A Minas de Tristão de Athayde talvez esteja a caminho do sumiço

Acílio Lara Resende

O advogado José Romualdo Cançado Bahia, ex-presidente da Associação Comercial de Minas, sempre atento ao que se passa em nosso país, e decepcionado com os escândalos que explodem a cada dia em nossa política, indagou outro dia: “Não será esta a hora de Minas submeter à nação um novo manifesto dos mineiros?”.

Quantos sabem hoje o que significou para o país esse manifesto? Alguns poucos, talvez, além do Romualdo, de mim e do ex-vereador Antônio Pinheiro, cuja vida pública merece muitos aplausos.

Pouco antes da sugestão de José Romualdo, Pinheiro, que já abriu mão dos subsídios de vereador, me disse que está à procura de candidatos à Câmara que aceitem dispensar não só os subsídios, mas todas as demais regalias que o cargo proporciona.

A sugestão do advogado José Romualdo esbarraria, com certeza, na indisponibilidade de gente disposta a redigir o manifesto e a subscrevê-lo. Além disso, buscar remédio no passado para curar males do presente talvez não funcione. O político brasileiro, hoje, é outro.

A proposta do ex-vereador Pinheiro esbarraria na inexistência de partido político capaz de acolher candidatos com tal perfil (capazes, também, de reagirem contra o “jogo do bicho” em sua própria Casa!). Provavelmente, e lamentavelmente, não teria sucesso.

Romualdo e Pinheiro me trouxeram à memória nomes de brasileiros notáveis que fizeram história no país. Qualquer um, que já passou dos 50 anos, saberá nomeá-los. O ruim é que os meus netos, que estão vindo por aí, não têm, e nem sei se um dia terão, conhecimento da existência deles. Para eles, Minas e o país só têm “cachoeiras”…

Alguém me arguirá, com saudade: “Esses seus amigos defendem aquela Minas que, se é que já existiu, não existe mais”.

Confesso que, hoje, estou quase me convencendo disso. E é por isso que me veio à mente o livro “Voz de Minas”, do humanista Alceu Amoroso Lima, mais conhecido pelo pseudônimo de Tristão de Athayde, editado há quase 70 anos. Desse livro para cá, o Estado mudou muito, industrializou-se, deixou o carro de boi para trás e, finalmente, conquistou o automóvel. Mas, e a Minas do doutor Alceu?

Terá se perdido no seu denso e insondável passado?

Não nego que nosso povo ainda tenha méritos, mas aquele endeusado tipo mineiro, tão festejado por quem não era mineiro, do qual recebi muitos ensinamentos, talvez esteja a caminho do sumiço.

Em seu memorável livro, o mestre nos equiparou aos suíços e aos ingleses. Foi dos primeiros a exaltar a mineiridade (ou a nossa qualidade de ser), que está ligada mais à alma e ao espírito, na qual, aliás, o historiador mineiro Francisco Iglésias não confiava muito…

Tristão de Athayde acreditava na missão de Minas no Brasil: “O amor à liberdade, que faz da Suíça um baluarte tão importante no jogo das forças políticas em cena, é também o que poderá fazer de Minas Gerais, um dia, o baluarte da nova democracia brasileira”.

Minas já foi esse baluarte, que, para ser permanente, exige homens de ideias (e já os tivemos). Hoje, sofre do mesmo mal que o Brasil: “Um país se faz com ideias. O Brasil de hoje assiste a fatos espantosamente tristes porque não tem ideias”, disse o ex-senador Afonso Arinos de Melo Franco, em 1983, no prefácio da reedição do livro do doutor Alceu (uma boa cartilha para quem pretende ser político).

Se em 1983 já era assim, imagine hoje, leitor…

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