A hora de separar as coisas, na visão poética de Affonso Romano de Sant’Anna

Resultado de imagem para affonso romano de sant'anna chargesPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna descreve no poema “Separação”, tudo quanto acontece quando se desmonta a casa e o amor: sentimentos, momentos, conversas, filhos, vizinhos, perplexidade, futturo, indecisão, etc.

SEPARAÇÃO
A
ffonso Romano de Sant’Anna

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juízo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
– pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

6 thoughts on “A hora de separar as coisas, na visão poética de Affonso Romano de Sant’Anna

  1. Este poema foi recitado por Tônia Carrero e está na Coleção “Poesia Falada” , CD ARS;
    Amo este poema.
    “O amor ruiu e tem pressa de ir embora. Fica a dor, ficam as cicatrizes do tão sonhado amor e agora desfeito.
    “Amou-se um certo modo de despir-se
    de pentear-se.
    Amou-se um sorriso e um certo
    modo de botar a mesa. Amou-se
    um certo modo de amar.”

  2. CILADA VERBAL – Affonso Romano Samt’Anna

    Há vários modos de matar um homem:
    com o tiro, a fome, a espada
    ou com a palavra
    – envenenada

    Não é preciso força.
    Basta que a boca solte
    a frase engatilhada
    e o outro morre
    – na sintaxe da emboscada.

  3. O nome do poeta é sofisticado, mas sua poesia fica aquém do longo nome do autor: rasa, tola, seca, certamente parida pelo esforço na falta de inspiração;
    O pensamento ao lado da fotografia é corriqueiro e vazio: verdade é EXACTIDÃO, REALIDADE, e por isso não faz sentido afirmar “verdade absoluta” conforme fez o poeta. No entanto, já ouvi a expressão “meia verdade” para exprimir que uma afirmação não é completa, o que faz sentido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *