A instabilidade das usinas nucleares

Carlos Chagas
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Corria o ano de 1976 e o então presidente Ernesto Geisel preparava importante viagem ao Japão, quando pleitearia polpudo financiamento para desenvolver nosso setor energético. Ele havia celebrado o polêmico e em certos aspectos secreto acordo nuclear com a Alemanha Ocidental, responsável,  entre outras metas, pela  implantação das usinas atômicas em Angra dos Reis.�
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O telefone tocou na sala de Júlio de Mesquita Neto, líder e dirigente  maior do jornal “Estado de S. Paulo”. Chamava-o  o próprio todo-poderoso Ernesto Geisel. Jamais haviam-se falado. O “Estadão” mantinha a mesma linha de oposição aos governos militares, acentuada no período anterior,  em que Garrastazu Médici ocupara o palácio do Planalto e dera início à mais deslavada censura à imprensa do ciclo militar,  continuada pelo sucessor.
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Geisel fazia um apelo ao jornalista. Soubera, certamente pelos meios pouco éticos da espionagem praticada nas redações, que o jornal  estava perto de publicar ampla  e documentada reportagem denunciando que as usinas nucleares de Angra dos Reis estavam sendo construídas em terrenos pouco firmes, arenosos,  sem a solidez necessária  a obras de tamanha  envergadura. Seria um risco dos diabos.
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O tonitruante presidente fazia um apelo: que o jornal evitasse a divulgação daquela matéria enquanto ele e sua comitiva estivessem no Japão, porque os acordos a assinar certamente seriam prejudicados pela informação, caso verdadeira, já que o governo duvidava de sua veracidade.
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Geisel apelava para o patriotismo de Mesquita e foi atendido. Só depois de sua volta  publicou-se  a reportagem   e, mesmo assim, com as devidas reservas e ressalvas. Providências terão sido adotadas pelo governo para reforçar as bases das usinas.
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Do episódio tiram-se algumas conclusões: o presidente não quis ou sentiu que não poderia aplicar  a  censura para evitar a publicação, sob o risco de seu conteúdo ganhar a mídia internacional, que  ele não controlava. As  usinas de Angra I e Angra II foram completadas, de início  com ajuda alemã.  Só que  logo depois, por pressão dos Estados Unidos, o governo da República Federal da Alemanha desinteressou-se do acordo com o Brasil.

Do que os americanos desconfiavam  era da possibilidade de os germânicos usarem nosso país como as mãos do gato, quer dizer, para tirar as castanhas do fogo e chegarem à “bomba atômica brasileira”, cujo controle e  tecnologia só eles dominariam. Preferiu, o governo de Bonn, abandonar a aventura. O risco era bater de frente com os Estados Unidos.�
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Por que se conta essa história que Julio de Mesquita Neto  levou para o além? Porque a gangorra da geração de energia nuclear volta a descer, depois da recente  tragédia no Japão. Já se discute,  no planeta inteiro, a conveniência de a Humanidade continuar investindo  em usinas atômicas, dada a experiência anterior de Chernobill, na Rússia, e agora da possibilidade de  vazamento em quatro unidades  japonesas. Ponto para a natureza, ou melhor, para os seus excessos, como terremotos e tsunamis.   A Alemanha acaba de fechar duas usinas,  a Suíça suspendeu planos para outras,  a China e a Índia começam a rever  seus programas  de expansão.
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A Angra III ainda não se completou, a IV agora não sairá do papel, numa demonstração de que também por aqui  são efêmeras as decisões político-científicas. Num momento a energia nuclear é a solução. No outro,  põe em risco a segurança de todos nós. Pelo menos quatro marchas e contra-marchas já se verificaram desde a implantação da primeira usina nuclear, nos Estados Unidos, no início dos anos cinquenta. A instabilidade continua  marca dessa experiência ainda inconclusa no planeta.�

MUITA AREIA PARA POUCO CAMINHÃO

Com todo o respeito, mas estão inflando demais o balão do prefeito Gilberto Kassab. Que ele tem futuro promissor, não se duvida. O problema é que mal revelado na política por força da renúncia discutível de José Serra, em 2002, o alcaide paulistano ocupa diariamente o noticiário, dividindo as opiniões sobre se formará ou não um novo partido, desligando-se do DEM e com passagem comprada para unir-se depois ao PSB. É areia demais para o caminhão de Kassab, que se fundar ou não fundar a nova legenda,  muito pouco acrescentará à política paulista, quanto mais à nacional.
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Acrescente-se a essa exagerada operação a hipótese de  tudo não passar de manobra do palácio do Planalto para trazer  Kassab ao aprisco governista.  Ele  deixaria a oposição do DEM para  afinal aportar na enseada socialista,  da qual tanto se orgulham Lula e Dilma por haver conquistado.  Toda essa firula de sair, criar e depois aderir não engana ninguém.

DESARMAR, NINGUÉM DESARMA

Quando um presidente brasileiro desembarca nos Estados Unidos, para visita oficial, seus seguranças são gentilmente convidados a deixar as armas no aeroporto. Acompanharão o  chefe, é evidente, mas revólveres, pistolas e sucedâneos ficarão por conta do Serviço Secreto e do FBI, na missão de proteger o visitante de eventuais atentados. Isso acontece desde as viagens dos presidentes Eurico Dutra, João Goulart, Garrastazu Médici, João Figueiredo,  José Sarney, Fernando Henrique e Lula.
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Não chega a gerar uma crise, mas a  recíproca não é verdadeira. Brasília e  Rio tornaram-se, esta semana, cidades infestadas de agentes de segurança americanos, esquadrinhando cada avenida e cada esquina por onde passará o presidente Barack Obama, sábado e domingo.  Perguntem  se eles deixaram suas armas no aeroporto…

COMPARAÇÕES

Caso não se verifique mudança nos planos, Barack Obama discursará domingo  para selecionados populares e não populares  cidadãos  brasileiros na Cinelândia, no Rio.  Falará nas escadarias do Teatro Municipal,  com vistas para o tradicional Amarelinho, onde até pouco se tomava o melhor chope da cidade.
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Poderão até revelar-se  justificáveis  as exageradas providências de segurança, que impedirão a seleta assistência de portar bolsas, mochilas, sacolas, sacos de pipoca   e quaisquer embrulhos, isso depois de rigidamente identificados todos os convidados.  Mas  fica impossível não ceder à tentação de comparar duas situações. 

Quando denominada de “Brizolândia”, aquela vasta praça era aberta a todos, em especial nas inúmeras vezes em que lá se encontrava  Leonel Brizola.  Anos a fio,  partidários do duas vezes governador fluminense debatiam com adversários, quase sempre  inflamados, ainda que  os entreveros permanecessem  verbais. Encontrasse um jeito de descer da sua nuvem, lá em cima, Brizola não deixaria de estranhar tantos cuidados numa praça que já foi do povo…

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