A palavra que salva ou o gesto que mata (ou vem por aí um novo 1937)

Carlos Chagas

O ano, 1937. As eleições estavam marcadas para dezembro. Nos primeiros dias de novembro os dois principais candidatos mostravam-se apreensivos. Armando de Salles Oliveira, pela oposição, vinha desenvolvendo uma campanha em favor de mudanças fundamentais no comportamento do governo. José Américo de Almeida, governista, adotara uma linguagem também crítica, pregava reformas sociais e denunciava os corruptos, importando-se pouco se localizados no próprio governo.

Do que mais se falava era de um golpe a ser dado de cima para baixo, ou seja, pelo homem que realmente mandava, Getúlio Vargas, disposto a acabar coma farsa pseudo-democrática simbolizada pelas eleições. Até a data do golpe fora marcada: 15 de novembro, numa grotesca comemoração da proclamação da República. Teve que ser antecipada porque todo mundo comentava e já sabia. A imprensa denunciava.

Foi quando os dois candidatos perceberam tudo e redigiram, em conjunto, um manifesto de denúncia. Terminavam com um chamamento às Forças Armadas, esperando delas “a palavra que salva ou o gesto que mata”. Como eram os próprios militares o sustentáculo do golpe, veio o gesto, antecipado para 10 de novembro, pela palavra de Vargas. Anularam-se as eleições, o Congresso e os partidos foram dissolvidos e a Constituição de 1934, rasgada.

Nascia o Estado Novo, alegando seus artífices a iminência da guerra civil pela extremação de conflitos ideológicos e a necessidade da preservação da paz, da segurança e do bem-estar do povo. A mesma conversa de sempre, utilizada por todas as ditaduras para justificar-se perante si mesma, mais do que da nação.

Por que se relembra essa triste história em pleno ano 2012, quando tudo é diferente, tendo o comunismo desaparecido e as Forças Armadas deixado, faz muito, o palco das articulações institucionais?

Pela simples coincidência de que dentro de dois anos teremos a presidente Dilma novamente candidata, agora à reeleição, mas assediada pelos que pretendem ampliar seus espaços de poder quando ouvirem dela estar obrigada a denunciar a corrupção, a não evitar comentários sobre o mensalão, a dizer que sabe onde está o dinheiro e a prometer mudanças no modelo econômico que nos assola. Dentro desse roteiro, não continuará no palácio do Planalto. Com certeza derrotada junto com um candidato da oposição empenhado em anunciar as mesmas alterações.

José Américo de Almeida e Dilma Rousseff tem identidades tão curiosas quanto Armando de Salles Oliveira e Aécio Neves, restando indagar se a ânsia de voltar ao poder a qualquer custo, mesmo afastado teoricamente dele, aproxima Luiz Inácio da Silva de Getúlio Vargas. Ironicamente, aquele que aceitou sem reagir anunciarem o fim da “era Vargas” poderia estar vivendo a compulsão de seguir na mesma senda.

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VAMOS AOS FATOS

Seria bom não partir para a negativa absoluta por conta da nova disposição de muitas peças nesse xadrez do absurdo, porque o tabuleiro e as peças são as mesmas. Antes de rir e chamar de perturbado quem ouse fazer um raciocínio assim, seria bom atentar para os fatos.

Claro que não serão as Forças Armadas a prestar-se ao papel de algozes das instituições democráticas, mas aí estão as forças sindicais mancomunadas com as forças econômicas, dispostas, ambas, a sacrificar qualquer aparência de legalidade institucional em favor de seus interesses. Diante da proximidade de alterações fundamentais no modelo neoliberal e globalizante de ganhar dinheiro, quem duvida de que as classes privilegiadas deixariam de apoiar um golpe para trazer o Lula de volta, se está assentado na ilusão das massas?

Se Dilma e Aécio vierem a prometer, em suas campanhas, acabar com a farra da especulação financeira, com a malandragem das privatizações, os privilégios das elites e a predominância dos interesses internacionais sobre a soberania nacional, estarão abrindo o caminho para o Lula.

Caso anunciem a hipótese de limitar o lucro dos bancos, ou de suspender o pagamento da dívida interna para a realização de ampla auditoria, acontecerá o quê? Mais ainda, se apontarem como saída para extinguir a exclusão social que ainda atinge milhões de brasileiros o estabelecimento do imposto sobre grandes fortunas, ou a participação efetiva dos empregados no lucro das empresas, quem sabe até a taxação do capital estrangeiro especulativo e predador, hesitariam os prejudicados em golpear o processo democrático?

No fundo de tudo, é claro, surgirá alguém que, “em nome da prosperidade, das legítimas aspirações do povo, da paz política e social, da unidade nacional” se disponha a encarnar os privilégios de sempre. Esse alguém já existe. Terá encomendado aos seus companheiros de plantão pareceres a respeito da possibilidade de atropelar Dilma, eliminar Aécio e, por mais sutileza que possa haver em manobras modernas para a obtenção de velhos objetivos, sua motivação permanece a mesma: o poder. Pode vir por aí um outro golpe de 37, mesmo à avessas.

Desta vez, sabe-se também de onde provirá o gesto que mata. Quanto à palavra que salva…

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