A imprensa negacionista ignorou a importância dos protestos no último sábado

Manifestação contra Bolsonaro no Rio de Janeiro

Uma multidão impressionante ocupou a Avenida Presidente Vargas

Luiz Antonio do Nascimento
Site Ultrajano

Quando uma notícia relevante em meio à triste situação que o país atravessa é negligenciada e ignorada pela grande imprensa – como aconteceu, lembremos, no período das “Diretas Já” –, não perdem apenas os jornais, perdemos todos nós jornalistas, perde toda a sociedade. Dar as costas a manifestações espontâneas como as de sábado (…) é uma vergonhosa demonstração de desrespeito à imparcialidade e à independência que tanto esperamos de uma imprensa séria e digna.

Estava fora de combate. Cheguei à beira do outro lado da linha. E pedi encarecidamente ao meu eterno amigo Trajano que me desse uma folga.

SÍNDROME ESTRANHA – Tinha passado por um edema pulmonar agudo, provocado por uma síndrome de nome muito estranho: takotsuba, que, contou-me o médico, é o nome de uma espécie de panela japonesa que imobiliza o polvo antes que ele morra no vapor. Pois bem: em apenas 0,0026% dos casos, a síndrome ataca após uma ablação destinada a corrigir arritmias no átrio do coração. Paralisa os ventrículos e o sangue jorra para os pulmões. Aconteceu comigo.

Não sei se consegui reproduzir corretamente o que me foi explicado. Desnecessário dizer, porém, que Trajano me deu a folga e solidariamente se preocupou comigo. Encerramos a conversa no sábado com a promessa de que ele nos representasse na manifestação programada para o fim da tarde na Paulista.

E esta é a razão que me fez cancelar a folga e desabafar contra o papel da imprensa na cobertura do evento. E logo num dia em que o jornalismo perdia um de seus editores mais corretos e exemplares do nosso papel na sociedade. O comunista e vascaíno Mílton Coelho da Graça.

O POVO NAS RUAS –  Vi imagens nas redes sociais, A multidão em São Paulo e no Rio de Janeiro, a violência da polícia no Recife, as concentrações em todas as grandes cidades do país. Demonstrações comoventes de apego à democracia, desabafos irados contra o governo que nada fez para preservar a saúde de seu povo, apelos persistentes por comida no prato, por um aumento no auxílio emergencial, por mais verbas para a educação, mais vacinas e uma palavra de ordem: “Fora Bolsonaro”. Ou, como anunciava um cartaz que uma mulher carregava, “Vaza Genocida”.

Confesso: trazia comigo uma dúvida: estaríamos fazendo a mesma coisa que os negacionistas ao provocar aglomerações e não respeitar o distanciamento social? A dúvida não me atormentou por muito tempo. Simplesmente porque não há vírus pior que o genocida Bolsonaro.

Além disso, todas as pessoas foram orientadas – e tinham consciência disso – a usar máscaras, levar álcool em gel e manter o distanciamento possível.

ESPEREI PELAS TVS – Fiquei animado com a resposta às pífias manifestações que os bolsonaristas vinham realizando como donos da rua. E esperei pelo noticiário nas emissoras de TV. Decepção. A Globo fez uma cobertura protocolar, distante, destacando, a cada cidade, a formação de aglomerações, em nome de uma falsa imparcialidade.

SBT e Record, nem isso. Chegaram a dizer, em VTs de tempos bem curtos, que as manifestações aconteciam somente para homenagear as 460 mil vítimas fatais da Covid-19 e lembrar a importância do auxílio emergencial. O mesmo se repetiu no noticiário das TVs por assinatura.

Bem, vou esperar então os grandes jornais. Decepção maior ainda. Apenas a Folha de S.Paulo publicou o noticiário na primeira página. Estadão e O Globo simplesmente ignoraram a relevância das manifestações. O Estadão estampou a relevantíssima manchete: “Cidades turísticas se reinventam para atrair o home-office”. O Globo preferiu a economia: “PIB reaquece e empresas desengavetam R$ 164 bilhões em projetos”.

OUTRO TRATAMENTO – Só para lembrar: um domingo antes, dia 23, a motociata promovida por Bolsonaro e sua tropa de fanáticos, num ato político que as Forças Armadas tentam ignorar até hoje para não punir o general Pazuello, foi anunciada na primeira página. Apesar das imagens escandalosas e do pronunciamento daquele que Bolsonaro chamou de “Meu gordinho”, o Comando Militar anunciou apenas que abriu inquérito para saber o que aconteceu. Como se ninguém tivesse visto.

Triste constatação para quem alardeia aos quatro ventos que age como um dos pilares da democracia. Quando uma notícia relevante em meio à triste situação que o país atravessa é negligenciada e ignorada pela grande imprensa – como aconteceu, lembremos, no período das “Diretas Já” –, não perdem apenas os jornais, perdemos todos nós jornalistas, perde toda a sociedade.

Dar as costas a manifestações espontâneas como as de sábado – repararam que Lula não foi visto para evitar qualquer conotação política partidária ao movimento? – é uma vergonhosa demonstração de desrespeito à imparcialidade e à independência que tanto esperamos de uma imprensa séria e digna.

MÍDIAS ALTERNATIVAS – O curioso é que foi mais fácil saber o que aconteceu sábado nos quatro cantos do país recorrendo às mídias alternativas, como Mídia Ninja, The Intercept, Revista Forum, Alma Preta e Brasil 247, ou procurando publicações estrangeiras. Elas respeitaram os fatos.

“Oposição a Bolsonaro mostra a sua força nas ruas brasileiras“ (O Público, Portugal); “Ele é mais perigoso que o vírus; do Brasil, as novas manifestações contra o presidente Bolsonaro” (Le Monde, França); “Dezenas de milhares de brasileiros marcham para exigir impeachment de Bolsonaro” (The Guardian, Inglaterra); “Milhares inundam cidades brasileiras para protestar contra a política de Bolsonaro no combate à Covid-19” (Forbes, Estados Unidos).

Ao mesmo tempo em que a grande imprensa se omitia, vale destacar a posição tomada por várias pessoas públicas, como Zélia Duncan, Thaís Araújo, Tico Santa Cruz, Mônica Martelli, Renata Sorrah, Paulo Betti, Gregório Duvivier, Fernanda Lima, Guta Stresser, Luísa Arraes e tantos outros. No momento em que o Brasil vive esta terrível tragédia, eles não se esconderam nas confortáveis sombras do sucesso. Foram pra rua gritar por justiça e punição para todos os responsáveis por tanto desgoverno, tantas mentiras, tantas mortes.

460 MIL ALMAS – Em tempo. Na beira do meu precipício particular do fim de semana, vi que o espaço dedicado ao Brasil estava completamente lotado. Mais de 460 mil almas aguardam a chegada do déspota assassino para um acerto de contas. Um juízo final por esse crime contra toda a humanidade.

Por aqui, a turma do Sensacionalista ainda encontrou alguma leveza para alertar: o gabinete do ódio continua reunido em Brasília para decidir que notícia vai plantar nas redes sociais: “Houve aglomeração ou não foi ninguém?”

A grande imprensa brasileira escolheu, mais uma vez, virar as costas para a história.

13 thoughts on “A imprensa negacionista ignorou a importância dos protestos no último sábado

  1. Quanta idiotice, no dia primeiro de maio as big techs fizeram a mesma coisa, e ficou por isto mesmo. A cada dia que passa fica mais e mais difícil de viver em Pindorama, eta gente chata.

  2. ESCONDER PROTESTOS PORRAS-LOUCAS, ENTRE OUTRAS ESPETACULARIZAÇÕES, COM SEGUNDAS INTENÇÕES PARTIDÁRIA-ELEITORAIS, SOB PANDEMIA, PARA LUDIBRIAR AINDA MAIS A POPULAÇÃO, em prol de bolsonaristas, lulistas e demais continuístas do continuísmo da mesmice do sistema apodrecido, do nada por coisa nenhuma, é até café pequeno, é pinto, é até salutar, ajuda a evitar mais contaminações pelo famigerado coronavírus, bem como evita lotar UTIs, e ajuda a reduzir o número de mortes e o tamanho do “genocídio”. O LAMENTÁVEL é ver a imprensa, de direita, de esquerda e de centro, na cara dura, há 30 anos, pactuando com todos os demônios da ditadura partidária do sistema apodrecido, à paisana e fardados, do qual ela tb é parte integrante, para esconder a TERCEIRA VIA DE VERDADE, antissistema, a encarnação da Nova Política de Verdade, O PROJETO NOVO E ALTERNATIVO DE POLÍTICA E DE NAÇÃO, como propõe a RPL-PNBC-DD-ME, com Democracia Direta e Meritocracia, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, porque evoluir é preciso, a mega-solução para o Brasilzão e o povão, alicerçada na paz, no amor, no perdão, na conciliação, na união e na mobilização em torna Dela, a mega-solução, porque basta de tanta briga pelo poder, fake news, mentiras, confusão e enganação que só azaram a vida da população. https://www.brasil247.com/midia/imparcialidade-da-imprensa-no-brasil-e-uma-quimera-diz-cristina-serra?fbclid=IwAR3MYKCgthvnOCUK0uTpRrXkm7jnFJtYNDs94Mb0yjq30QPF43_PLCuktbE

  3. Bolsonaro diz que “só com empréstimo” consegue elevar valor do Auxílio Emergencial.

    Conselho de um homem de bem: para de gastar com passeios promocionais! Pare de ser idiota.

  4. Mídia Ninja, The Intercept, Revista Forum, Alma Preta e Brasil 147 respeitaram os fatos.
    Hahahahaha hahahaha… pera aí, deixa eu tomar um ar…. hahahaha…

  5. A imprensa tem que continuar apoiando a politica econômica entreguista do Paulo Guedes a mando dos verdadeiros patrões dessa mídia brasileira que se encontram em Wall Street e no Departamento de Estado norte-americano.

    Quem acha que a mídia quer a queda de Bolsonaro agora, é muito burro!

    A queda de Bolsonaro só acontecerá ano que vem quando a candidaturas dele, e do Lula, forem impugnadas pelo STF.

  6. Esconderam porque sabem que a puta dos movimentos que encabeçaram as manifestações são ANTI Imperialista, Reformista, Privatista, Neoliberalista …

  7. Esconderam porque sabem que a Pauta dos movimentos que encabeçaram as manifestações é ANTI Imperialista, Reformista, Privatista, Neoliberalista …

  8. A Organização criminosa não é o povo. Esta querendo fazer o impedimento do Bolsonaro, antes que o povo real o faça, pois esse será sob a égide anticorrupção, onde bandidos, corruptos e criminosos não terão vez.

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