A imprensa perdeu

Sebastião Nery

Janeiro de 1947. João Goulart e Leonel Brizola acabavam de eleger-se deputados estaduais à Constituinte do Rio Grande do Sul. Jango, 30 anos, advogado, fazendeiro de São Borja. Brizola, 25 anos, líder universitário na Escola de Engenharia. Nunca se haviam visto.

Na Argentina, Peron tinha sido eleito presidente da República em fevereiro de 46. Um dia, tocou o telefone da Assembléia, chamando Brizola. Era Rubem Berta, presidente da Varig, então uma pequena empresa aérea, criada pelo alemão Meyer, que praticamente vivia de vôos para Montevidéu, em uns pequenos Electras, e queria fazer Buenos Aires, mas não tinha linha.

A pedido de Berta, Jango e Brizola foram a São Borja conversar com Getulio, senador, que passava a maior parte do tempo em Itu, e mandou um bilhete para Peron. Em Buenos Aires, os dois telefonaram para Peron, que logo os atendeu e convidou para o café da manhã do dia seguinte.

***
JANGO E BRIZOLA

Falaram muito de política. A conversa sobre a Varig foi rápida:

– Deputados, esse senhor Berta é de confiança?

– De toda a confiança, presidente. É um homem capaz, sério, que está construindo uma empresa aérea lá no Rio Grande.

– Então não há problema. Amanhã podem mandar buscar a autorização da linha da Varig para Buenos Aires.

Os dois voltaram para Porto Alegre com a linha na mão. A Varig nascia de fato ali. Veio a campanha presidencial de 50, Berta pôs um avião à disposição de Getulio e outro do brigadeiro Eduardo Gomes. Eleito Vargas, a Varig disputou a com a Aerovias Brasil a linha para Nova York e ganhou.

***
ARGENTINA

Entre Brasil e Argentina, tudo nos une. Só a imprensa nos separa. A imprensa brasileira tem uma velha mania de disputar eleições na terra dos outros. Entra nas campanhas apaixonadamente, faz comícios em vez de fazer jornalismo e quase sempre perde. Perdeu já várias vezes na Venezuela com Chávez, perdeu na Bolivia com Evo Morales, perdeu no Equador com Rafael Correa. Em 2008, ia perdendo com Cristina Kirchner. Recuou na última hora.

***
O GLOBO

É só dar uma olhada nas revistas e jornalões daquela época. Era um bombardeio sistemático em cima do presidente Kirchner e sua ainda não confirmada candidata, tudo por conta da coragem dele de enfrentar os banqueiros e o FMI, bilhões de uma “dívida” que de fato não representava mais de 30% e foi isso, só isso, que ele pagou. Os banqueiros estrebucharamn mas aceitaram.

Os jornalões do mundo inteiro queriam comer Kirchner parrilhado. Até o “Clarin” argentino se surpreendia com a fúria de O Globo: “No Brasil, o jornal O Globo criticou com dureza a primeira-dama. Perguntou se ela está mais próxima a Evita Peron ou a Jennifer Lopez“.

E o sereno e operístico Luiz Paulo Horta, no Globo, perdia o tom: “O gigantesco calote (sic) aplicado nos credores externos liberou recursos antes inexistentes. Pobreza quase não se vê. Hoje o PIB cresce 8%, com investimentos ao redor de 22% do PIB“.

***
FOLHA

Na Folha, o Fernando Canzian repetia o ditado norte-americano: “O presidente Nestor Kirchner tem grandes chances de eleger sua mulher, tudo a baixo custo, financiado com a imposição de um calote branco (sic) aos detentores de papéis da dívida pública, cuja quase metade foi corrigida de janeiro a setembro em 5,8%. A diferença foi tungada (sic) dos credores. Os maiores perdedores são os argentinos mais ricos e estrangeiros, detentores de papéas corrigidos em 5,8%, corroídos por uma inflação acima de 15%”.

Mas confessava: “Alguns dos resultados econômicos do governo Kirchner são incontestavelmente bons. Os índices de desemprego e pobreza caíram e os salários melhoraram (18% ao ano)”.

***
VEJA

Até a Veja era obrigada a reconhecer (Duda Teixeira):

“A Argentina está se recuperando de uma maneira surpreendente. Desde a crise provocada pela paridade forçada entre o dólar e o peso (por Menem), a economia cresce a taxas de 9% ao ano. O desemprego baixou de 22,5% para 7,7% no mês passado. Hoje, 27% dos argentinos vivem em situação de pobreza. É uma boa notícia. Há cinco anos mais da metade da população estava nessa condição”.

***
CRISTINA

Diante disso era inevitável o que aconteceu. A Cristina fez sozinha 45% e não houve segundo turno. No Senado, sua bancada foi de 66% (45 em 72 senadores). Na Câmara, de 62% (140 deputados entre os 257). Ganhou em 21 das 24 províncias. Elegeu (apoiou e ajudou a eleger) todos os governadores das 8 províncias em que houve eleição para governador.

Em outubro de 2010, a imprensa brasileira repetiu a dose. Mas a presidente Cristina Kirchner conquistou mais de 53% dos votos, no melhor desempenho de um candidato desde a redemocratização argentina e a votação mais expressiva no país desde que o general  Perón foi eleito pela terceira vez, com 62% dos votos, em 1973. A imprensa perdeu novamente.

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *