A mãe da democracia disse não

Sebastião Nery

Ao lado do hotel estaciona um caminhão. Leio na carroceria: – “Metáforas”. Pergunto ao porteiro italiano:

– O que é isso?

– Caminhão de “metáforas”.

Não era uma jamanta de poesia. Era apenas um caminhão de mudanças. “Metáfora” é mudança. Como se fosse o apartamento de Drummond levado para Itabira. São os mistérios das línguas, tão diversos e tão diversas, embora o grego seja a avó do português, que é filho do latim.

Mesmo para quem como eu inutilmente estudou grego no Seminário é impraticável no dia a dia. E o grego moderno, depois de tantas invasões, mudou muito o velho grego clássico. Para esperar o ônibus você não fica no “ponto”, mas no “êxtase”. Quando você sai do ônibus, do restaurante, da igreja, não sai pela “saída”. Sai pelo “êxodo”. Como Moisés.

A França não é França, lugarzinho onde viveram Napoleão e De Gaulle. É “Gália”, como dizia Julio César o imperador-jornalista, E a própria Grécia não é Grécia. É “Hellas”, “Helada”. Homero puro.

PÉRICLES

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres, onde está lá até hoje, durante 30 anos ele fez questão de se submeter, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. E foi sempre reeleito.

A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem conseguiu criar em toda a sua história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo de suas mãos, de seu exemplo, de sua vida, 500 anos antes de Cristo.

Quando Péricles, o ateniense, deu aos representantes da “terceira classe” o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democrática, criando a democracia, 2.500 anos atrás.

O que dói na Grécia dói em mim.

GRÉCIA

Em Atenas, em janeiro de 1988, dei uma entrevista a TVs, rádios, revistas e jornais sobre o Brasil e a Constituinte que tinha acabado de aprovar nossa nova Constituição. Era difícil explicar-lhes como sair de uma ditadura de 20 anos sem punir os militares golpistas. Os deles estão presos.

Dois dias depois, era 17 de janeiro, lá estava eu nas bancas de jornais, com fotos e tudo, no meio daquelas manchetes incompreensíveis em letras do alfabeto grego, numa pagina inteira de entrevista ao jornal “Eleftherotypia”, assinada pela jornalista Stela Hoyda:

– “A Grécia continua uma janela aberta ao mundo. Sócrates e Péricles não passaram – disse-nos o jornalista Sebastião Nery, escritor, político, que já esteve aqui outras vezes e prepara um livro – “Grécia, a Mãe da Democracia” – cuja história antiga e moderna conhece, e destaca como personagem importante Markos Vafiadis, o comandante “Narkos” da resistência aos alemães e aos ingleses, na década de 1940”.

Desde 1958, sempre voltei à Grécia. Em 1963 e varias outras vezes, viajei o país todo, terras e ilhas, pesquisando, escrevi dezenas de textos, reuni tudo numa síntese histórica e política, mas nunca editei meu livro sobre a Grécia. Traí Sócrates, Péricles, a Stela Hoida. E minha deusa grega.

ABISMO

O Plebiscito de domingo mostrou um pais sofrido, dilacerado, esquartejado pela gula dos banqueiros internacionais, sobretudo os europeus. Quem fez a dívida brutal que hoje estrangula a Grécia e a jogou no abismo não foi o atual governo, com meses no poder. Foram os anteriores.

Foi a alemã dona Angela Merkel, que há mais de dez anos comanda seus aliados, os banqueiros alemães, e estimulou o endividamento grego. Foi o FMI (Fundo Monetário Internacional), já há vários anos dirigido por essa estranha girafa rebolante, a dona Christine Lagarde. Foi a direita grega reunida na “Nova Democracia”, sempre aliada, associada, submissa e servil aos banqueiros europeus, alemães, ingleses, suíços. Todos vorazes.

Tinha razão o lúcido historiador brasileiro Daniel Aarão Reis:

– “No referendo, o povo grego escolherá entre a submissão e a autonomia. Entre os velhos engravatados da Europa dos bancos e os jovens de Atenas, da Europa da solidariedade e das indumentárias informais. O comportamento deles evoca uma frase de Hélio Pellegrino, referindo-se aos líderes estudantis das passeatas brasileiras de 1968, barrados no Palácio do Planalto por impropriamente vestidos: “Não têm gravatas mas têm caráter.”

NÃO

A Grécia de Alexandre, que um dia derrotou a Pérsia, e Hitler e Stalin e os ingleses, derrotou os banqueiros europeus dizendo-lhes “Não”.

O que canta na Grécia encanta em mim.

9 thoughts on “A mãe da democracia disse não

  1. Incrível a inversão de valores do Nery. Se a Grécia está nesta situação difícil ela é decorrência da incompetência grega. Não são os banqueiras que administram o dinheiro que vai para a propina e para os fins não produtivos, São os gregos e a Grécia não derrotou os banqueiros, a Grécia derrotou a si própria, porque quando faltar o alimento na mesa, não serão os banqueiros que vão sentir fome.
    O artigo do Nery, lembra muito a esquerda festiva do Brasil. A culpa é sempre dos outros e os “coitadinhos” estão sendo explorados. Na verdade o Brasil de 2015 já está muito parecido com a Grécia de 2010 embora econômicamente sejamos muito superiores, mas iguais na corrupção.

    • O Nery, tem um viés esquerdista que é de matar, ele não entende nada de economia, e muito menos de capitalismo. Em seu olhar socialista, confunde banqueiros com o capitalismo, que não é verdade, banqueiro sempre se dá bem, com governos socializantes , veja a nossa situação, não é? Como eles estão na boa, juros escorchantes, e economia estatizante e socialista, com quase 40 por cento do PIB, na mão do governo. Nery, governo só gasta, e não ganha um puto, a sua ineficiência é monstra, impede quem quer trabalhar de verdade, premia os vagabundos , e suga os ganhos da sociedade, e nós acabamos nas mãos dos banqueiros, tá Nery.

  2. No Brasil não houve punição aos ditadores porque a abertura (concedida por eles e consentida pelas cúpulas dirigentes da época, que se encontravam à frente a Arena e o MDB) foi “lenta, gradual e segura”. Bem simples.

  3. Será que estou contaminado por esse ‘neoliberalismo facista’ ou é o sr. Nery que está vendo banqueiros onde vejo BCE, FMI, Alemanha e França?
    Economia é uma física ainda pouco praticada pelas pessoas. Um dia, oxalá, as pessoas entederão que gastar mais do que se recebe pode provocar quedas, assim como se atirando do segunda andar, a gravidade te levará fortemente para o chão.

  4. A Grécia derrotou Hitler ? Achei que tivessem sido EUA e URSS com ajuda de alguns outros países. Me ensinaram errado.

  5. É realmente uma situação de encruzilhada e o povo grego está pagando para ver. É como um jogo de poker e o próximo movimento cabe aos financistas internacionais, FMI, BCE, Banco Mundial e a própria União Européia.

    O preço a pagar para os gregos e eles tem que se preparar para isso é serem expulsos da União Européia e voltarem a ter que usar uma moeda própria que provavelmente seria a volta do DRACMA. Mas parece que a União Européia morre de medo disso e caso não endureça o jogo vai ter que ceder muito ao corajoso povo grego.

    Mas tudo isso poderia não estar acontecendo se logo após a crise financeira de 2008 o mundo financeiro internacional tivesse adotado a TAXA TOBIN, aquela que tributava, ainda que com uma alíquota super reduzida a movimentação internacional de capitais. Lembro até que a Alemanha através de Angela Merkel como a França então governada por Sarkozi se mostraram simpáticos à ideia mas acabaram capitulando frente aos interesses hegemônicos dos governos dos EUA e Inglaterra que sempre fazem o que é do interesses dos seus financistas e grandes banqueiros.

    Cabe aqui uma critica tanto aos financistas que controlam os grandes capitais mundiais, mas também a governos irresponsáveis como por exemplo os gregos até, durante e após 2008, quando não seguiram aquela premissa básica que vale para governos, empresas, famílias e indivíduos de que, exceto na situação de investimentos realmente produtivos, devemos sempre procurar gastar menos do que ganhamos. Isso também vale para o nosso governo petralha que fez nosso país querer dar passos muito maiores do que nossas pernas com o comprometimento de gastos para copa do mundo, olimpíada, pré-sal e outros gastos e principalmente roubalheiras. A nossa sorte é que, ao contrário dos gregos, não adotamos uma moeda transnacional como o euro, senão aí sim nossa situação seria realmente trágica.Aliás os turcos(“grandes amigos dos gregos”) não se cansam de agradecer a União Européia pelo fato de não terem sido aceitos pelo bloco.

  6. Licença: Santa Penélope (século 4), da Igreja Ortodoxa, é muito querida na Grécia e Macedônia, onde nasceu. Peço a ela que abençoe o povo grego. Torço pelo governo para que faça um boa gestão. Na Mitologia, Penélope é aquela que ficava tecendo… que os gregos comecem a tecer uma vida melhor… eles merecem.

  7. O Nery, como todo esquerdista que se esbalda nas delícias do capitalismo não passa de um embusteiro. Suas historietas sobre o folclóre político, justiça seja feita, são ótimas. Mas estas mal traçadas tem apenas o condão de suscitar dúvida atroz: se nossa absurda Constituição foi promulgada em 5 DE OUTUBRO DE 1988, como o Nery, EM JANEIRO DE 1988, deu “uma entrevista a TVs, rádios, revistas e jornais sobre o Brasil e a Constituinte que tinha acabado de aprovar nossa nova Constituição”? Aguardo esclarecimento. Amém.

  8. Este nery , é um mentiroso, pois chamar o delinquente do vilas de bravo ?
    Mas quem já foi adido cultural do collor em Paris, pratica qualquer estelionato sem dificuldade

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