A nova tática do narcotráfico

Carlos Chagas

Eufórico, o governador Sérgio Cabral anunciou que o Exército permanecerá no Complexo do Alemão  até outubro. Valeu-se da declaração do presidente Lula de que as forças armadas atuarão em defesa da segurança pública pelo tempo que for necessário.

Trata-se de uma decisão que desperta os aplausos gerais. Os paraquedistas transformaram-se em heróis da população  carioca, fluminense e de todo o país.  Quebrou-se o tabu de que soldados não foram feitos para subir o morro,  porque subiram,  lá permanecem e, pelo jeito, não sairão tão cedo.

É bom,  no entanto, tomar cuidado. Apesar de muitos praças, sargentos e oficiais ostentarem  experiência de guerrilha urbana  adquirida no Haiti, não foram preparados para continuadamente lidarem com a bandidagem.   Vivem para a extinção do inimigo. Além do que, pela lei 117 de 2004, do uso das Forças Armadas em atribuições subsidiárias, sua ação deve ser episódica e por tempo limitado. Mesmo assim, vale  raciocinar com as esperanças de Sergio Cabral e com as promessas do Lula.

Dúvidas inexistem de que os narcotraficantes darão o troco. O primeiro  movimento foi deles, os bandidos, ao deflagrarem o animalesco episódio da queima de carros e ônibus. Tiveram que engolir  a ocupação dos morros e a desmoralização. Deve a sociedade preparar-se para a tréplica, ainda que o objetivo maior do  narcotráfico seja continuar com seu negócio, mais  faturando  do que guerreando.

Caso, no entanto,  comecem a   atacar  soldados do Exército, até para tentar  recuperar espaço e  faturas perdidas, monumental  obstáculo se levantará diante das comemorações  gerais  pela  vitória  no primeiro round.  Como sempre, os animais agirão de  surpresa, covardemente,  atirando e agredindo os soldados num minuto e fugindo no outro. Estarão provocando precisamente o que pretendem: a reação  daqueles que foram   preparados para a guerra, treinados para destruir  o inimigo. Nessa hora, depois de choques e  entreveros, fatalmente com vítimas entre a população,  quem estará sendo mais   atingido do que as comunidades até agora felizes  com os acontecimentos do último domingo?

Numa palavra, a tática do narcotráfico parece de trocar  o asfalto, onde queimavam carros, pelo  alto do  morro, onde tentarão demonstrar que as  comunidades viviam  melhor com eles do que com  o Exército. Não é de graça que a mídia, nas últimas 48 horas,  começa   abrir  espaços para denunciar abusos, saques e  excessos de parte da tropa que subiu o morro. Foram fatos inevitáveis, próprios da natureza humana e da tensão diante de confrontos cujo resultado não podia ser previsto,  mas é bom prestar atenção  como e porque estão ganhando dimensão.  A estratégia dos bandidos   continuará sendo  de exercer o controle da venda de drogas, já  que fregueses, infelizmente, continuam não faltando.

SUSTENTANDO A AFIRMAÇÃO

Choveram e-mails, telefonemas e mensagens endereçadas a este velho escriba, protestando por conta da afirmação de que o narcotráfico está longe de ser debelado pela  simples razão de existirem usuários e viciados aos montes. Enquanto eles estiverem dispostos a se drogar, não  haverá como impedir a ação dos que vendem drogas.

Verdadeiros  tratados de sociologia, psicologia e ciência política povoaram nosso computador, uns indignados na defesa dos drogados, outros alegando que os viciados e usuários sempre existiram na Humanidade, devendo ser desconsiderados  como agentes motores dos confrontos. São coitadinhos, fatores  desimportantes  no entrevero entre a autoridade pública e   o crime organizado.

Com todo o respeito e humildade, vale sustentar o raciocínio,   sem  conclusão nem fórmulas mágicas para mudar o  mundo: as drogas não desaparecerão enquanto  existirem drogados, sem que isso represente a estultice de concluirmos pela solução de interná-los  no hospital ou  na cadeia…

SURTO  DE SENSATEZ

No Maranhão, terça-feira, o presidente Lula surpreendeu com uma palavra de simpatia por   Fernando Henrique Cardoso, ao dizer que ele só  não fez mais, no governo,  por  conta  das dificuldades econômicas.

O sociólogo reagiu de bate-pronto, comentando:  “até que enfim o Lula pisou no real, não na moeda, mas na realidade, num surto de sensatez”. Acrescentou  que isso aconteceu antes mesmo de seu  sucessor tornar-se  ex-presidente.

Há quem imagine estar sendo criado um clima de menos beligerância entre os dois, por conta de um cenário que dependerá das concepções de Dilma Rousseff. Afinal, a Constituição prevê uma série de organismos auxiliares do chefe do governo,  como o Conselho da República, que nunca se reuniu. Caso a nova presidente, diante de uma crise qualquer, decidir valer-se dos conselhos não apenas do antecessor, com cadeira cativa no palácio do Planalto, mas dos demais ex-presidentes, precisaria convocar ao redor da mesma mesa o Lula, Fernando Henrique, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney. Uma salada mista para ninguém botar defeito.

ELEFANTE BRANCO

Conhecedores dos meandros da luta pelo poder mundial são unânimes em afirmar  que um país só ingressa no clube dos poderosos quando detém, senão a bomba atômica, ao menos um submarino nuclear, eufemismo para concluir que possuindo este, disporá da tecnologia para chegar àquela.

Pois descobre-se que o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil,  Clifford Sobel, comentou com Washington que o esforço de nosso país para ter um submarino nuclear equivale à  busca de  um elefante branco. Com todo o respeito, o diplomata quis mesmo nos fazer de bobos. Fica evidente estarem os americanos utilizando  todos os expedientes possíveis  para impedir o Brasil  de chegar lá, tanto que precisamos celebrar um acordo com a França.

HUMILHAÇÃO NÃO É

Passando do mar para o ar, pegou mal o comentário do  Lula em favor da compra de um novo avião para a presidência da República,   acentuando ser uma humilhação o Aerolula precisar aterrissar para abastecer,  em toda viagem superior a 12 horas. Humilhação não é, mas apenas cautela diante de gastos não prioritários. Beira as raias da ostentação aplicar meio bilhão de reais na compra de uma aeronave moderníssima, só para Dilma chegar a Pequim ou Moscou sem precisar descer em algum aeroporto intermediário.

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