A internet é um avanço, mas os jornais impressos estão longe da morte ou do retrocesso. O caminho das pedras da internet é a publicidade. A visível e principalmente e a invisível, jornalões mestres em “conquistá-las”.

Helio Fernandes

É um grande assunto, e mais do que isso, polêmica, debate, divisão de opiniões. Se examinarmos sem emoção ou interesse, a conclusão está toda no título destas notas. Na Tribuna impressa, em conferências e debates pelo Brasil, (mais raros do que gostaria) coloquei e dissequei a questão.

O excelente site “Comunique-se”, se aprofundou no exame, ouviu muita gente, e sabiamente publicou tudo em livro. Minha colaboração para esse livro foi expressa em 24 laudas, a maior de todas. Acho que o “Comunique-se” deveria rever tudo, republicar o livro, distribuindo-o em escolas e universidades, mesmo que precisasse de patrocinador. (Desde já estou abrindo mão de possíveis direitos autorais, ali tem muita coisa aproveitável e até indispensável, escrita por quem sabe o que diz).

O IVC (Instituto Verificador de Circulação), dominado e ligado aos grandes órgãos de comunicação, publicou números que não estão errados. São até minuciosos nos detalhes. Lógico, favorecem os jornalões, não havia concorrentes.

Não negavam a internet, mas também não faziam comparações. Isso poderia desfavorecer a comunicação tradicional (rádio, jornal, revista, televisão). O Pedro do Coutto pegou, examinou pelo outro lado, verificando o aumento da circulação, também badalado pelo IVC. Vindo na contramão do Instituto e do jornalista, examino e concluo, não deixando de lado a comparação. Como o assunto é cada vez mais importante e vasto, só pode haver conclusão com a indispensável comparação.

Existem nuances e considerações até no tempo. Antes da internet, a vida era muito menos dinâmica, sobrava espaço para muita coisa. Existiam matutinos (que estavam nas bancas à meia noite) e vespertinos (que podiam ser comprados a partir do meio dia), havia verdadeira competição.

Então, muita gente comprava 1 ou 2 matutinos e 1 ou 2 vespertinos, a circulação visivelmente enorme. Mesmo que se restringisse a compra a 1 matutino e 1 vespertino, eram dois por dia. Hoje saem todos juntos, à meia note, pela manhã quem é que vai querer VER os dois, geralmente da mesma empresa?

Às vezes tentavam se distinguir e alcançar um público diferente, cobrando muito mais barato e dando o que chamavam “notícias mais populares”, para um público que eles mesmos rotulavam de “não interessados por fatos que não fossem de crime”. Vendiam mais, a preço baixo, sem publicidade ou a preço determinado pelas agências ou diretamente entre vendedor e comprador.

(Gosto sempre de dar exemplos. O Estadão, conservadoríssimo, sempre teve um público “cativo” em São Paulo. Era o seu baluarte. Não se interessava pelo resto do país. Surgiu uma geração de jovens Mesquitas (hoje, já praticamente “sessentões”, isso tem aproximadamente 30 anos) que não se ajustavam muito bem a essa linha de comportamento.

Resolveram então lançar um vespertino, “Jornal da Tarde”. Para rodar à 1 da tarde, ser distribuído a partir das 2. Chegava à periferia com as bancas fechadas e depois precisaram (como praticamente todos os paulistas) enfrentar o gargalo do trânsito.

Perderam fortunas com a insistência de pelo menos 10 anos, o Estadão chegou a ser atingido, houve até negociação de compra e venda. Hoje, Estadão e “Jornal da Tarde” saem juntos à meia noite, duplicaram as perdas, triplicaram os prejuízos. Têm sido salvos pelos Bancos e Seguradoras, a internet não interferiu.

Com a junção de matutinos e vespertinos, estes ficaram absolutos e dominaram o mercado. Os matutinos, que fizeram história, DESAPARECERAM, dominavam a circulação e a simpatia do público, não resistiram. E eram os melhores, numa época em que o Distrito Federal chegou a ter 18 diários.

Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário Carioca, O Jornal (órgão líder associado), Diário de Notícias, (o jornal de maior circulação no Distrito Federal), todos tinham um slogan, no alto da página.

(Os vespertinos não circulavam aos domingos, os matutinos às segundas. Já brigado com Golbery, Lacerda divulgou a piada que irritou o todo poderoso Golbery: “No fim de semana o SNI não sabe de nada, os jornais não circulam”. Não surgiu mais nenhum outro jornal).

A televisão chegou ao Brasil em 1950. (trazida por Assis Chateaubriand, o maior personagem da indústria jornalística, para o bem e para o mal). Só que Chateaubriand resiste a comparações. Morreu em 1968, mas continua existindo, ao contrário dos outros, que morreram mesmo.

A televisão levou 20 anos para se consolidar, de 1950 a 1970, com a “generosidade” dos ditadores de plantão, e a subserviência dos órgãos ditos jornalísticos. Trocaram o silêncio em relação às atrocidades, preferiam o barulho das caixas registradoras. Enriqueceram, as ditaduras se prolongaram.

A internet, que surgiria muito mais tarde, não teve facilidades, principalmente porque não tinha dono (e continua não tendo), com quem fosse possível conversar. Mas os tentáculos dos “jornalistas” das grandes empresas se projetou, dominando o novo meio de comunicação. Os maiores sites, os mais frequentados, os que se multiplam de forma espetacular, pertencem aos impérios de antes. São invencíveis, a tecnologia progride e eles progridem com ela.

Na Europa e principalmente nos EUA, os senhores do mundo fazem hoje, DOIS JORNAIS. Um na internet, que vai publicando tudo em cima da hora. E outro, que sai na manhã do dia seguinte, que é vendido e comprado, como se fosse a coisa mais inédita e surpreendente. Jornalisticamente não existe o que se chamava rotineiramente de “furo”. Ninguém guarda a notícia para o dia seguinte, revela na hora e “acomoda” ou “edita” no dia seguinte.

(Ressalve-se o “jornalismo investigativo”, não praticado por muitos órgãos. Geralmente descobrem dossiês sobre corrupção, que atingem amigos, colaboradores e financiadores dos jornalões).

As grandes empresas jornalísticas aderiram em massa à internet, e conseguiram a mágica: transferiram a publicidade dos próprios órgãos para o novo veículo virtual e estão satisfeitíssimos por terem mantido uma parte volumosa, no jornal, o que parecia ultrapassado.

(Surpreendentemente quem está em dificuldades é o New York Times. Não conseguiu transferir a publicidade toda do jornal para o site, tem que vender partes de ações para bilionários, até do México, mas acabará sendo salvo).

A internet independente (como este blog) no mundo inteiro não chega a 1 por cento da repercussão dos sites dominados pelas antigas e poderosas empresas, sejam ou não sejam jornalísticas.

 O twitter, o facebook, o celular (e outras invenções que já anunciam) são pessoais, pacíficos, quase que voltados para o exibicionismo, ou para um “melhor relacionamento entre as pessoas”, logicamente importante.

***

PS – Não há dúvida, a internet é mais um armamento a serviço da coletividade. Só que não vai intimidar ou destruir o Poder dos órgãos clássicos. Este continuará existindo e progredindo.

PS2 – Os jornalões, serão beneficiados, e serão donos de tudo o que é chamado de jornalístico. Antigamente, os jornalões contratavam grandes nomes, exigiam EXCLUSIVIDADE. Hoje, você lê os mesmos colunistas, esteja em que estado estiver.

PS3 – Os jornalões se aproveitam da internet, não estão mandando jornais para a parte “lá de cima” do país, onde não existam possibilidades de negócios.

PS4 – Dizem; “Quem quiser veja o jornal na internet”. É isso. Têm agências de notícias e de fotografias, vendem para jornais do interior. Esses desaparecerão realmente, as grandes empresas ficarão “donas de tudo”.

PS5 – A internet só tem uma saída ou salvação: conseguir ou conquistar publicidade que possa ser investida. Finalmente; a internet é uma REALIDADE QUE PRECISA SER EXALTADA, mas que não preocupa, assusta ou intimida os “jornalões”.

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