A mágoa de quase 26 anos que neste 23 de abril de 2019 passei a não tê-la mais

Jorge Béja

A Tribuna da Internet é um blog dinâmico. Está sempre no ar, atualizado e nunca estático. Notícias e artigos e são publicados de imediato. E incrivelmente editado por um só jornalista, Carlos Newton,  seu criador.  Nele escrevo há cerca de 7 para 8 anos. E dos articulistas, sou o menor de todos. O blog conta com seletos leitores que postam seus comentários sempre de alto nível. Tenho muita honra e sinto grande prazer de participar da Tribuna da Internet como articulista e colaborador para sustentá-lo no ar, visto que os gastos com sua manutenção não são poucos.

Desde novembro de 1993 que trago comigo grande mágoa que me causou a revista Veja (Vejinha-RJ). No auge do exercício da advocacia e devido à projeção que alcancei, não por méritos próprios, mas em razão das rumorosas e inéditas causas que abracei, sempre em defesa de pessoas vitimadas (foram mais de 30 mil causas), a Veja me pediu uma entrevista de uma página.

LONGAS ENTREVISTAS -Queria saber da minha vida, do meu dia-a-dia e como eu fazia para me sustentar, pois trabalhava mais gratuitamente do que cobrava honorários. Além disso — justificou a revista –, eu também era pianista e dava modestos recitais, todos beneficentes.

Concordei. E durante  quatro dias (segunda, terça, quarta e quinta-feiras) a delicada e fidalga repórter Márcia Vieira se encontrava comigo pela manhã e comigo passava quase o dia inteiro, registrando tudo. Até meus álbuns de fotos e notícias Márcia carregou com ela e depois me devolveu. Fotos no escritório, nas ruas, no fórum, recebendo clientes…e muito mais, tudo foi feito pelo fotógrafo da Veja-Rio.

E eu acreditando que a entrevista de uma página serviria para estimular outros advogados, principalmente no início da carreira, a obrar sempre e sempre e desinteressadamente pelo próximo, preferencialmente pelos pobres, vítimas das mazelas do poder público e de acidentes e tragédias, naturais e causadas pela incúria humana.

UTIL & FÚTIL – Mas não foi bem assim. Não foi nada assim. No domingo seguinte, quando a Veja-Rio foi para as bancas, minha foto ocupava toda a capa da revista. Embaixo da foto o título “O Chato Útil”. E dentro da revista, em sete páginas, uma outra grande foto com outro título: “Dr. Útil & Fútil”.

Chato, porque eu corria atrás e contra os grandes e poderosos em defesa dos pequenos e pobres. Fútil, porque proibi Madonna de se apresentar no Maracanã com a bandeira brasileira, que ela prometeu esfregar na vagina como “prova de amor ao Brasil e aos brasileiros”. Fútil, porque proibi César Maia de pagar 6 milhões de dólares a Michael Jackson para o cantor, que estava em São Paulo, viajar até o Rio e cantar aqui.

Fútil, porque outra vez proibi o mesmíssimo prefeito de pagar outros 6 milhões de dólares ao cineasta e então senador italiano, Franco Zefirelli, para comandar o Réveillon daquele ano na praia de Copacabana.

DALAI LAMA – Fútil, porque foi com um Habeas-Corpus que impetrei em Brasília que consegui que o Dalai Lama Tenzin Guiatzu e sua comitiva viessem ao Brasil participar da Eco-92, uma vez que o governo brasileiro, subserviente à China, negara-lhe o visto.

Fútil, porque também foi com outro Habeas-Corpus que voltei a Brasília  para impetrar e garantir que o então cacique Mário Juruna viajasse até Roterdã e ocupasse sua cadeira no Tribunal Bertrand Russell, lá reunido para discutir a situação indígena de todo o mundo. Juruna, então tutelado pelo Estado Brasileiro, foi havia sido impedido de viajar até que a ordem judicial derrubou a proibição. E Juruna viajou.

Fútil, porque, ao ler nos jornais a situação da paciente Dilma Fernandes, internada no Hospital Souza Aguiar, onde suas carnes serviam para a comida dos ratos do hospital, também por conta própria e através de Habeas-Corpus, retirei-a de lá, fechei a enfermaria e o diretor do hospital foi levado para a delegacia.

COMIDA DE RATO – Dilma estava em coma, com paralisia cerebral e engessada da cintura até os dois pés. Com o emagrecimento, as pernas foram definhando, definhando e os ratos do hospital entravam pela vão, entre o gesso e as pernas (fininhas, fininhas) e comiam as carnes de Dilma. A princípio o juiz criminal negou o habeas-corpus.

“Ela não está presa, doutor”, disse o juiz. Quando respondi e disse que estava numa situação pior do que presidiária, porque sem condições de se defender, aí o doutor me deu razão e expediu a ordem de remoção, fechamento da enfermaria e condução do diretor até à presença do delegado de polícia.

LIBERTAÇÃO – Era uma mágoa que a Vejinha-RJ me causou e que me acompanhava até o dia de ontem, 23 de abril de 2019. E a mágoa se foi. Saiu de mim e me deixou de vez. Tudo por causa do artigo que o doutor José Carlos Werneck, advogado militante em Brasília, escreveu e publicou aqui na Tribuna da Internet. Artigo em minha homenagem, em comemoração ao 23 de Abril (73 anos de idade). Com elogios que não mereço.

Saiba, doutor Werneck, seu artigo, fora da linha editorial da TI, me lavou a alma, como se dizia antigamente. Retirou de mim a mágoa que a revista Veja (Vejinha-RJ) cravou no meu sentimento, na minha honra e na minha reputação, e doravante nunca mais tê-la-ei. Tudo, graças ao seu artigo, doutor José Carlos Werneck.

Para que os leitores tenham, ainda que ligeira e incompleta, a dimensão da publicação da referida revista em novembro de 1993, aqui vão reproduzidas, sem os devidos caprichos fotográficos, a capa e uma das 7 páginas da longa matéria sobre minha vida que a Revista Veja-Rio publicou. Obrigado, doutor Werneck. Obrigado, Carlos Newton. Ambos me tiraram o peso da mágoa que me acompanhou por quase 26 anos.

16 thoughts on “A mágoa de quase 26 anos que neste 23 de abril de 2019 passei a não tê-la mais

  1. Caro Dr. Béja

    Realmente um absurdo mas faz parte da nossa evolução espiritual perdoar e superar as agressões que recebemos durante nossa vida.

    Conselho de uma pessoa que o admira jogue esta indigna publicação no mar e apague de sua mente tudo isso.

    Será como se o Senhor desse um recibo de sua superação.

    Abraços!

  2. Dr. Béja, é uma pena que o Sr. tenha se deixado magoar tão profundamente por essa revista venal e corrupta que até há pouco era de propriedade da desprezível família Civita e que agora pertence aos bancos que eram seus credores. Uma família que faz com os seus empregados o que os Civita fizeram não é digna nem do nosso desprezo.

    https://www.brasildefato.com.br/2019/04/18/editora-abril-tem-novo-dono-mas-calote-em-trabalhadores-permanece/

  3. Infelizmente temos milhares de The Sun e nenhuma Nature. Os coronéis-editores e os jornalistas ativistas crescem como capim após a chuva no terreno fértil da falta de estudo e civilização. Como se dizia: em se plantando tudo dá…

  4. Prezado doutor, o senhor se lembra do teu artigo, nesta Tribuna, sobre a arbitrariedade do Ibama, ao destruir, sumariamente, os bens dos trabalhadores ilegais, enquanto os bens dos traficantes de drogas e contrabandistas eram preservados até o processo transitar em julgado?
    Pois é! Parece que o senhor será, finalmente, atendido;

    “O Ministério do Meio Ambiente decidiu mudar as regras para a destruição de máquinas e veículos pesados em operações de fiscalização contra infrações ambientais. Citando “inúmeras reclamações” sobre abusos na utilização do mecanismo, ele determinou que a regra seja reeditada pelo Ibama. A decisão ocorreu após o presidente Jair Bolsonaro afirmar, em vídeo, que “não é para queimar maquinário, trator, caminhão, seja lá o que for”.
    (G1)

    • Na minha opinião, deveria queimar de todos.

      Mesmo o trabalhador, especialmente em flagrante, que, na verdade, atua com seu bem em detrimento do bem público que pertence à toda coletividade.

      Esses dias foi divulgado vídeo de alguns indivíduos abrindo picada na mata, surpreendido pelos locais, indígenas, que ao questionarem foram avisados que agora vêm em poucos mas poderia esperar que logo viriam 200 com tratores…
      É isso aí que se defende.

  5. A OUTRA FACE DA MOEDA FÁCIL!

    (DEFESA MILIONÁRIA)
    “Advogado ostentação” cobra R$ 3,7 milhões de honorários de agropecuária em MT
    Djalma Rezende ficou conhecido no país ao gastar R$ 8 milhões em casamento com uma mulher 38 anos mais jovem

    DIEGO FREDERICI

    Da Redação

    djalmarezend.jpg

    O escritório Djalma Rezende Sociedade Individual de Advocacia cobra na Justiça o pagamento de R$ 3.761.933,12 milhões da Primorosa S.A AgroPecuária Indústria e Comércio, de Ribeirão Cascalheira (891 km de Cuiabá), por honorários advocatícios não pagos. A empresa pediu a penhora de bens da organização via Bacenjud – um sistema que interliga o Banco Central e o Poder Judiciário – alegando que a empresa estaria se “desfazendo do patrimônio” para não quitar o débito…………….

    https://www.folhamax.com/economia/advogado-ostentacao-cobra-r-3-7-milhoes-de-honorarios-de-agropecuaria-em-mt/165376

  6. Lendo a narrativa histórica de sua atuação fiquei impressionado das tantas causas que pegou, mas muito mais pelo advogado exemplar que como cidadão aproveita para manejar o direito no interesse público de todos.

    Logo me veio á cabeça o seguinte pensamento:
    – Um cidadão como esse certamente há de ter sido ao longo de sua trajetória reconhecido e condecorado com medalhas Tiradentes e títulos tanto da Câmara Municipal, da Assembleia Legislativa e Congresso, não?

  7. Belíssimo artigo.
    Aqui no Brasil é considerado chato e fútil qualquer um que não rasteje diante dos poderosos do momento e aplauda seus caprichos. O puxa-saquismo é uma maiores expressões da alma nacional. Naturalmente, a decadente Veja achava muito certo que Cesar Maia torrasse montes de dinheiro público com Michael Jackson e Zefirelli, e que Madonna cometesse suas vulgaridades com a bandeira nacional, afinal eram coisas de gente importante e muito querida da mídia, e mostrariam como o Brasil é prestigiado…

  8. O caríssimo dr.Béja demonstra, neste seu texto em tela, a diferença imensurável entre os que seguem qualquer ideologia, com um cidadão que tem seus ideais!

    Os primeiros deixam de lado até mesmo o próximo para implantarem um regime que manipulará as pessoas, que as enganará, cerceará suas liberdades e direitos de ir e vir;
    o idealista pensa em primeiramente servir o ser humano, melhorar suas condições de vida, trazer a Justiça a todos mediante esforços pessoais muito além do que poderia, pois o seu objetivo é o enaltecimento do semelhante, homens e mulheres, e sejam elas parentes, amigas, conhecidas ou absolutamente desconhecidas, pois todos são iguais em seus direitos e deveres!

    Apesar de o dr.Béja se sentir magoado por tanto tempo, causado por uma reportagem que teve como intenção limitar a sua atuação exitosa, a bem da verdade coube à revista receber no decorrer do tempo deste episódio lamentável aos dias de hoje, o repúdio do povo brasileiro, a perda de eleitores, de credibilidade, resultando a sua praticamente falência pelos erros cometidos em suas páginas meramente sensacionalistas, e muitas delas descomprometidas com a verdade.

    Evidente que a mágoa sentida foi pela injustiça de uma reportagem, escrita por uma repórter que fraudou a confiança do eminente advogado quando era entrevistado por dias a fio.
    Mas, as mágoas, as tristezas, as decepções têm um fim, ainda mais quando proporcionadas por más intenções, por conclusões tendenciosas, por ideias obtusas.

    Hoje, o nosso célebre articulista, que anteontem fez aniversário, segue sendo um dos exemplos a ser seguido como cidadão, esposo, profissional reconhecido nacional e internacionalmente pela sua capacidade e conhecimentos jurídicos, enquanto o hebdomadário sequer é citado pelo povo, pelo contrário, quando comentado é através de palavras que apresentam desencanto e desconfiança por aquilo que publica!

    Nada resiste à verdade.
    Cedo ou tarde ela vem à tona com força, mostrando suas evidências e definindo o útil do inútil, o pertinente do inadequado.

    Dr.Béja, competência, utilidade para o ser humano, idealista, compreensivo, tolerante, cristão, amigo de todos nós, profissional de qualidade e competentíssimo.
    A Veja, com o tempo, mostrou-se inútil, chata e fútil!

    Minhas reverências ao brilhante e ímpar ser humano, que divide este espaço até mesmo com pessoas como eu, sem eira e nem beira, pertencente à plebe ignara, à patuleia, e que sempre tem uma que outra palavra de incentivo, de apoio, de solidariedade a este inculto e incauto escrevinhador.

    O meu abraço forte, caloroso e fraterno.
    Saúde, muita SAÚDE, caro dr.Béla.

  9. A todos os leitores agradeço, penhoradamente, o conforto que me trouxeram com os comentários.

    E a Francisco Bendl, digo:
    se mesmo depois, ainda alguma sequela, alguma cicatriz restar, basta ler seu comentário para as marcas residuais desaparecerem para sempre.

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