A nova luta de classes

Carlos Chagas

Talvez algum sociólogo, quem sabe um cientista político ou um economista,  daqui a alguns anos, venham a dedicar tempo e espaço buscando explicar o fenômeno Lula. Tanta popularidade fluiria apenas de ações administrativas corretas e competentes, quer dizer, resultado da aceitação de seu governo pela maioria? Ou a resposta deve ser buscada no extremo oposto, ou seja, nessa maioria, mais do que no  governo?

Podemos estar assistindo a versão moderna da luta de classes, não mais plena de batalhas nas ruas, golpes e sucedâneos, mas um embate igualmente profundo entre as massas e as elites, só que pautado pela não-violência. Marx ficaria insatisfeito se pudesse vislumbrar resultados  pacíficos num confronto que em seu tempo só se resolveria pela força.

O Lula pode dar-se ao luxo de eleger uma candidata desconhecida para sucedê-lo, ainda que jamais para substituí-lo,  pela simples razão de ser ou de ter sido  um operário. Um problema a mais para Dilma, que hoje não amealha nem um voto por ter sido guerrilheira. Como é uma amanuense, terá dificuldades em concentrar a mesma popularidade de seu criador, ainda que possa até fazer mais do que ele, em termos administrativos. Apenas, não veio das fábricas ou da enxada, não pertence à legião que  hoje se imagina no poder, representada pelo Lula.

Mas o tema ainda não chegou ao futuro governo. Vale ficar na atualidade que, realidade ou ilusão, exprime a luta de classes, refletindo-se no sentimento da maioria. Vale o presidente Lula mais pela imagem criada, o sonho tornado evidência, de que os operários e camponeses,  afinal, chegaram lá.

Existem contradições nesse embate milenar. As elites ajeitaram-se com o primeiro-companheiro, que não regateou presenteá-las com benefícios, mas permanecem discriminadas e   rejeitadas pela massa que vota e,  por enquanto,  decide. Cada m dos privilegiados que pesquise o sentimento verdadeiro de suas empregadas domésticas, motoristas, serviçais e trabalhadores humildes.  No fundo de cada um,  instintiva e até inconscientemente, está a rejeição às elites.  O povão vai votar a favor do Lula por ser ele, povão,  contra os privilegiados. Todos fingem a inexistência desses fatores, uns por esperteza, outros por ressentimento, mas a verdade  é que pela primeira vez as massas encontraram alguém saído delas para exercer o comando. Pouco importa que elas  se frustrariam caso examinassem a fundo os resultados do governo pretensamente dos humilhados e ofendidos.  Mas o fator primordial da popularidade do Lula e   da vitória de sua candidata repousa na luta de classes. Felizmente sem as  conturbações do passado. Indaga-se, apenas: até quando?

BASTA, CHEGA E FORA!

Ficaram célebres, nos idos de março de 1964, os três editoriais do inesquecível “Correio da Manhã”, intitulados “Basta”, “Chega” e “Fora”. O jornal posicionou-se contra o governo João Goulart  e apoiou o golpe militar, argumentando  contra a sucessão de greves, insegurança econômica e iminência da dita instalação de uma república sindicalista. Errou, é claro, e menos de duas semanas da instalação da ditadura já abria suas colunas para denunciar desmandos, violência e obscurantismo.

Por que se recorda o episódio? Porque está faltando um “Correio da Manhã” para aproveitar os três títulos em três novos editoriais. Jamais contra o governo Lula, é evidente. Depois de tantos percalços, chegamos a uma democracia.

“Basta”, “Chega” e “Fora” tornam-se necessários para banir de nossa realidade esses execráveis programas de propaganda eleitoral gratuita pelo rádio e a televisão.

Quem deu o direito à Justiça Eleitoral de irromper pelas nossas casas a dentro, obrigatoriamente  impingindo espetáculos de baixo nível  e comicidade questionável? Tudo bem que em cada cidade ou estado  se aproveitasse  um canal alternativo de televisão e uma emissora de rádio igualmente facultativa para quantos se dispusessem  acompanhar as campanhas eleitorais. Mas à força, não dá. Em vez de informar, desinformam. Mentem como o diabo. E ainda imaginam conquistar votos, quando nem audiência possuem, apesar da falta de opções duas vezes por dia.

Candidatos existem prometendo transformar favelas em bairros. Jamais subiram um morro. Outros garantem a criação de milhares de postos de saúde, quando nem hospitais decentes existem em número mínimo. Estes  vão distribuir gratuitamente todo tipo de remédios. Aqueles acabarão com a violência construindo piscinas. Uns implantarão 400 quilômetros de linhas de metrô, outros varrerão o país de alto a baixo. Cada um que busque múltiplos exemplos de bobagens inomináveis ou de promessas absurdas   diante de suas telinhas e alto-falantes. Mas sem obrigação de ver e ouvir.

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