A maldição da Casa Civil. José Dirceu parecia o homem certo no lugar certo. Demitido estrepitosamente. Palocci não poderia ter sido, Dona Dilma não fará nada?

Helio Fernandes

Para uma análise correta é preciso estabelecer claramente a diferença entre Dirceu e Palocci. Na penúltima campanha de Lula, quando muitos adivinhavam a primeira vitória dele, ninguém era mais íntimo, amigo e entrelaçado com o futuro presidente do que Dirceu.

Eu mesmo escrevi no jornal impresso, baseado em informes, informações, depoimentos, que Dirceu chamava Lula de “você”, era correspondido com um “senhor”. Isso, depois de presidente, na intimidade. É sempre difícil abandonar um tratamento arraigado, repetido, habitual e mais do que normal.

Dirceu era tido e havido como Chefe da Casa Civil, foi nomeado, empossado e aplaudido, sem qualquer restrição. Não se pode deturpar os fatos, para também não deturpar, macular e comprometer as observações. A entronização de Dirceu ajudou a compor as coisas, a estabelecer, politicamente, o mandato de Lula.

O primeiro descuido, displicência, verdadeiramente desastroso, foi o episódio da Loterj. Envolveu o seu homem de confiança, que faturava desabaladamente. Foi uma surpresa em matéria de honestidade, agravada pelo fato de Dirceu ser considerado competente.

Como Lula diria mais tarde no episódio do mensalão, “o chefe da Casa Civil não sabia de nada”. Nesse mensalão, tanto Lula quanto Dirceu estavam “chafurdados”. Lula sobreviveu, apesar de totalmente comprometido. É que ele não teve cerimônia, piedade, condescendência.

Lula sabia pouca coisa, mas nesse momento a sabedoria estava numa escolha: “Ele ou eu”. O país todo conhece a decisão do presidente. Dirceu perdeu a Presidência da Republica, mergulhou nos subterrâneos dos negócios. E não sairá mais, de maneira alguma.

Sua participação nas acusações contra Palocci (mais do que “comprovadas”, representam a forma que lhe sobrou para percorrer o caminho que percorria de dentro do Planalto. Ele tem razão numa coisa: “Palocci não deveria ter sido nomeado para a Casa Civil, não tem dignidade nem competência”. Nota mil na observação, mas Dirceu jamais sairá da superfície, ele que tanto se orgulhava da conquista do Planalto.

A palavra “maldição”, que coloquei no título destas notas, pode ser contestada. E principalmente por Dona Dilma. Ela tem todo o direito. “Eu não fui amaldiçoada ou destruída pela Casa Civil. Saí de lá para a presidência da República”.

Rigorosamente verdadeiro.

Ela está no lugar que seria de José Dirceu. E só está no cargo e na altura mais elevada da República, precisamente porque Lula demitiu sem complacência o maior amigo, o mais intimo e o mais influente. Se perdoasse e poupasse Dirceu, quem correria perigo e poderia nem terminar o mandato? Lógico, ele, Luiz Inácio Lula da Silva;

Agora, Dona Dilma enfrenta o mesmo problema de Lula no passado, quer conciliar em vez de resolver? Não há conciliação com a corrupção. E o que é que Palocci tem de tão indispensável? Até hoje, quase 5 meses já passados, o ex-ministro da Fazenda, demitido acintosa e desprezivelmente, só vem criando problema, e dos grandes, dos maiores.

Não sendo indispensável, certamente Palocci não é imprevisível. Deixou suas digitais em todos os lugares, por que essa temeridade de tentar salvá-lo? É a sua salvação que está em jogo, presidente. E o que a senhora arrisca, em matéria de tempo, pode ser calculado entre 3 anos e meio e 7 anos e meio.

 ***

PS – E Palocci? Já perdeu tudo, insensato, inconsciente, imprudente, trocou o Poder pelo pesadelo.

PS2 – Fechado num apartamento, suando, bebendo, fumando, tentando escrever o que não sabe, tem que responder ao Procurador-Geral da República. Que desde o inicio foi cuidadoso e cauteloso com ele.

PS3 – Palocci chamou o assessor que ajudou a massacrar o caseiro, teve que aceitar a recusa.

PS4 – E não é apenas sua carreira, Dona Dilma, que está em jogo. É a tranqüilidade do próprio país. As CPIs podem não produzir resultados, mas na certa criam confusão. No Planalto e fora dele.

PS5 – Não quero amenizar nada, não gosto e não preciso. Mas o seu governo, Dona Dilma, estava (está?) razoável, mais ou menos, por enquanto suportável.

PS6 – Nada brilhante, quem sabe dando a versão da esperança? Mas mesmo esse governo é suportável perto do insuportável e intolerável que é a permanência de Palocci.

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