A ocupação das favelas do Rio traz à luz a corrupção nas Polícias Civil e Militar, contaminando as Forças Armadas, que já tiveram de afastar um grupo de militares que atuavam no Complexo do Alemão.

Carlos Newton

Em quem confiar, neste país que parece ter perdido o respeito por si mesmo? A corrupção passou a ser parte do nosso dia-a-dia. Existem as sempre citadas raras e honrosas exceções, mas o panorama é desalentador.

Havia um clima de empolgação com o “sucesso” da política de ocupação das favelas e de instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Este “sucesso” foi até fundamental na derrota do candidato oposicionista Fernando Gabeira. Agora, às vésperas do Carnaval, a fantasia vai se desfazendo e começam a circular notícias de que os traficantes estão voltando ao Complexo do Alemão e às outras favelas. Mas será que eles haviam saído?

Ficam assim reforçadas as denúncias de que haveria um acordo entre os traficantes e as autoridades, via dirigentes do Afro Reggae, para a pacificação das favelas. Não haveria mais “soldados” do tráfico dominando as comunidades, usando máscaras ninjas e empunhando rifles e metralhadoras, não ocorreriam mais confrontos com a polícia nem balas perdidas. Em contrapartida, os traficantes não seriam presos e poderiam continuar fazendo seu “movimento”, desde que discretamente e com uso de motoboys.

É o que está acontecendo, porque o tráfico não parou, lógico. E a tendência é de que os traficantes corrompam os policiais que atuam nas UPPs, para que façam vista grossa. O que não é nada difícil, sobretudo porque as favelas estão se transformando em pontos turísticos, qualquer um pode circular por lá à vontade e comprar drogas, sem ser incomodado.

Agora, surge essa lama na Polícia Civil, envolvendo o próprio chefe, Allan Turnowski, que decidiu lacrar o acervo cartorário da Delegacia de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), no início da noite ontem, em pleno domingo. Segundo ele, empresários fizeram denúncias de corrupção contra o diretor da especializada, delegado Cláudio Ferraz. Mas acontece que foi Ferraz que municiou a Policia Federal na Operação Guilhotina, que atingiu Turnowski. Portanto, fica parecendo vingança de Turnowski contra Ferraz.

As investigações da Polícia Federal revelam que o principal acusado é o delegado Carlos Antônio Luiz de Oliveira. Depois de ter sido afastado da Subchefia Operacional da Polícia Civil, ele se tornou subsecretário municipal, com gabinete na Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), que foi transformado em “quartel-general” da quadrilha.

Ele liderava um grupo de policiais civis, militares e informantes envolvidos numa série de crimes. Para agir mais à vontade, requisitou integrantes do bando para a Secretaria municipal, da qual já foi exonerado. E mais dois policiais da quadrilha, um militar e um civil, já se entregaram à Polícia Federal.

Outro acusado é o inspetor Leonardo da Silva Torres, o Torres “Trovão”. Em 2007, foi um dos principais integrantes da patrulha avançada, que precedeu os policiais na batalha travada no Complexo do Alemão. “Tenho vocação para ser guerreiro e meu sonho é ir para o Iraque”, disse ele na época. Conhecido por fumar charutos em operações policiais, “para espantar os males”, Torres “Trovão” tem cursos na Swat americana e no Centro de Inteligência da Marinha.

O inspetor Christiano Gaspar Fernandes também está com prisão preventiva pedida pela Justiça. Curiosamente, ele e a delegada titular da 22ª DP, Marcia Beck, que foi detida para prestar esclarecimentos,  foram agraciados pelo chefe de Polícia, Allan Turnowski, em outubro do ano passado, no Dia do Policial, com a Medalha de Honra. Segundo a Polícia Civil, a honraria é dada aos policiais que se destacaram no serviço de suas funções por comportamento correto e notório, vejam só.

Na manhã de sexta-feira, Christiano telefonou para a delegada Marcia Beck quando ocorria a busca e apreensão de agentes da PF na delegacia. O inspetor, que também é lotado na 22ª, teria pedido a Beck para ela dizer que ele estava de férias. A delegada teria concordado e favorecido o inspetor, que seria filho do chefe de uma milícia de Ramos. E “la nave va”, como dizia Fellini. A lama continua descendo pelas encostas da Polícia, embora nem esteja chovendo.

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