A ideologia do camaleão: mudar de candidato é como mudar de terno

Pedro do Coutto

O prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab ( reportagem de Bernardo Melo Franco, Vera Magalhães e Evandro Spinelli, Folha de São Paulo de 17), anunciou sua disposição de apoiar a candidatura de José Serra nas eleições deste ano e não mais a do ex-ministro Fernando Haddad. Inclusive comunicou a mudança à direção do PT. Com isso, frustrou as articulações que havia desenvolvido junto ao ex- presidente Lula, empenhado na campanha pela vitória do ex-titular do MEC. A foto que acompanha a matéria é de Alan Marques.

Foi um choque em matéria de política paulista. Surpresa? Nem tanto. Mais um entre tantos exemplos da ideologia do camaleão, que muda de cor quando passa de uma superfície para outra. Em São Paulo mesmo, eleição de 86, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, então filiados ao PMDB, afastaram-se de Orestes Quercia e passaram a apoiar Ermírio de Moraes, PTB. Não se deram bem. No final da campanha, Quercia cresceu e Ermírio desceu. Fernando Henrique e Mário Covas mudaram de rumo e retornaram à legenda a que pertenciam. Mas não duraram muito tempo nela. Trocaram-na pela do PSDB, que fundaram juntos. Coisas de política.

No PSD, não de Kassab, hoje, mas no de JK, na sucessão de 55, Cordeiro de Farias em Pernambuco, Moisés Lupion no Paraná, Nereu Ramos em Santa Catarina e Ildo Menegheti no Rio Grande do Sul abriram cisões. Lupion apoiou Ademar de Barros. Os demais Juarez Távora. JK venceu. Quando assumiu, os dissidentes retornaram à sigla. Nereu Ramos foi nomeado ministro da Justiça, em 56.

No Rio de Janeiro, uma série de precedentes. Eleito deputado pelo PSDB, Sérgio Cabral transferiu-se para o PMDB. Cesar Maia começou no PDT de Brizola, mudou para o PMDB. Não se sentiu à vontade. Foi para o PFL. Em seguida, tornou-se fundador do DEM. Onde se encontra atualmente. Artur da Távola iniciou sua carreira pelo PTN, nas eleições de 60 para Constituinte do Estado da Guanabara, na aliança que apoiou Carlos Lacerda para governador. Em 61 rompeu com o lacerdismo e ingressou no PTB de João Goulart e Leonel Brizola, inimigos de Lacerda.

Teve o mandato cassado em 64. Retornou à política no pleito de 82, através do PMDB, então liderado de modo absoluto pelo governador Chagas Freitas. Derrotado para o senado, transferiu-se para o PSDB quando obteve o mandato. O próprio Chagas Freitas pertencia aos quadros do PSP de Ademar de Barros. Em 62, por divergências empresariais envolvendo a propriedade do jornal A Notícia, deixou o PSP e foi para o PSD de JK e Amaral Peixoto. Com o fim dos partidos formou no PMDB, que era de oposição aos governos militares. Apesar disso, Chagas Freitas apoiava os presidentes escolhidos pela ditadura.

Saturnino Braga começou no Partido Socialista Brasileiro. Daí saltou para o PMDB. Elegeu-se senador. Rompido com o chaguismo rumou para o PDT de Leonel Brizola. Rompido com Brizola, voltou-se para o PT de Lula. Mas o escândalo de seu acordo (não cumprido) de dividir o mandato com Carlos Lupi fez com que o Partido dos Trabalhadores o excluísse da tentativa de reeleição para o Senado em 2010. Deixou a política e foi deixado por ela.

O camaleonismo – há uma série de outros exemplos menores – corre solto de uma cor partidária para outra, de uma legenda para outra. Ia me esquecendo: Marcello Alencar, eleito prefeito do Rio por Brizola, PDT, rompeu fortemente com o governador, mudou para o PSDB. Legenda pela qual conquistou nas urnas o Palácio Guanabara.

Porém, de todos esses exemplos, nenhum, a meu ver, sob o ângulo da comédia, supera o de Kassab. Compareceu ao lançamento da candidatura de Fernando Haddad na festa pelos 32 anos do PT, assegurou que formaria uma aliança, recebeu vaias, mas não ligou. De repente, não mais que de repente, desistiu de Haddad e anunciou seu apoio a José Serra. Que dizer?

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