A lucidez perigosa que rondava a poesia de Clarice Lispector

Resultado de imagem para clarice lispectorPaulo Peres
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A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, expõe as consequências que “A Lucidez Perigosa” podem acarretar.

A LUCIDEZ PERIGOSA
Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

3 thoughts on “A lucidez perigosa que rondava a poesia de Clarice Lispector

  1. Ler Clarice não é fácil. Há algo misterioso. Lucidez perigosa, publicado em A descoberta do Mundo, pela Nova Fronteira, é um poema muito bonito, “belo e estranho” como disse Caetano Veloso em uma composição: “Que mistério tem Clarice/que mistério tem Clarice/pra guardar-se/assim tão triste/no coração”
    Estou sentindo uma clareza tão grande/que me anula como pessoa atual e comum/é uma lucidez vazia, como explicar? Ela vê que essa lucidez pode se transformar num inferno humano.

    Misteriosa dizem os amigos que conviveram com ela. Affonso Romano e sua mulher Marina Colasanti, eram amigos dela. Clarice manifestava o desejo de jantar com os dois. Pois bem. Foi convidada pelo casal para jantar que também chamaram amigos em comum. O jantar quase pronto, quando Clarice e diz que quer ir embora, pois está com dor de cabeça.Não houve negociação, então Affonso Romano, o poeta a levou em casa (Com Clarice, de Affonso Romano Sant’Anna e Marina Colasanti, p.33)

    • Clarice gostava muito de ir à Cartomante. Foi levada pelo casal Affonso Romano e Marina, em uma que morava no Meyer. Continuou indo até o fim de sua vida. Macabéa é uma das personagens de “A hora da estrela” em homenagem à sua cartomante.
      Também gosto. Até perguntei ao poeta Affonso o endereço e ele me disse que “provavelmente” já morreu

  2. Não é fácil ler esse verso da poetisa porque ela não diz coisa com coisa. É muito simples escrever sobre o ininteligível – não há necessidade de conformação á realidade nem á lógica.
    Simplicidade, conforme exemplo citado, não vem com trabalho, ela é resultado de muitas variáveis, inclusive hormônios. Ser simples pode ser porque a pessoa é submissa e fraca, mas pode também ser resultado de empatia, de percepção da fragilidade humana, dotes adquiridos através de uma boa educação, de bons exemplos. Trust me, je suis diplômé de haute école: la vie!

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