A orelha mordida na hora do casamento e as histórias de D. João VI no Brasil

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D. Joao Vi e Carlota Joaquina fizeram a diferença no Brasil colonial

Sebastião Nery

“Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos problemas da família real portuguesa, estava um casamento tão desastroso que, em alguns momentos, suas consequências transbordariam para o domínio público.

Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do príncipe das Astúrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom João (príncipe  de Portugal), então com 18 anos, em 1785, quando contava apenas 10 anos (o casamento só se consumou em 1790, quando ela fez 15 anos). Selada por razões de Estado, a união deu continuidade a uma tradição de casamentos entre as cortes espanhola e portuguesa. O casal teve nove filhos”

NA PRAÇA XV – E foi assim, de uma mordida na orelha do noivo na hora do casamento, da demência da rainha-mãe louca e fugindo de Napoleão que invadia Portugal, que o “príncipe do Brasil”, Dom João (a partir de 1815, Dom João VI), desembarcou na Praça XV, no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808, e o Rio se transformou na capital do Império Português.

Foi uma aventura para humilhar qualquer Manoel Carlos ou Gloria Perez. Essa história “recheada de personagens extravagantes” é contada, dia a dia, “com notável maestria”, pelo jornalista australiano, radicado em Londres, Patrick Wilcken, que se baseou em documentos brasileiros e portugueses, além de pesquisas no ministério de relações exteriores britânico: “Empire Adrift – The Portuguese Court in Rio de Janeiro – 1808-1821” (“Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro – 1808-1821”).

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ALGUNS TRECHOS DA OBRA DE WILCKEN

– “A família real dividiu-se entre quatro navios. O “Alfonso de Albuquerque” trouxe dona Carlota e quatro de suas seis filhas. As duas filhas do meio viajaram no “Rainha de Portugal”, enquanto os membros inferiores do cortejo real – a tia e a cunhada idosas de Dom João, ficaram a bordo do “Príncipe do Brasil”. Na nau capitânea, a “Príncipe Real”, embarcaram Dom João, a Rainha Maria Iª, a Louca, e os herdeiros varões Pedro e Miguel”.

– “Dona Carlota era minúscula, baixa, menos de um metro e meio, de feições andaluzas morenas e usando um curioso turbante para cobrir a cabeça raspada. Dom João, um homem baixo e corpulento, de cabeça grande e braços e pernas troncudos. A família real passou um mês descansando em Salvador. Em 8 de março, desembarcaram no Rio. Durante um curto período, dom João e Dona Carlota dormiam em quartos situados no mesmo corredor, um em frente ao outro. Mas esse arranjo não durou muito. Os dois não tardaram a morar em extremos opostos da cidade, com os familiares divididos entre eles”.

– “O Rio era menor do que Salvador: 60 mil habitantes na chegada da família real. O vice-rei invocou uma lei impopular que dava à coroa o direito de confiscar casas particulares. Funcionários percorriam a cidade, escolhendo arbitrariamente as residências adequadas e escrevendo a giz, em suas portas de entrada : “PR” (“Príncipe Regente”). O sinal indicava que os moradores deveriam desocupar prontamente as propriedades. Essas iniciais tornaram-se popularmente conhecidas pelos cariocas exasperados como “Ponha-se na Rua”.

– “Dom João saia com um cortejo de autoridades. Com pouco tempo, passou a cumprimentar muitos súditos pelo nome. Criou um sistema de concessão de honrarias, do qual nasceu a nobreza brasileira: fazendeiros, senhores de escravos e comerciantes ricos receberam títulos de marquês, conde, barão e cavaleiro, o que consolidou ainda mais a popularidade de Dom João. 

– O príncipe regente era venerado. Dona Carlota galopava pela zona rural. As excentricidades de dona Carlota viraram temas de mexerico na cidade: o habito pouco feminino de montar como um cavaleiro, com um rifle pendurado no ombro, suas expedições de caça pelas montanhas e o obvio afastamento do marido chocaram a sociedade colonial conservadora”.

– “Joaquim José de Azevedo, o funcionário da corte que havia supervisionado o embarque da família real, enriqueceu tanto no Brasil que acabou por se tornar o banqueiro da corte”. (E nasceu o Banco Central).

O que Dom João VI fez, administrativa e politicamente, ficou na História. Não foi um gordinho glutão e alienado, comedor de frangos. Foi um estadista.

5 thoughts on “A orelha mordida na hora do casamento e as histórias de D. João VI no Brasil

  1. Esta postagem me lembrou muito e muito o Prof,. Manoel Mauricio de Albuquerque em suas aulas de História. Foi um professor fora de série. Ilustrava suas aulas com curiosidades, sutilezas históricas. Alunos de outras salas vinham para a aula dele, ficavam sentados no chão. Grande professor de História!

  2. No tempo do ginásio tive um professor que falava muito sobre a vida de D. João V! e Carlota Joaquina.
    Grande professor catedrático Plínio Bastos, autor de livros de história. Em sua homenagem deram nome a uma rua na Penha, RJ.

  3. O que D. João VI, fez administrativa e politicamente ficou na história, como diz o Nery, só que neste país quase ninguém conhece ou se interessa por história. Porque isso não costuma dar dinheiro. Ou porque os fatos nem sempre se amoldam bem aos enquadramentos exigidos pela ideologia, de direita ou de esquerda. Da história só ficam caricaturas do tipo do filme “Carlota Joaquina” ou da série global “Quinto dos infernos”.

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