A morte de Rafael de Almeida Magalhães, não cumpriu o perfil e o destino de Presidente da República. Seu caminho foi truncado pelo golpe de 64. Como Teotônio Vilela, entrou na Arena, achava melhor o combate. Cassado em 1968.

Helio Fernandes

Ele acabou de fazer 80 anos, eu 90. Quando nos conhecemos, Rafael estava com 17 anos, eu com 27. Esses 10 anos de diferença marcavam o grupo brilhante do “Posto 2”, em Copacabana. Todos com o mesmo 80 ou 81/82, eu o mais velho de todos.

Em 1947, havia surgido a primeira Constituição da República, eleita pelo voto direto. (As outras, como os governos que não permitiram a realização da República, foram todas indiretas. Ainda hoje, muitos falam, “sou REPUBLICANO”, mas a palavra não entrou no dicionário brasileiro).

Jogávamos muito futebol de praia, principalmente no horário de verão, eu saía correndo da revista O Cruzeiro, onde era “Secretário-Adjunto” (o nome que existia na época, Editor chegaria muito mais tarde, trazido pelo grande Pompeu de Souza. Estudara em Londres e Nova Iorque,e viera reformular o jornalismo, dirigindo o “Diário Carioca”, onde implantou idéias incriveis).

Na praia já estavam Paulinho Soledade, depois grande compositor, Carlinhos Niemeyer, excelente figura, Rafael, o melhor de todos. Não foi peladeiro nem pode ser comparado a Pelé e Garrincha, pois não chegou a jogar. (Tolices, do pobre necrológico de hoje).

Teve excelentes propostas pára atuar por grandes clubes. (Principalmente o Fluminense, uma de suas paixões). Mas sua mãe, Dona Elza, não admitia de forma alguma. Doutor Dario fazia alguma resistência, mas admitia essa parada forçada, até que chegasse o momento da realização política.

Sempre pensou, viveu, atuou politicamente. Nas longas e não interrompidas conversas que tivemos, esse era sempre o ponto principal, fundamental, não ocasional. Eu sempre fui participante nato e direto, Rafael era mais comedido, trafegando por tom de coordenador, sem deixar de ser lutador. Ao contrário deste repórter, que forçava as portas para abrir os caminhos.

Para o repórter, era sempre a resistência pela resistência, os caminhos precisavam ser abertos e conquistados com luta. Nada pode ser aceito ou obtido por “generosidade” de quem estava (ou está) no Poder. Um exemplo disso foi a Frente Ampla. Eu e Rafael fomos os primeiros a tratar do assunto. (Sem esquecer de Sandra Cavalcanti, que conversou na Europa com Juscelino, pura intuição dela).

Rafael não quis participar das 8 reuniões, as duas primeiras na minha casa, as outras 6 na casa de Alberto Lee, grande amigo do extraordinário Enio da Silveira. (O empresário tinha a casa mais bonita do Rio, cedeu-a para as reuniões).

Uma noite, ainda no governo, Carlos Lacerda chamou Rafael e a mim para conversar sobre os encontros, que estavam para começar. (Ninguém chamava de Frente Ampla, isso foi denominação dada pelos jornais, depois que Lacerda leu na redação da Tribuna da Imprensa, o documento que ia ser assinado por ele, João Goulart e Juscelino).

Lacerda deu a palavra a Rafel, este fez brilhante e fugidia explanação sobre o assunto. O governador ficou furioso, esbravejou: “Você, Rafael, sempre com o seu maquiavelismo”. (Isso está no livro que escrevi em Fernando de Noronha, a ditadura intimou a todos, incluindo Carlos Lacerda, o editor da Nova Fronteira, o livro não saiu).

Lacerda então falou: “Helio, qual a sua análise desse reencontro?”. Falei por mais de 40 minutos, examinando o que no meu entendimento, aconteceria. Contra ou a favor. Eu já era totalmente a favor, Lacerda ficou abalado, disse apenas: “Vocês dois continuem conversando, me informem”.

Já depois de meia noite, fomos jantar no Albamar, o que fazíamos muito. Qualquer que fosse a hora da madrugada, o belíssimo restaurante abria para o Rafael. Na remodelação do centro da cidade, o governador queria acabar com o restaurante, o vice Rafael não deixou.

Em fevereiro de 1966, já fora do governo, eu candidato a deputado federal pelo MDB, Lacerda me telefona: “Helio por favor, faça um jantar, eu, você  e Rafael precisamos conversar”. Eu sabia o que ele pretendia.

Houve o jantar, Lacerda e Letícia, Rafael e Mitse, eu e Rosinha. Por volta de 11 horas da noite, o carro foi levar Letícia e Mitse, Rosinha foi dormir, ficamos nós três conversando a noite toda. Às 8 da manhã o empregado serviu café da manhã, continuamos até quase o meio dia.

Lacerda não conseguiu o objetivo: fazer Rafael entrar na Arena. Deu até o exemplo de Teotônio Vilela, que desde o início ensinou: “Entrei na Arena, é mais fácil combater de dentro do que de fora”. O herói que passou os últimos anos de luta, com um câncer que acabou por matá-lo, aparentemente tinha razão.

Rafael resistiu de todas as maneiras, até que contrariando o governador, resolveu: “Lacerda, isso que está aí vai durar 20 anos, não quero perder minha carreira”. Com notável intuição, acertou no prazo, errou nas consequências.

Por volta do meio dia fui levar os dois. Lacerda estava morando na Voluntários, enquanto ficava pronto o famoso e polêmico triplex do Flamengo. Para mostrar o sentimento de Lacerda, ao se despedir pediu a Rafael, “pense bem, nada terminou”.

Fui então levar Rafael, que morava em Copacabana, na Rua Assis Brasil. Dentro do carro, conversamos até as 4 da tarde, nada inédito. Lacerda não entrara em nenhum partido, eu fui direto para o MDB, não tive influência de ninguém. Logo depois, (a eleição era no mesmo ano de 1966), Rafael assinou a ficha da Arena, saiu candidato a deputado federal.

Éramos tidos como os deputados mais votados, Rafael pela Arena, eu pelo PMDB. Lacerda não apoiou ninguém, mas tinha visível predileção por Rafael. Um dia me explicou, não precisava: “Helio, não torço por você ou Rafael, só que a tua eleição será a mais votada do Brasil, quero que o Rafael se eleja”. Essa era a análise geral, jamais se saberá, fui cassado  três dias antes da eleição.

Rafael foi cassado em 1968 (logo a seguir do inacreditável AI-5), ficou apenas 2 anos. (Também foram cassados na mesma situação, Marcio Moreira Alves, Hermano de Deus Nobre Alves e Mario Martins, que se elegera senador por 8 anos, ficou apenas 2).

Rafael de Almeida Magalhães, um ser tipicamente político, se dedicou à advocacia cível e criminal, logo depois passaria a tratar apenas de grandes questões (fusões e coalizões). Mas sempre voltado para a política e o fim de tudo para ele, que era a Presidência da República.

Em 1986, mais ou menos às 11 horas, quase madrugada, Sarney ligou para ele, convidando-o para Ministro da Previdência, que aceitou. Exatamente à meia noite, Rafael me telefonou: “Helio, Sarney me convidou para Ministro da Previdência, aceitei, arranjei um avião, estou indo para Brasília, não queria que você soubesse por outras fontes”.  

E concluiu: “Sarney também chamou Jereissati para Ministro da Fazenda, ele deve chegar a Brasília, por volta das 7 da manhã”. Jereissati chegou mesmo, só que já estava vetado pelo doutor Ulisses.

Ficou apenas 1 ano, quem aguentaria Sarney mais do que esse tempo? Jader Barbalho, que Sarney nomeou Ministro da Previdência e da Reforma Agrária. (Depois disso, como é que Lula poderia dizer como disse: “Ninguém pode criticar Sarney”).

 ***

PS – Rafael seguiu sua trilha, acreditava no destino, era um otimista nato, em relação ao País e a ele mesmo. Tentaram fazê-lo vice, o pluripartidarismo é cruel e inexplicável, consagra Michel Temer, mas abandonou, por medo, um homem como Rafael.

PS2 – Nunca esteve doente, há dias vi uma entrevista dele num desses canais de TV que ninguém vê, ele simpaticíssimo como sempre. Os cabelos revoltos, magro, esfuziante e exuberante, exibia uma palavra admirável, a habitual.

PS3 – Não nos víamos há algum tempo. Dos 17 para 27, uma convicência perfeitamente aceitável. De 80 para 90, mais difícil, e de convivência precária. Além do mais, preferia vê-lo presidente, do que convivendo (profissionalmente, vá lá) com ricaços desprezíveis.

PS4 – Quando recebi a notícia, fiquei abalado, como estou no momento de escrever. Fora de familiares, nunca senti tanto como agora, a injustiça da morte. Não consigo assimilá-la ou esquecê-la.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *