A me da herana maldita

Gaudncio Torquato

A expresso herana maldita, de to banalizada, virou carimbo para marcar a feio de governos. Foi inicialmente usada por Lula, em 2003, para dizer que recebeu do ciclo tucano um pas quebrado. Nos ltimos tempos, o termo tem se virado contra o PT, colado aos escndalos de corrupo. Mas a sndrome da maldio de governos tem origem na poltica. Basta anotar a coletnea de mazelas que se extrai do pleito eleitoral, entre as quais se incluem as coligaes proporcionais, a infidelidade partidria e o prprio estatuto da reeleio. A herana maldita das gestes filha da herana poltica.

Veja-se a primeira contrafao: dos 513 deputados federais, apenas 35 receberam sufrgios suficientes para se eleger sozinhos. Os restantes 478 ganharam o mandato pela soma dos votos dados legenda ou de outros candidatos. O eleitor vota em um candidato, e este puxa outro, de baixa votao; assim, a representao fica distorcida.

A segunda mazela surfa na onda do Estado-espetculo. Arrumam-se palcos para o desfile de candidatos. De um lado, os candidatos majoritrios, com espaos mais largos, apresentam-se sob a batuta dos marqueteiros. Debates entre candidatos majoritrios, que deveriam propiciar comparaes entre propostas, so engessados por regras e, quando permitem o confronto direto, nivelam-se por baixo, fazendo fluir acusaes recprocas. J na esfera de candidatos proporcionais, o desfile de caras, bocas e caretas um espetculo de non-sense.

COALIZES ENLOUQUECIDAS

Na torrente de incongruncias, a liberdade dos partidos de optar nos Estados por rumos diferentes dos seguidos por eles na esfera federal afigura-se como estapafrdia. Ademais, a multiplicidade de siglas funciona como uma engrenagem defeituosa. Teremos, na prxima legislatura, 28 siglas representadas na Cmara Federal.

E o que dizer de um senador sem um voto sequer? um contrassenso ver chegar Cmara alta um suplente sem sufrgio no lugar do titular. Na composio ministerial, tem sido comum o convite para senadores ocuparem cargos de ministros ou, ainda, de candidatos aos governos estaduais. quando o suplente ascende ao posto. O mais lgico seria a ocupao do cargo pelo segundo candidato mais votado no Estado.

REELEIO INDBITA

Para fechar o circuito das mazelas, deparamo-nos com o estatuto da reeleio. Em democracias consolidadas, a reeleio pode ser um eixo de aperfeioamento democrtico, no entendimento de que o mandato de quatro anos seria insuficiente para um partido no poder concluir sua obra. Em pases de instituies polticas e sociais em processo de consolidao, como o nosso caso, a reeleio bafeja os governantes, eis que, sem se afastarem do posto, usufruem do simbolismo e da fora inerente ao cargo. Essa alavancagem contribui para entortar a rgua da igualdade.

Um mandato de cinco anos, sem reeleio, cairia melhor na moldura de nossa democracia, pois propiciaria a renovao de mandatrios e a oxigenao das estruturas governativas.

Essa a farta herana maldita que o Brasil precisa banir. (transcrito de O Tempo)

2 thoughts on “A me da herana maldita

  1. Sr. Torquato, timo artigo, o PMDB/RIO/RJ, Pref. Paes, deu nome e sobrenome a politicagem nacional: SURUBA E BACANAL.
    o CIDADO- CONTRIBUINTE- ELEITOR, VOTA COM DIGNIDADE, NO REELEGENDO, OU VAI CONTINUAR PASTANDO COM OS DESGOVERNOS. DIA 26, TEREMOS O GOVERNO QUE ELEGERMOS, PORTANTO, A RESPONSABILIDADE NOSSA, BOM LEMBRAR LUTHER KING E EA DE QUEIROZ. POR UM BRASIL DECENTE E JUSTO.
    CHARGE DO SPONHOZ, DIZ TUDO.

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