A infinita tristeza retratada por Cruz e Souza

O poeta Joo da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianpolis, tornou-se conhecido como o Cisne Negro de nosso Simbolismo, seu arcanjo rebelde, seu esteta sofredor, seu divino mestre. Procurou na arte a transfigurao da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminao racial e social. O poema Tristeza do Infinito simboliza o sentimento arquetpico por que passa a arte de Cruz e Souza.

TRISTEZA DO INFINITO
Cruz e Souza

Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.

Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh’alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de no sei donde,
de no sei quando nem como…
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas…
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas…

Tristeza de outros espaos,
de outros cus, de outras esferas,
de outros lmpidos abraos,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volpias to sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
atravs do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizvel,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensvel
magoada, mstica, doce.

Ah! tristeza impondervel,
abismo, mistrio, aflito,
torturante, formidvel…
ah! tristeza do Infinito!

(Colaborao enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canes)

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