A paralisia coletiva diante da força do obscurantismo na manipulação da ciência

Charge do Duke (dukechargista.com,br)

Natalia Pasternak
O Globo

Distorcer a ciência e tentar submetê-la a ideais políticos não é
novidade em governos autoritários. Quando a verdade, escancarada por dados científicos, fere as aspirações políticas e ideológicas de um ditador, o mais fácil é criar uma ciência paralela e ocultar a informação correta. Meios para tanto vão desde censurar os dados até perseguir e matar cientistas e críticos.

Quando as autoridades federais retiravam do ar o portal com os dados atualizados da pandemia, ao mesmo tempo em que Carlos Wizard, então convidado para assumir uma secretaria do Ministério da Saúde, acusava prefeitos e governadores de fraude, é hora de acender todos os alertas de que a democracia está a caminho de se tornar a próxima vítima da
Covid-19 no Brasil.

EXEMPLO HISTÓRICO – Por ironia, um paralelo próximo do que acontece aqui vem da História do Comunismo. No início do século XX, na Rússia, a agricultura era um grande desafio. Os invernos intensos traziam períodos de escassez e pediam novas sementes, que pudessem sobreviver ao frio.

Naquela época, a genética ganhava força no mundo, e um jovem geneticista chamado Vavilov, após rodar o mundo, retornou ao seu país com um plano de melhoramento genético das plantas, baseado em cruzamentos e seleção artificial.

Stálin, no entanto, queria soluções rápidas, e considerou que os dez anos propostos por Vavilov não atendiam às necessidades da URSS. Ele tinha ideias mais atraentes. Preferiu apostar em Lysenko, um horticultor que dizia que, se as sementes fossem guardadas no frio, “aprenderiam” a ser resistentes. A política de agricultura na URSS foi, então, baseada nessa fantasia.

SOLUÇÕES “SIMPLES” – Profetas anticientíficos, com soluções simples, rápidas — e erradas —, costumam encantar líderes autoritários, que veem a realidade como extensão de suas vaidades.

Lysenko foi extremamente criticado pelos cientistas de verdade, mas sua solução para isso foi simples. Com apoio do governo, Lysenko baniu, perseguiu e matou os discordantes. A ideia de “treinar” sementes para o frio, obviamente, nunca deu certo.

Vavilov, o homem que tentou salvar a URSS da fome, foi preso em um campo de trabalhos forçados, e morreu, ironicamente, de fome. A biologia e a agricultura da Rússia sofreram um retrocesso de décadas.

CIÊNCIA SOB CONTROLE – Segundo Martin Gardner, autor de diversos livros sobre ciência ruim e pseudociência, “o mais assustador do lisenkoísmo é o fato de que uma grande cultura colocou, de forma inequívoca, a verdade científica subordinada ao controle político”.

O Brasil talvez não se qualifique como “grande cultura”, mas vai pelo mesmo caminho. A ciência está sendo distorcida para acomodar um discurso político. Dados reais estão sendo ocultados e questionados sem base. Tudo isso, durante uma das
maiores crises sanitárias da História.

A tediosa reação da comunidade científica, quando há, são notas de repúdio e “marchas” virtuais. Dado o mergulho do governo no
lisenkoísmo, diria que essas atitudes não são baseadas na melhor
evidência de eficácia — embora pareçam seguras. Não parece conveniente subestimar o poder do obscurantismo de dar cabo da democracia e da ciência no Brasil.

Artigo enviado por Edinei Freitas. A dra. Natalia Pasternak é microbiologista, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autora do livro “Ciência no Cotidiano” (ed. Contexto)

11 thoughts on “A paralisia coletiva diante da força do obscurantismo na manipulação da ciência

  1. Se o seu Jair procura manipular os números publicamente, com vistas à informar a população uma estatística mascarada, imagine o que ele e seu filho Carluxo não fizeram com a planilha de controle de entrada e saída, que estava na portaria do condomínio onde mora, quando Ronnie Lessa liberou a entrada de Élcio de Queiroz em seu condomínio no dia do assassinato de Marielle.

    A planilha ficou sob o poder do seu Jair por mais de 6 meses e qiando ele entregpu à polícia a mesma estava rasurada.

    Governar o país que é bom, nada.

    • O HOLODONOR CHINÊS PROVOCADO POR STALIN (QUE SOFRIA DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA, SEGUNDO O AUTOR DO ARTIGO – PSICOPATIA) E O SEGUNDO HOLODONOR CHINÊS PROMOVIDO POR STALIN, NA UCRÂNIA, ENTRE 1933 e 1934

      A Grande Fome na China Comunista (1958-1962)
      27/12/2013 China, crimes do comunismo, genocídios, vítimas do comunismo

      ROBERTO BARRICELLI*

      A GrandeFome

      Sob o domínio da figura tacanha e egocêntrica de Mao Tsé-tung, seu “Líder Supremo”, a China passou pelo período mais obscuro do século XX e do qual se tem registro até a atualidade.

      Mao (cujo nome serve como uma luva) estava impaciente pela demora no processo de industrialização da China e revoltado com a resistência dos camponeses à coletivização do campo, dos meios de produção, de sua mão de obra e suas propriedades. “Como ousam se recusar a entregar tudo pelo qual trabalharam a vida toda ao Estado? Como ousam se recusar a trabalhos forçados e tentar proteger suas propriedades privadas? Que absurdo!” Provavelmente seja este o pensamento de Mao.

      Então, em 1958, Mao Tsé-tung iniciou seu plano de coletivização forçada ao qual chamou de “O Grande Salto em Frente”, mas que se mostrou o “Grande Salto para a Fome”. Assim como Stalin causou o Holodomor na Ucrânia entre 1933-1934 com seu plano de coletivização, o mesmo ocorreu com a China entre 1958-1962 com a coletivização forçada de Mao. Os governos comunistas parecem ter um padrão histórico e hediondo de comportamento, mas falarei disso em outro artigo.

      O Professor Frank Dikötter, da Universidade de Hong Kong, obteve acesso a documentos do Partido Comunista Chinês, até então secretos, os quais revelaram os horrores do período do “Grande Salto em Frente”. Foram quatro anos sombrios, de calamidade e desespero.

      Segundo o Livro publicado pelo professor Dikötter (A Grande Fome de Mao) as estatísticas compiladas pelo Gabinete de Segurança Pública na época (1958-62) apontam para 45 milhões de mortes prematuras. A maioria das mortes causadas pela fome que se instalou com as políticas impraticáveis de Mao que atendiam à sua personalidade narcisista, não ao povo da China.

      Falo em “personalidade narcisista” sem titubear, pois não foi apenas a impaciência de Mao (então há 10 anos no poder) com a marcha lenta do desenvolvimento econômico e a resistência à coletivização que o levaram a lança o “Grande Salto em Frente”, mas, principalmente, seu desejo de se tornar o Grande Líder do Campo Socialista. Seu desejo em ser maior que os demais levaram 45 milhões de pessoas à morte em apenas quatro anos.

      O slogan do plano de Mao era: superar a Inglaterra em 15 anos. A Inglaterra era a maior potência industrial da época. Realmente a China de hoje ultrapassou os ingleses e faz frente aos Estados Unidos, porém, sem que qualquer mérito possa ser atribuído a Mao, pelo contrário, políticas mais “liberais” como a criação de zonas especiais e maior abertura econômica, atraindo multinacionais com mão de obra barata (devido a imensa oferta de mão de obra acima da demanda) e incentivos fiscais. Se no campo social a China de hoje continua com seu comunismo repressivo, no campo econômico a liberalização está em gradual expansão, mantendo nas mãos do Estado “apenas” setores considerados estratégicos para a economia do país (mas principalmente para a manutenção do Partido Comunista no poder e a expansão da riqueza de seus pares), o que não é ideal (pois a iniciativa privada pode sempre fazer melhor com menos custo, gerando mais empregos de melhor qualidade e renda maior), mas já é um avanço importante.

      Voltando a Mao. O então Líder Supremo da China utilizou o que ele achava ser sua principal “arma” na perseguição ao desenvolvimento econômico e que permitisse ultrapassar a União Soviética e a Inglaterra: a mão de obra de milhões de trabalhadores, homens e mulheres (adultos) e crianças. Para tanto, coletivizou tudo que estava ao seu alcance e amontoou os camponeses em enormes comunas, que surgiram no lugar das propriedades privadas dos agricultores (fossem grandes ou micro).

      Mas o grande problema não foi a falta de comida, mas o confisco dos alimentos pelo Estado para destiná-los à exportação e a utilização da comida como política de extermínio dos opositores e “inimigos” (reais e irreais), de repressão ao povo e eliminação dos considerados mais fracos e menos produtivos. Por exemplo, indivíduos conservadores e de direita foram deliberadamente levados à fome para que morressem, através do não repasse de alimentos, ou repasse de comida podre e em quantidade abaixo do mínimo. O mesmo foi feito aos que dormiam no serviço, os doentes, debilitados, deficientes e muito idosos. Todos propositalmente levados ao limite da fome para que morressem.

      No período houve ao menos 3 milhões de execuções, por todo tipo de banalidade. No livro do professor Dikötter, há o relato de um pai que foi obrigado a enterrar vivo o próprio filho como punição por este ter roubado um punhado de grãos de uma das cantinas públicas existentes nas gigantescas comunas, onde a comida era distribuída “a colheradas”. Assim como durante o Holodomor causado por Stalin na Ucrânia, pessoas foram executadas por roubarem alimentos como uma batata, ou uma maça, durante os quatro anos do “Grande Salto em Frente”. Outro padrão histórico de comportamento dos ditadores comunistas.

      Logo que o fracasso se mostrasse iminente, Mao criaria todo tipo de bodes expiatórios nos quais colocar a culpa (como hoje faz Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, outro padrão). Claro, a culpa não poderia ser de suas políticas desprovidas do mínimo de ciência econômica, pois Mao com certeza era capaz de controlar a economia e jogá-la de um lado ao outro de acordo com suas vontades, independente dos fatores econômicos que geram escassez, como sucateamento dos serviços, demanda maior que a oferta e balança comercial muito desfavorável (como a causada pela exportação de alimentos em grande escala, causando o desabastecimento interno) e o cálculo dos preços, impossível no comunismo (e no socialismo). O Grande Líder se mostra um Grande Idiota.

      No desespero de impedir a descoberta da verdade, muitas fotos e documentos foram destruídos pelos comunistas maoístas quando a Ditadura Comunista (desculpe o pleonasmo) de Mao entraria em crise durante seus 10 últimos anos, de 1966 até 1976 (quando morre o ditador), devido a insatisfação de diversos membros quanto aos nefastos resultados das políticas utópicas de Mao e seu novo plano de “Revolução Cultural”.

      Porém, além de diversos documentos, o professor Dikötter encontrou nas mãos de um pesquisador chinês uma foto de um caso de canibalismo desencadeado pela fome (outros documentos, descobertos por ele, mostram que casos assim ocorrerão em todo o país) onde um rapaz está parado em frente uma “bacia” com uma criança (seu irmão) desmembrada. Casos extremos como comer lama e fezes também estão registrados. Os chineses foram levados ao fim da moralidade humana.

      Mao ficou no poder entre 1949 e 1976 (27 anos) e em apenas quatro anos obteve um saldo impressionante de 45 milhões de mortos, qual será o número total (certo ou aproximado), somados esses 4 anos aos demais 23, da Ditadura Comunista?

      • CORREÇÃO:

        O HOLODONOR CHINÊS PROVOCADO POR MAO TSÉ TUNG (QUE SOFRIA DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA, SEGUNDO O AUTOR DO ARTIGO – PSICOPATIA) E O SEGUNDO HOLODONOR CHINÊS PROMOVIDO POR STALIN, NA UCRÂNIA, ENTRE 1933 e 1934

        Na entitulação do artigo acima, troquei indevidamente o nome do responsável pelo Primeiro Holodonor Chinês, que foi Mao, e atribuí erroneamente a Stalin.

        Stalin foi o responsável pelo Segundo Holodonor Chinês, na China e na Ucrânia.

        Ambos assassinos, pela fome, de milhões de chineses, e depois de ucranianos.

    • Prezado Sr. Luiz Fernando Souza Poa-RS,

      Agradeço-lhe pelo reconhecimento. Tenho feito o que posso para informar, como se jornalista eu fosse. Num momento em que, por omissão do Poder Executivo Federal, está havendo na atualidade um genocídio de milhares de brasileiros, a História do Holodonor Chinês, tanto o praticado por Mao quanto o praticado por Stalin, precisava ser contada.

      Note-se que o genocídio em massa sempre é praticado por líderes psicopatas, quer seja no Brasil, na China, ou em outras partes do mundo onde o Chefe do Executivo é um ditador psicopata.

      Com meus melhores cumprimentos,

      Ednei José Dutra de Freitas

      • Caro Dr. Ednei, li em algum lugar que há diferenças entre um psicopata e um sociopata.
        Todo o sociopata é um psicopata, mas a recíproca não é verdadeira.
        A diferença entre os dois é a inteligência. Confere?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *