A longa espera pelo atendimento médico público

Pedro do Coutto

Na edição de sexta-feira, a Folha de São Paulo publicou reportagem de Talita Bedinelli revelando que existem 661 mil pedidos de consultas, exames e cirurgias no sistema de atendimento médico da Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo aguardando atendimento.

Média de espera: 35 meses. Incrível. O novo Secretário, José de Filipi Júnior, acentua a matéria, pensa em realizar um mutirão. Uma iniciativa de emergência, melhor do que nada, mas que não vai ao encontro das raízes do problema.

Mutirão para consulta, ainda é possível, embora a rapidez seja contraproducente. Mas mutirão de cirurgias e de exames? O risco da sobrecarga no setor cirúrgico é enorme. E a cirurgia não termina praticamente com sua realização. Há necessidade de os pacientes serem internados para recuperação. Surge aí o problema dos leitos. Os números existentes são inferiores à necessidade. Verifica-se assim um outro impasse. Sem falar no volume de medicamentos necessários, no aparelhamento da rede hospitalar, na presença e ação dos médicos e paramédicos.

Os dados sobre o déficit de atendimento cingem-se à capital paulista. Imagine-se a situação em todo o país. No setor de exames, as solicitações acumuladas elevam-se a mais de 72 mil. Ora, os exames são fundamentais, vêm na sequência das consultas e são básicos para a efetivação das cirurgias. Caso contrário, a consulta pode ocorrer, mas o que vem depois dela? Na maioria dos casos os exames de sangue e de urina. Além de todos esses aspectos, é indispensável qualidade e confiabilidade.

VIDA E MORTE

A complexidade é enorme, inclusive o que distingue o atendimento médico, geralmente de urgência, das demais atividades do setor público. O atraso de um mês num processo pode ser compensado. Numa ação de saúde, trinta dias podem ser o limite entre a vida e a morte. O momento do início do tratamento também. Um retardamento pode causar danos enormes à integridade humana.

O Brasil investe pouco na Saúde. No plano federal e nas esferas estaduais e municipais. Investimento não é só o aspecto financeiro, embora este seja o principal no caso. Investimento encontra-se também na organização administrativa, na boa vontade das pessoas para com os que buscam serviços públicos, já que é impossível que possam pagá-los à rede particular.

Existem os planos de saúde, por certo. Mas as reclamações são muitas. Recentemente a Agência Nacional de Saúde desacreditou um número enorme de empresas que anunciam coberturas, mas que não as efetivam, cobrando pelo que não podem fazer, ou então iludindo setores da sociedade. O tema saúde é um desafio a ser enfrentado urgentemente, sobretudo para que o déficit existente não se agrave.

É imperioso que o atendimento às filas existentes seja maior que o surgimento de novos pedidos. Só assim, a vergonhosa situação poderá ser reduzida por etapas, na cidade de São Paulo e nas demais cidades brasileiras. O combate à violência, à imprudência nas ruas e rodovias faz parte do esforço aguardado. Até porque os acidentes de trânsito podem ser evitados. As doenças não. Sempre aconteceram, em maior ou menor escala. Infelizmente.

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