A morte anunciada da Escola

Eduardo Aquino
O Tempo

Faleceu na madrugada deste novo século uma instituição milenar, a Escola. Nascida da necessidade de se preservar a cultura, educação, conhecimento entre gerações. Foi por muitos séculos, local sagrado, respeitado, berço de ciências tão distintas quanto as naturais, das quais se destaca a matemática – tida como a mãe de todas as exatas e lógicas –, a física, a química e a biologia. No seu seio, ainda se nutriram as ciências humanas, sem as quais a civilização não seria conhecida e compreendida, destaques aí para a filosofia, a teologia, a sociologia, a psicologia, entre outras.

Sejam as primárias, secundárias ou superiores, as Escolas deram origem às comunidades, onde habitavam e orbitavam professores, alunos, pais e funcionários. Desde já, órfãos dessa inenarrável perda, choram e lamentam profundamente o vazio irreparável. Morre, após longa agonia, por falência múltipla de órgãos: falência do MEC, das secretarias estaduais e municipais, das faculdades de pedagogia. Vítima ainda da anemia crônica de verbas, parasitadas por políticos sanguessugas com atuação em desvios de variadas verbas que iam desde as da merenda escolar até a modernização de espaços físicos ou remuneração digna aos mestres.

No seus dias finais angustiava-se com a indiferença dos pais, que há tempos não eram parceiros e, quanto mais ausentes, mais cobravam da Escola funções que não eram dela, como educar, estabelecer limites básicos às crianças, adolescentes, cada vez mais violentos, indiferentes, viciadas em eletrônicos e desmotivadas.

DESPRESTIGIADA

A Escola estava claramente mais deprimida, estressada, sentindo-se desprestigiada pela sociedade como um todo e pela comunidade escolar em particular. Lutou por séculos, na formação de uma sociedade justa, onde alunos associassem dons e vocações em áreas tão distintas quanto saúde, engenharia, direito, artes, música, letras, como também agricultura, comércio. Enfim, a Escola sempre foi um ser dinâmico, universal, transformador, mas que ultimamente foi sendo entregue literalmente “às moscas”.

Ultimamente, deu as mãos à palmatória, reconhecendo que não conseguiu acompanhar as rápidas transformações tecnológicas. Assim, como reconhecia que sua aparência e funcionalidade, com os arcaicos quadros negros, carteiras, salas herméticas e claustrofóbicas, pátios chinfrins, quadras detonadas, muros altos e prédios malcuidados, foram afastando o prazer, a alegria, o estímulo de professores, alunos, pais, funcionários.

Há décadas a doença que atingiu de morte a Escola já se instalara. A pressão alta por rendimentos em testes tipo Pisa, Enem, Enad, foi criando um estresse e os resultados cobrados por empregadores, sejam os governos ou particulares, eram desumanos e inalcançáveis. Desidratados por sucessivas greves, inchados por número de alunos indiferentes, desinteressados, desrespeitosos, insone por falta de recursos materiais e humanos, a Escola tirava licenças médicas sucessivas, tinha náusea, labirintite, acamava-se cada vez mais, com sensação de impotência e culpa. Tentou até terapia. Foi ao divã, mas estava ferida de morte. Velha, decadente, defasada, na fila do SUS, mal conseguia gritar no Jornal Nacional: “Estou morrendo de inanição, de desânimo, de abandono”.

A HORA DO APLICATIVO

Por fim, o golpe final: lançado com pompa e circunstância, o aplicativo New School, lançado por um grupo de dez adolescentes, que permite em simples toques num celular baixar todo o conteúdo para o ensino fundamental, médio e cursos superiores de qualquer área a distância. Tal conteúdo reúne o conteúdo dos melhores mestres das principais escolas do mundo com tradução simultânea.

Acabou mensalidade, trânsito, o “ai que saco”, acordar às 6 da manhã. O mundo é das gerações Y, Z e o que mais vier. Adultos são descartáveis. Sabedoria saiu de moda, hoje só informação rápida, descartável, deletável. O universo cabe na palma da mão, a tela é o infinito e a prisão em duas dimensões.

“Somos avatares de nós mesmos”, como disse a Escola em suas últimas palavras . “O verdadeiro câncer é o eletrônico, e invade a nossa mente e alma na velocidade da luz, nos arremessando num universo paralelo da realidade virtual” , continuou em seu leito de morte. E num suspiro final e um sorriso de paz no rosto, ditou a frase de sua lápide em bom e culto latim: “in virtus medium” (A virtude está no meio).

E viva os professores. Foi para vocês está estranha homenagem! Um novo tempo se aproxima, nele, pós-caos, somente o conhecimento artesanal será instrumento de sobrevivência. “Voar com gaiola e tudo! “

One thought on “A morte anunciada da Escola

  1. Aquino,
    Entendi este teu artigo como uma grande peça de ironia ou cinismo! Tens razão.
    Mas, não se deve esquecer que o ensino, e ai não é a educação pois esta é um processo familiar, enquanto existir uma civilização como a nossa, não perecerá.
    Na década de oitenta, um pensador da teoria da decisão comentando sobre o processo de ensino vaticinou: “O grande desafio para as próximas décadas será compatibilizar alta tecnologia com grande contato humano!”.
    No Brasil, não fizemos nem uma coisa nem outra.
    Quero aqui registrar duas máximas constatadas no dia a dia dos docentes e como pai de famílias:
    a) Quem não sabe o que procura quando acha não reconhece!
    b) Onde não tem exigência não surge a competência!
    Estudar cansa, pensar dói, a criança e o jovem deixados ao sabor dos ventos é como um barco sem leme.
    Se não houver cobrança e apoio adequados, o processo do ensino passa a ser uma farsa.
    O que estamos vivendo no Brasil é uma grande farsa!
    SDS
    Vitor.

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