A Igreja e o aborto: tema pessimamente colocado

Pedro do Coutto

Em declarações ao repórter Leôncio Nossa, publicadas em O Estado de São Paulo de 22, Dom Geraldo Lírio da Rocha, presidente da CNBB, e Dom Dimas Barbosa, secretário geral, ao anunciarem os preparativos para a campanha vida no planeta, meio ambiente e saúde pública, marcada para 2011, aproveitaram a ocasião para condenar a prática do aborto, considerando-o atentado à existência humana.

Perfeito. Inclusive esta é a posição do Vaticano. Indiscutível. Na realidade ninguém pode ser a favor do aborto como prática de planejamento familiar ou para evitar os casos de gravidez indesejada. Não é esta, portanto, a discussão. O que foi colocado na campanha eleitoral, isso sim, foi a posição de não se considerar crime sua prática. Não se trata, portanto, de incentivar ainda mais o aborto, na realidade incentivado indiretamente, através dos anos, pela omissão das autoridades e pelo conservadorismo da Igreja Católica.

A CNBB, que com Dom Aloísio Lorscheider estava na vanguarda, e agora encontra-se na retaguarda do processo humano, nega-se a discutir a planificação da família.     Sempre se opõe à pílula e a outras práticas de evitar filhos não desejados, embora o Papa Paulo VI tenha apoiado durante seu período, sucedendo João XXIII, o método Ogino Knauss, identificador do ciclo feminino de fertilidade. Foi um passo à frente. Infelizmente com a política que prevalece nos bastidores da Santa Sé a partir de João Paulo II, Roma dá passos para trás. Os dos cardeais Geraldo Lírio Rocha e Dimas Barbosa estão entre estes. Assumem uma posição obscurantista que não leva a nada.

Eles não consideram,por exemplo, que no Brasil são praticados   incrivelmente, com Igreja ou sem Igreja, um milhão e quinhentos mil abortos por ano. Dos quais 20% apresentando complicações hospitalares, pois são feitos de forma rudimentar. Procurem ouvir os plantões dos hospitais públicos para certificarem-se da verdade. Os trezentos mil casos complicados produzem uma ocupação evitável de leitos hospitalares se existisse uma política efetiva de planejamento da família. As pressões contra o aborto inibiram tanto a candidata Dilma, cuja posição em relação ao problema era correta, quanto José Serra, que não pode, dentro de si mesmo, assumir opinião diversa.

E se os dois candidatos recuaram na campanha procurando fugir do assunto com medo de perderem votos, nem por isso o tema passou a ter um enfoque correto. Ao contrário. Qualquer opinião oposta ao planejamento familiar é cínica e reacionária, portanto imprópria e ilegítima. Os dois dirigentes da CNBB afirmaram a Leôncio Nossa que a questão do aborto é inegociável. Pior colocação não poderia ter o importante tema. Para início de conversa, ninguém está negociando nada. A Igreja Católica não é Partido político.

O que está em discussão, ao contrário, é como diminuir substancialmente a prática do aborto. Deixar tudo como está é contribuir para um pensamento das trevas do passado e para que os abortos continuem na escala de hoje. Não. É indispensável fazer-se alguma coisa dentro do possível. Não vai ser criminalizando as mulheres que se vai resolver o desafio. Vai se começar a resolver o desafio, quando a Igreja se modernizar e os candidatos à presidência da República, tanto Dilma quanto Serra, forem mais sinceros. Dos dois candidatos, um será presidente. Que enfrente melhor a questão a partir já de 2011. Até aqui não se fez nada. Um desastre. Inclusive a Igreja de Roma.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *