A indispensável fronteira entre o poder político e o mundo financeiro

edro do Coutto

É de fato imprescindível levar-se em conta o limite estabelecido indiretamente neste título para evitar crises morais cujos limites têm que ser observados, sob pena de que as ultrapassagens terminem se transformando em crises institucionais. É o que por exemplo está ocorrendo agora, infelizmente, no Brasil. Matérias de Germano Oliveira e Geralda Doca, no Globo, e de Rubens Valente e Emiliano Rocha, Folha de São Paulo, edições de hoje, 22, revelam em cores nítidas e fortes. É evidente, seria ingênuo pensar o contrário que a influência do interesse financeiro, mais até do que o econômico, não se refletisse nos degraus do poder político. Porém há limites para tudo. Daí a fronteira que considero necessária para dividir os dois polos da questão.

Os limites, a partir dos últimos anos, foram totalmente rompidos e os interesses financeiros, baseados em ilegalidades e imoralidades, tomaram conta do panorama institucional. E abalaram o próprio governo federal de forma tão acentuada que representantes do Executivo e do Partido dos Trabalhadores, alarmados com a prisão do engenheiro Marcelo Odebrecht vão se reunir hoje em caráter de emergência. Temem, segundo o Globo que ele resolva divulgar fatos extremamente comprometedores para a administração federal.

Marcelo Odebrecht inclusive deve depor esta semana na Justiça Federal de Curitiba, cidade na qual encontra-se preso. O medo que atinge setores do governo e do PT só pode ter origem na certeza de que Marcelo é pelo menos um dos homens que sabem demais. Caso contrário não haveria motivo para reocupações. As preocupações foram agravadas pelas afirmações do delegado Romário de Paula, ao afirmar que o presidente da Odebrecht e também o da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo, serão indiciados porque existem provas concretas quanto a sua participação no esquema que envolve o escandaloso assalto aos contratos da Petrobrás. Tais contratos, segundo a Folha de São Paulo abrangem também as obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro. Mas não é esta, apenas a questão principal.

PROXIMIDADE EXAGERADA

O fato essencial é que não pode haver proximidade exagerada, muito menos intimidade, entre políticos e empresários. Porque os políticos que possuem mandato parlamentar, se representarem interesses privados, podem ser contidos, no final da ópera, pela caneta dos que ocupam postos executivos, como é o caso dos presidentes da República, governadores e prefeitos. Entretanto, a caneta mágica dos presidentes, governadores e prefeitos podem ser usadas em direções e propósitos definitivos. A menos que a Justiça os contenha. Mas isso é difícil.

Portanto, substantivamente o essencial é que uns e outros mantenham distâncias mínimas entre si, uma vez que os desejos de lucro financeiro, como a realidade comprova, são insaciáveis. Cada vez os representantes do capital, indispensável ao desenvolvimento, querem expandir cada vez mais seus lucros, em detrimento dos interesses legítimos do Estado e da população.

LUCRO E CORRUPÇÃO

Nada tenho contra o lucro, pois ele é o motor indiscutível do progresso. Mas lucro não pode ser sinônimo de corrupção como essa que, como um vendaval atingiu o país. Preços de contratos foram multiplicados seguidamente por várias escalas. Financiamentos oficiais foram liberados a juros muito abaixo dos cobrados pelo mercado. Em alguns casos parcelas de créditos concedidos a três e quatro por cento ao ano, foram aplicadas em títulos do próprio Tesouro nacional a juros anuais superiores a 13%.

Um escândalo atrás do outro, rupturas seguidas da fronteira entre a política e o assalto ao dinheiro público. Daí a crise que está alcançando o governo e o PT a ponto de que ambos reúnam-se em caráter de emergência para tentar conter os efeitos do maremoto. Dificilmente poderão conseguir, pois os efeitos do rompimento da barreira entre a política e o universo financeiro, já se encontram concretamente consignados.

PREVISÕES???

As consequências de todo esse quadro crítico não podem ainda ser previstas, uma vez que previsões se fazem muito, mas poucas delas são confirmadas pela realidade. A política é um conjunto de ciência e arte e, quando se fala em arte, fala-se em voo livre no destino de enigmas que só os fatos efetivos revelam. Há muitas matérias de autoria dos chamados cientistas políticos.

No entanto, quantas elas confirmaram os prognósticos produzidos? Um mistério, a política, algo extremamente complexo, como disse o presidente De Gaulle, na realidade é um teorema não um axioma. Vamos esperar como o governo e o PT vão poder enfrentar o teorema colocado nos seus caminhos, nos quais, passou a haver uma pedra, colocada pelo ex-presidente Lula, repetindo sem saber a poesia de Carlos Drumond de Andrade.

One thought on “A indispensável fronteira entre o poder político e o mundo financeiro

  1. O CANINHA 51 PASSOU A TER O APELIDO DE BRAHMA ! SERÁ QUE ELE TROCOU A CACHAÇA PELA CERVEJA ? VEJAM (Acho que isto é maledicência das empreiteiras, pois ele continua cachaceiro !)

    Documentos obtidos na Operação Lava Jato trouxeram à tona a relação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com executivos das maiores empreiteiras do país. Chamado de “Brahma” pelos diretores da OAS, Lula defendia, em viagens patrocinadas por empresários, seus interesses no exterior.

    Em junho de 2013, num seminário em Lima, Lula dirigiu-se ao presidente do Peru, Ollanta Humala, sugerindo aliança com o empresariado.

    À frente de uma delegação de 400 executivos, Lula afirmou que “não se deve ter vergonha” se há interesse financeiro. Porque “todo mundo que é empresário precisa ganhar dinheiro”. Do Peru, a delegação –com executivos da OAS, Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez, além de empresas do porte da Embraer e Eletrobras– viajou à Colômbia e ao Equador.

    Cinco meses depois, Lula fez nova viagem sob patrocínio empresarial. Conversas por mensagens de texto capturadas em celulares de executivos da OAS indicam que a empreiteira não só deixou um avião à disposição do ex-presidente para que viajasse ao Chile, em novembro de 2013, como ajudou a definir sua agenda em Santiago.

    Numa conversa, o então presidente da OAS, Léo Pinheiro, referia-se a Lula pelo apelido de “Brahma” e discutia o roteiro com o executivo da empreiteira Cesar Uzeda.

    “A agenda nem de longe produz os efeitos das anteriores do governo do Brahma, no entanto acho que ajuda a lubrificar as relações. (A senhora [Dilma] não leva jeito, discurso fraco, confuso e desarticulado, falta carisma)”, escreveu Uzeda.

    Pinheiro responde: “O Brahma quer fazer a palestra dia 24/25 ou 26/11 em Santiago. Seria uma mesa redonda para 20 a 30 pessoas. Quem poderíamos convidar e onde?”

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