A mãe desalmada

Sebastião Nery

RIO – Manoel Novaes fazia comício em Irecê, nos estorricados sertões da Bahia. Um candidato a vereador pegou o microfone:

– Minha gente, quem deu a nossa perfuratriz?

– Foi Novaes!

– O que é que a perfuratriz faz?

– Tira água do chão e dá água para nós.

– E a vaca que dá leite para nossos filhos, bebe o quê?

– Bebe a água que a perfuratriz tira do chão.

– Então, quem dá leite a nossos filhos?

– É Novaes!

– Portanto, vamos votar em Manoel Novaes, a vaca do sertão!

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NOVAES

Durante mais de meio século, Manoel Novaes, nascido em Pernambuco e a vida inteira vivida na Bahia, cujo centenário foi em março de 2008, alto, quase dois metros, voz de trovoada, cara grande e generosa de sertanejo, olhos ensolarados, foi exatamente isso : a vaca santa, leite e esperança, emprego e trabalho, no infinito sertão do São Francisco.

Novaes foi uma vida a serviço de um rio muito longo e um sertão muito seco. Médico, estava na Constituinte de 34. Na de 46, também. E conseguiu ver aprovado 1% da receita tributaria da União para aplicação no Vale do São Francisco. Daí nasceu a CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). Já advertia Novaes :

– “Cometeremos um erro insanável se adiarmos por mais tempo seus problemas. As precipitações pluviométricas da região se tornam irregulares de ano a ano, as condições de navegabilidade pioram, as erosões das margens alargam e obstruem o leito, a evaporação das águas aumenta”.

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DILMA

Lula chamou Dilma de “Mãe do PAC”. Seria mais do que Novaes, seria a “Vaca do Sertão”. O PAC foi anunciado para todo o pais. E agora se percebe que a presidente é uma mãe desalmada : abandonou o PAC, que está morrendo de descaso e penúria. Uma morte lenta e degradante.

Em mais de 90% das obras já nem se fala mais. O programa “Minha Casa Minha Vida” é um dos raros, raríssimos, que ainda têm obras porque, a cada chuvarada, a cada enchente, a cada tragédia, aparece o governo com um pacote de promessas, garantindo “novas casas, novas obras de infraestrutura”, que só vêm aos pingos, como os restos das chuvas.

Mas a grande obra que parecia vir para salvar o PAC do fiasco nacional, porque se acreditava que estava sendo feita e seria concluída, era a transposição no rio São Francisco. Depois de longos meses de silêncio, de repente as televisões mostraram uma visão patética : os canais parecem caminhos de camelo no deserto, sem as calhas e sequer um balde de água.

Para onde foram os bilhões distribuídos com as empreiteiras amigas?

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SÃO FRANCISCO

A cada seca o São Francisco volta a ser o centro de um aflito debate nacional. O governo apresentou um projeto bilionário para transpor uma parte de suas águas e distribuí-las por Estados do Nordeste. Tudo certo, se o rio tivesse saúde. Mas o rio está cada dia mais doente. Doente não doa sangue. Precisa de sangue. O ministro Carlos Ayres Brito, ex-presidente do Supremo Tribunal, sergipano, nascido às margens do rio, protestou:

– “Promover a transposição de águas do São Francisco no contexto atual equivale a fazer transfusão de sangue de um doente terminal na UTI”.

O assoreamento aumenta a cada dia, a ponto de hoje toda a extensão do rio possuir imensos bancos de areia, separados por estreitas vias por onde só conseguem passar pequenas lanchas de passeio. É um rio esvaído.

E o governo quer matá-lo, a serviço dos empresários da irrigação.

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TRANSPOSIÇÃO

Antonio Conselheiro disse que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão. Já começou. Da hidroelétrica de Xingó até a foz do rio são 208 quilômetros, separando Alagoas e Sergipe. O leito do rio voltou a transformar-se em um imenso mar de areia, bancos de areia. A 135 quilômetros da foz se pescam peixes de alto mar, como o robalo.

A ponte que liga Sergipe a Alagoas, a 45 quilômetros da foz, até há poucos anos tinha uma lâmina de água de 45 a 55 metros. Agora, todo ano pode-se atravessar o rio a pé, de moto ou a cavalo. As águas do rio chegam ao mar apenas por dois pequenos canais nos lados extremos da ponte.

Com os 6,5 bilhões do projeto, que já chegaram a R$10 bilhões, podia-se levar água a todo o semi-arido do Nordeste. É o mensalão fluvial.

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JOÃO ALVES

As civilizações nasceram dos rios. Está registrado na historia, na Bíblia, no Genesis, há 4 mil anos, o conflito entre pastores, pelo acesso à água de um poço em Berseba, na Judéia. Abrahão teve que resolver.

O drama do São Francisco está em um livro definitivo :“Toda a Verdade Sobre a Transposição do rio São Francisco”(Ed. Mauad-RJ), de dez professores coordenados pelo prefeito de Aracaju. João Alves Filho.

É hora de a Câmara criar a CPI do São Francisco, escândalo anual,

sebastiaonery@ig.com.br

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