A ocupação é que garante a pacificação

Pedro do Coutto

A reportagem de Renata Leite e Fábio Vasconcelos, manchete principal de O Globo de 30 de novembro, revelou que o Exército vai permanecer pelo menos durante sete meses no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro para garantir o que podemos classificar de libertação das duas áreas nas quais mais de 400 mil pessoas viviam oprimidas sob o domínio do crime, do tráfico, de um surpreendente estoque de motos e carros roubados. Muitos desses carros e motos, sem dúvida, foram arrancados vilmente de seus proprietários ao preço de vidas humanas.

A situação dos espaços retomados para a sociedade carioca era mais dramática ainda do que se poderia supor à distância. Eram labirintos de teias sinistras da violação permanente. O desfecho de domingo à tarde fica na história do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo como um emblema e um marco. Emblema do que a vontade política é capaz de produzir. Marco de que é impossível pacificação sem ocupação. Não há dúvida quanto a isso.

Tanto assim que as tentativas de pacificação só deram certo nos pontos em que o policiamento encontrava-se ostensivamente nas comunidades. Fora daí, não há como estabelecer-se um paralelo entre a ordem e a desordem, entre o legal e o ilegal, (como já escrevi antes), entre os direitos humanos e sua violação. Direitos humanos não podem servir só aos bandidos. Há os da população em geral. Os criminosos  são – graças a Deus –  a minoria. Não chegam a 3%. Porém, armados, dispostos a tudo, sem levar em conta sua própria sobrevivência, quanto mais a sobrevivência dos outros, foram implantando impérios do medo sustentados pelos lucros auferidos com o imundo comércio dos tóxicos. Um problema gravíssimo. Um desafio não só para o governador Sergio Cabral, não só para o governo Lula e para o governo Dilma Rousseff, mas sobretudo um desafio para todos os países e todas as cidades.

O consumo de drogas transforma as pessoas, corrompe setores que deveriam atuar com firmeza e responsabilidade, contribui para a formação de bandos criminosos. Faz com que uma parcela ponderável da sociedade ultrapasse a fronteira que separa os planos antagônicos da gravidade legal e institucional, de um lado, e do rompimento às normas de convivência humana, de outro. A corrupção surge no meio do dilema essencial. E permanece até o dia em que as campanhas contra as drogas ilícitas começaram a ter êxito, tanto em sua formulação adequada, quanto – principalmente neste ponto – na execução prática. São muitos anos de omissões e erros acumulados. Tanto assim que a circulação de entorpecentes está sempre atrás ou ao lado de uma série interminável de desfechos trágicos.

No Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro  a ocupação – anuncia-se – vai se estender por sete meses. É muito bom. Porém pouco tempo se examinarmos a profundidade de todo o comprometimento que envolveu e atingiu frontalmente aquela área carioca. Cruzeiro e Alemão eram depósitos  de tóxico, de armas, de roubos, esconderijo de assassinos e ladrões. A impressão que hoje se nos descortina é semelhante à atmosfera de filme famoso de Fritz Lang, que focalizava a vida de bandidos à noite num covil que se propunha inacessível à lei. Esta imagem, entretanto, desabou no domingo que passou.

Houve a ocupação. Depois do cerco surgiu então a nuvem pacificadora. Ainda aparente, exigindo que seja consolidada, mas sempre um passo largo fortemente positivo. Sobretudo na concepção de um projeto contra o crime. O de que só pode haver pacificação com ocupação. Caso contrário, nada feito.

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