A morte cerebral das escolas públicas

Eduardo Aquino
O Tempo

Ainda respira, pulsa, dá sinais de vida, mas funciona de forma vegetativa. O cérebro silencioso não permite que a mente pense, sinta ou aja. Aos poucos tudo vai atrofiando, muitas vezes só não morre pois heróicos personagens cuidam daquele ente inerte, numa esperança quase delirante de um renascimento.

Enquanto isso, na cabeceira da cama, professores, alunos, pais e funcionários tentam falar a mesma língua, se estranham, não entendem questões básicas de limite ou respeito.

A decadência há muito se anunciava quando o Estado – pai ausente, endividado, com múltiplas personalidades, incluindo a sociopática, se desinteressou de sua prole, a qual só percebe quando a mãe solteira, chamada “Educação”, ameaça dar escândalo, faz protestos e constrange o pai omisso. Sim, vale a máxima “em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão”. Se a família é a célula da sociedade e as escolas sua organicidade, estamos adoecidos gravemente.

Para piorar, um mundo virtual nos atacou, numa virose que se disseminou de forma epidêmica, e a geração de crianças e jovens logo sucumbiu e passou a viver como alienígenas no mundo real. Os adultos mais resistentes tentaram evitar que a hiperconexão dos jovens os alienassem. Mas a guerra se instalou, adultos no AM, jovens no FM, e, mesmo habitando o mesmo espaço, vivem em mundos absolutamente distintos.

NADA EM COMUM

Comunicação, comunhão de ideias, sentido de comunidade? Afinal todas essas palavras começam com o termo “comum” ou aquilo que todos compartilham.

Preparem-se, pois após essa fase tribal, egocêntrica e narcisista, mudanças grandes se avizinham, e aí a nova geração corre o risco de cair na real. E a moribunda escola terá que ser ressuscitada. Não com seus quadros negros e carteiras antigas, sua falta de atração e estímulo, com o autoritarismo histórico que gerou a falta de autoridade. Não a escola de alunos, pois estes são apenas parte desse organismo. Nem de professores que desgraçadamente foram rebatizados educadores, como se ensinar fosse educar. Nem dos pais, que terceirizam todos seus problemas e incompetências de estabelecer regras, limites, punições e gratificações no ambiente doméstico para a escola. Muito menos dos funcionários que têm que administrar o caos, dar suporte a todos e nem são reconhecidos.

A escola que tem que ressurgir é a que inspira, estimula, se move, cria. Um espaço múltiplo onde pais, alunos, professores e funcionários sintam-se em casa, onde reina o prazer, o desafio. Pois, sendo uma comunidade escolar, ela tem que vibrar, pulsar, reciclar conhecimentos, experimentar e ousar.

PAREDES DA ANSIEDADE

Derrubem-se as paredes em que já não cabem a ansiedade dos jovens, libertem das celas os adoecidos professores, que cumprem pena aguardando sua libertação via aposentadorias ou empreendem fugas para qualquer outro lugar que não o inferno escolar.

Não esperem o pai-Estado, adoecido pelo poder, arrogância e vaidade. Moram na “casa grande” com seus filhos e netos nobres. As senzalas apenas para os que, em manada, votam mal para garantir o mínimo, que é menos pior.

Sou desassossegado, inventei com meu filho que faz arquitetura a Eco-game-escola. Para reaprender a viver, todos nós, pais, filhos, professores, funcionários. Ah! Já ia me esquecendo: apresentei tal projeto para alguns pais desnaturados (políticos no exercício do Executivo). Desisti de esperar sentado.

8 thoughts on “A morte cerebral das escolas públicas

  1. “Como se ensinar fosse educar” — um alerta para os pais e para todos. O brasileiro, imfelizmente, está perdendo a educação, e é infantilidade esperar que a escola cuide disso, quando mal consegue cuidar do ensino.

  2. Do antigo primário à universidade sempre estudei em escolas públicas. Hoje retribuo com gratidão: sou professor da Rede Estadual, na Baixada Fluminense, RJ. Sonhador convicto, idealista !

    Acredito na Reencarnação, a Escola renascerá !

    Já escrevi em vários lugares, repito, o Projeto Rondon precisava voltar. Dizem, é do tempo da ditadura, e daí… a meu ver, era algo louvável…

    Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa … dizem os sábios !

  3. Boa noite,leitores(as).:

    Senhor Eduardo Aquino,o que hoje esta acontecendo com os SERVIÇOS PUBLICOS DO BRASIL de atribuiçao exclusiva do ESTADO NACIONAL,nao e nenhuma novidade,pois desde 1985 quando o primeiro Presidente da Republica civil assumiu apos 21de DITADURA MILITAR,deliberou-se de forma CRIMINOSA,deteriorar,degradar e destruir todos esses serviços atraves da ASFIXIA FINANCEIRA tanto dos funcionarios publicos acabando com a estabilidade e com plano de cargo e salario,quanto dos recursos para manutençao e investimento para melhoria dos mesmos,com um UNICO objetivo de PRIVATIZALOS-LOS a qualquer preço e com a agravante de faze-lo com DINHEIRO PUBLICO,atraves de falsos emprestimos sob mais diferentes artificios.

  4. Enquanto isto, a “pátria educadora” (ainda sem definição do que seja tal coisa…, sindicatos de professores (agora trabalhadores em educação) e o MEC (a sigla indica algo que o real anda longe) continuam mentindo que nossas escolas estão melhorando o aprendizado e o conhecimento.
    Mais uma geral de idiotas, talvez a maior de todas, a rápidos passos para o futuro, cada vez mais inserto.
    Pergunto: onde andam os pais e mães das crianças brasileiras? Abdicaram da educação e entregaram seus filhos ao estado podre, corrupto, laico e com avaliação negativa naquilo que produzem e oferecem.
    Quando falta povo, falta tudo!

  5. O que impacta na avaliação das escolas no comparativo entre pública e particular é o tempo de estudo. Considerando que as crianças e jovens são igualmente inteligentes, o curriculum escolar é o mesmo, os professores são os mesmos( muitos dão aulas nas escolas públicas e particulares) o que faz a diferença é que os alunos das escolas públicas por causa das greves anuais estudam em média 1,5 ano a mesmo que os alunos das escolas particulares. Veja que um jovem da escola pública ao fazer o Enen estudou 11 meses a menos por causa das greves anuais, só estou calculando um mês de greve por ano. Já na escola particular neste período não teve nenhuma greve, logo o jovem que estudou na particular estudou muito mais que os alunos das escolas públicas. Ontem terminou a greve de 3(TRÊS) MESES no Amazonas, como vão recuperar este tempo perdido, como os alunos vão competir por melhores empregos se deixaram de estudar 90 DIAS????

  6. Bom texto Aquino, parabéns! Desde que não queiram mais Paulo Freire (ou seja, mais veneno para curar a doença), creio que já teríamos um verdadeiro salto de qualidade no ensino.

  7. Depois da chamada “redemocratização”, nossos gloriosos homens públicos descobriram que
    educação e saúde, eram um grande negócio para ganharem dinheiro, inclusive público, através de bolsas, subsídios e, emprestimos que nunca pagariam. Então…foi o começo do caos,
    e, do descaso públicos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *