A lógica de Eduardo Cunha não tem sustentação

Deu na Veja

Ao ser acusado de extorquir 5 milhões de dólares de um lobista, o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, teve uma reação vulcânica. Disse que o lobista, Júlio Camargo, da Toyo Setal, que fazia negócios com a Petrobras, está mentindo. Diante disso, Cunha rompeu com o governo, vazou que está disposto a criar uma epidemia de CPIs no Congresso para fustigar o Palácio do Planalto e passou a aventar com mais ímpeto um eventual processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, disse que até pode se “ferrar”, mas levará o governo junto. E ameaçou: “Guerra é guerra”.

Na velha estratégia de que a melhor defesa é o ataque, Cunha empilhou três acusações. Disse que o governo está por trás da denúncia, que os investigadores do procurador-geral Rodrigo Janot foram pressionados pelo governo para persegui-lo e que o lobista foi forçado a mentir na sua delação premiada. Com uma arquitetura conspiratória bastante robusta, a lógica da defesa de Cunha não para em pé. Vejamos:

1) O governo está por trás. A acusação pressupõe que o Palácio do Planalto tem um poder implacável, capaz de controlar os rumos da Lava Jato, a ponto de pautar, forjar e divulgar acusações contra adversários. O mesmo Palácio do Planalto que não consegue ganhar uma votação simplória no Congresso e já amargou chumbo grosso das investigações da Lava Jato, de repente virou um polvo todo-poderoso com poderes para manipular a investigação mais vigiada pela imprensa nacional. Neste caso, a pressão de parte do PT para que o ministro da Justiça, José Cardozo, controle os arroubos investigatórios da Polícia Federal seria um jogo de cena, pois, na verdade, o governo está no controle da PF e tudo o mais. A lógica mais elementar sugere que, mesmo querendo, o governo não conseguiria dirigir a Lava Jato para atender seus interesses.

2) Janot trabalha para o governo. Até aqui, o trabalho do procurador Rodrigo Janot tem sido irretocável. Se estivesse trabalhando como infiltrado do governo, faria mais sentido que a famosa “lista de Janot” não trouxesse o nome de ministros do governo de Dilma, além de governador do PT, senador do PT e, ainda, o notório dublê de tesoureiro e operador do PT. É um paroxismo acusar Janot de proteger o governo num país que conhece o currículo de Geraldo Brindeiro, o pernambucano que esteve à frente da Procuradoria-Geral da República e notabilizou-se como engavetador-geral da República em seus quatro mandatos consecutivos, de 1995 a 2003. Outros tempos, outros ares: Janot, nem que quisesse, conseguiria ter a atuação governista de Brindeiro.

3) Camargo foi forçado a mentir. Júlio Camargo fez um acordo de delação premiada em troca de uma pena mais leve, como todos os demais acusados. Sabe-se que uma delação cai por terra, anulando eventuais benefícios, caso o delator seja flagrado numa mentira. Mesmo assim, não se pode tratar uma denúncia feita no âmbito de uma delação como expressão da verdade. Mas que sentido faz levar Camargo a selar um acordo de delação para, assinado o acordo, montar uma mentira que desmonta o próprio acordo? Seria mais prático que o governo, com seu poder demiúrgico, dispensasse o acordo de delação e simplesmente obrigasse Camargo a mentir.

TEORIAS CONSPIRATÓRIAS

Recheando suas acusações, Cunha satisfez o apetite nacional por teorias conspiratórias e também denunciou estranhezas. Disse: “É muito estranho, às vésperas da eleição do procurador-geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo procurador, ou seja, obrigar o delator a mentir”. Seu pronunciamento ocorre na noite desta sexta-feira. A eleição do procurador-geral será no dia 5 de agosto. A distância de três semanas entre uma coisa e outra está anulada pela expressão “vésperas” e tudo entra no bolo da conspirata. Faltou dizer que é estranho a acusação contra Cunha ter surgido no momento em que a Moody’s ameaça rebaixar a nota do Brasil, que a União Europeia denuncia o governo por violar normas da OMC e aparecem as primeiras fotos da superfície de Plutão. É muita coincidência.

O rompimento de Cunha com o governo, anunciado nesta sexta, é um direito que lhe assiste. Cunha não deve a presidência da Câmara ao governo. Ao contrário. Sua candidatura foi combatida pelo PT, numa das operações políticas mais desastradas de que se tem notícia. Ainda assim, Cunha não deu uma única evidência de que o governo está mesmo por trás da acusação dos 5 milhões de dólares, mas já anunciou rompimento e já fala em CPI e impeachment. Com isso, mostra, ao vivo e em cores, em que arena Brasília opera hoje: não é a política, é o jogo de chantagem. Estivéssemos num clima de alguma normalidade, Cunha estaria neste momento sendo constrangido pelos seus pares a afastar-se da presidência da Câmara para responder as acusações.

(artigo enviado pelo comentarista Carlos Vicente)

13 thoughts on “A lógica de Eduardo Cunha não tem sustentação

  1. https://twitter.com/DepEduardoCunha?original_referer=http%3A%2F%2Fportaleduardocunha.com.br%2F&profile_id=198535390&tw_i=626925520526135297&tw_p=embeddedtimeline&tw_w=349261099796938752

    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 13 hHá 13 horas
    Por @reinaldoazevedo, da Revista @VEJA: Entrevista de Beatriz torna a história ainda mais enrolada e inverossímil https://goo.gl/i2GF5q 
    52 retweets 45 curtiram
    Responder Retweetar52 Curtir45
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 14 hHá 14 horas
    Advogado de Eduardo Cunha rebate depoimento de advogada ao Jornal Nacional. https://goo.gl/Ury7XX  #EquipeCunha
    35 retweets 29 curtiram
    Responder Retweetar35 Curtir29
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    Em 2014 eu não era presidente
    62 retweets 67 curtiram
    Responder Retweetar62 Curtir67
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    Isso para desmoralizar o argumento de que tinham receio de chegar ao presidente da Camara
    34 retweets 42 curtiram
    Responder Retweetar34 Curtir42
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    Mais um pequeno detalhe.A delacao desse delator foi divulgada publicamente em 2014 quando eu não era presidente
    54 retweets 58 curtiram
    Responder Retweetar54 Curtir58
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    O resto,o Dr Antônio Fernando falara,a exemplo do que vem fazendo
    29 retweets 35 curtiram
    Responder Retweetar29 Curtir35
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    E so pesquisarem na mídia como fiz que fica claro que ela foi convocada antes do delator depor no último dia 16
    59 retweets 50 curtiram
    Responder Retweetar59 Curtir50
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    Reitero que não tenho qq interferência na CPI,desconhecia a sua convocação que se deu com certeza antes do delator mudar a sua versao.
    65 retweets 64 curtiram
    Responder Retweetar65 Curtir64
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    A fala dele no JN,e a minha fala
    30 retweets 23 curtiram
    Responder Retweetar30 Curtir23
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 15 hHá 15 horas
    Boa noite a http://todos.Com  relação a entrevista da adv ao JN,quem falara será meu adv Antônio Fernando de Souza
    58 retweets 49 curtiram
    Responder Retweetar58 Curtir49
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 19 hHá 19 horas
    A participação da direção da Câmara, pela Diretoria Geral, trata da contratação administrativa pedida pela CPI, nos termos de sua autonomia.
    20 retweets 34 curtiram
    Responder Retweetar20 Curtir34
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 19 hHá 19 horas
    A reportagem tenta me colocar como autor de constrangimentos, o que, definitivamente, eu não posso concordar
    48 retweets 71 curtiram
    Responder Retweetar48 Curtir71
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 19 hHá 19 horas
    Rechaço com veemência as insinuações da reportagem, que beira a má-fé!
    47 retweets 63 curtiram
    Responder Retweetar47 Curtir63
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 19 hHá 19 horas
    Não participei, não participo nem participarei de qualquer decisão sobre investigações da CPI, que tem a sua autonomia.
    39 retweets 69 curtiram
    Responder Retweetar39 Curtir69
    Mais
    DeputadoEduardoCunha ‏@DepEduardoCunha 19 hHá 19 horas
    Boa noite a todos. Em função da reportagem veiculada na edição de hoje do jornal @Estadao, tenho a esclarecer o seguinte
    24 retweets 38 curtiram
    Responder Retweetar24 Curtir38
    Mais

    Com um abração do Lionço Ramos Ferreira

  2. Todo mundo está com a ´duvida de quem é o mentiroso nessa estória
    Quem é o mentiroso, o corruptor que deu o cafezinho gourmet de 5milhões de dólares ou o corrupto que recebeu

  3. Chamar o confronto entre Dilma Roussef e Eduardo Cunha de ficção à moda Tio Patinhas versus Pão Duro Mac Monei seria um elogio.

    Além do que ambos não têm fábricas ou minas como os personagens, mas tão somente impérios de corrupção e o mesmo amor ao vil metal.

    São o Tio Petista e o Eduardão Duro Macunha Monei.

    Versão subdesenvolvida dos personagens pato-lógicos e antropomórficos originais.

  4. Carlos Vicente, é verdade. O ex-presidente Fernando Henrique foi para Europa e de lá disparou: Dilma não está envolvida nos escândalos da Lava Jato. Eu a considero uma pessoa honrada. Foi mais ou menos o que disse. E disse mais: Condeno o ódio contra Dilma inclusive do meu partido PSDB. Pergunto: E agora como é que vamos entender a política?

  5. Liônço, você é um pouco mais novo que eu. Sabes muito bem que Eduardo Cunha sofreu reflexos udenistas mesmo sendo bem moço. Se um dia, espero estar vivo para ver, FOREM JULGADOS TODOS OS CRIMES DE CUNHA. Ele será condenado no mínimo a 200 anos de cadeia. Ficará na Papuda como dono. Só sairá se um tusiname invadir o Brasil e derrubar os muros da Papuda. Toma geito Liônço, botar a mão no fogo queima.

    • Estimado Antonio Santos Aquino … bom dia!

      Você sabe muito bem que sou de raízes lacedoudenistas … acompanhei o noticiário da Frente Ampla (e já propus que respeitemos as memórias de nossos antigos líderes JK, Jango e Lacerda – que morreram reconciliados se perdoando um ao outros) … com o AI-5 me calei, né???

      Até que https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernesto_Geisel: “Assumiu a Presidência do Brasil em 15 de março de 1974.3 Seu governo foi marcado pelo início de uma abertura política e amenização do rigor da ditadura militar brasileira, onde encontrou fortes oposições de políticos chamados de linha-dura3.

      Neste 1974 acreditei na abertura política de Geisel e tive a oportunidade de ser candidato a deputado federal pelo MDB do antigo RJ – era trabalhador e cursava faculdade à noite … só consegui legenda porque muitos não acreditavam na abertura do alemão (achavam ser arapuca à la Hitler, Stalin, Mao).

      Fui novamente candidato a deputado federal pelo MDB do novo RJ em 1978 – aí foi difícil obter legenda; pois a abertura se firmava com a demissão dos generais Ednardo e Frota.

      Com o fim do MDB em 27 de novembro de 1979 … só fui me filiar no PMDB em 20/09/2007 … percebendo que o partido caminhava para seu fim ideológico ao abonar tudo que o PT e Lula faziam!!! e tenho dado sorte ao PMDB – que tem se recuperado e até está em condições de disputar com o PT a hegemonia sonhada por qualquer partido!!! e é Eduardo Cunha, que desde 2009, tem mantido o PMDB em seu quinhão ideológico na Câmara dos Deputados … enquanto no Senado é o grande Romero Jucá!!! como qualquer pessoa, ambos possuem seus defeitos, sim senhor!!! mas, rezam o antigo catecismo udenista: ” O PREÇO DA LIBERDADE É A ETERNA VIGILÂNCIA”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *