A inflexão histórica que o Brasil precisa fazer

Cristovam Buarque

Nos últimos 20 anos de governo social-democrata, o Brasil melhorou graças à continuidade de quatro pilares: a democracia, a responsabilidade fiscal, a generosidade das bolsas e uma política econômica de crescimento. Esses pilares estão se esgotando.

A democracia se esgota porque não foi capaz de fazer a reforma política, não implantou um sistema ético para o financiamento de campanhas e não barrou a corrupção.

A responsabilidade fiscal se esgota porque a reforma do Estado não foi feita, não houve controle dos gastos nem mudança na gestão pública.

A generosidade social começou ainda no governo militar, com a aposentadoria rural. Mas foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, que adotou a concepção das bolsas, transferindo renda para 4 milhões de beneficiários. O ex-presidente Lula ampliou esse número para 12 milhões e elevou o valor do salário mínimo em taxas superiores às da inflação. A presidente Dilma Rousseff ampliou ainda mais os beneficiários, com o programa Brasil Carinhoso. Mas os programas de pura transferência de renda não estão sendo capazes de induzir a emancipação da população pobre.

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NO MESMO PADRÃO

O crescimento econômico manteve-se com o mesmo padrão básico: ampliação da produção, exportação de commodities agrícolas ou minerais e produção de bens industriais para o mercado interno; sofrendo, no entanto, uma desindustrialização em função da âncora cambial, da falta de competitividade, do custo Brasil e da falta de capacidade para a inovação. Esse modelo não foi capaz de dar o salto para uma economia de alta tecnologia, com respeito ao meio ambiente e estruturalmente distributiva, pelo qual o propósito da economia não seja apenas aumentar o PIB, mas aumentar o bem-estar da população.

Há um esgotamento nos quatro pilares da social-democracia brasileira, sendo necessária uma inflexão que permita completar a democracia com uma reforma política, criando mecanismos que tornem a corrupção impossível, eliminando a influência do poder econômico nas eleições. A responsabilidade fiscal precisa ser completada por reformas na gestão pública, na política fiscal e no controle dos gastos públicos. A generosidade das transferências de renda precisa ser substituída pela emancipação da população, para que nenhuma família brasileira precise de ajuda. E a economia precisa incorporar o equilíbrio ecológico e a distribuição de renda.

O fim das eleições municipais deveria ser o ponto de partida para o debate dessa inflexão. Mas, aparentemente, esse radicalismo não entrará nos debates. Vamos continuar discutindo sobre como avançar na direção de um modelo em esgotamento, com a mesma política de satisfazer os interesses imediatos de corporações, sem olhar o longo prazo, sem fazer a necessária inflexão histórica.

(Transcrito do jornal O Tempo)

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