT, ao tempo em que se o DEM tiver de desaparecer, será de morte morrida, não de morte matada…

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