A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo e o real significado de nossos erros

Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.... Frase de Artur da Tavola.Artur da Távola

A perda do pai: quem sabe vivenciá-la? Como aceitar mortal e falível aquela pessoa grande, capaz de conseguir o universo, logo ele, o provedor, abridor de caminhos pelos quais começamos a passar medrosos?

A perda do pai é a retirada da rede protetora no momento do salto. E há que saltar. É o roubo feito no exato momento em que estávamos a descobrir o melhor do mundo.

LUGAR-COMUM – A perda do pai é a entrada no lugar-comum, é começar a ser igual a todos os que a sofrem, a ter os mesmos medos, as mesmas frases. É voltar a se emocionar com o que se desprezava: datas, pequenas lembranças, objetos, palavras e até com as manias dele que nos irritavam.

A perda do pai é o começo do balanço da própria vida, porque, enquanto vivia, era mais fácil nele descarregar alguns fracassos e culpas.

A perda do pai é o início da significação. As palavras começam a fazer um estranho e novo sentido. A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo: o que não fizemos, a visita deixada para depois, o gosto adiado, a advertência desdenhada, o convite abandonado sem resposta, o interesse desinteressado… tudo isso volta, massacrante, cobrando-nos o egoísmo.

ENCONTRO COM A MORTE – Nosso primeiro exame de consciência verdadeiro começa quando o pai morre. Nosso encontro com a morte inaugura-se com a dele. Nossa primeira noite sem proteção consciente, dá-se quando ele já não está. E nunca somos mais sós que na primeira noite em que já não o temos.

O pai é o mistério enquanto vida e a revelação depois de morto. Num segundo, entendemos tudo o que, durante a vida, nele nos parecia uma gruta de mistérios. Seus objetos ganham vida, suas comidas preferidas passam a ter mais gosto, suas frases adquirem o sentido que só o tempo e a repetição outorgam às coisas.

A perda do pai dói muito! Isso é tudo. Para que querer saber por que? O pai é o eu no outro. É dois em um, santíssima dualidade a proclamar o mistério e a glória de existir, dívida que com ele temos, sem nunca conseguir pagar, o que o faz por isso mesmo, sempre, muito melhor do que nós…

(Crônica enviada por José Carlos Werneck)

7 thoughts on “A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo e o real significado de nossos erros

  1. “Quem tem vida interior não terá solidão…”
    E o que é vida interior? É aquela que expressa minha dor ou a que digere meus alimentos ou aquela que expressa meus sentimentos ou aquela que resulta de uma arquitetura especial, fenomenal, que nos dá a percepção de existir, perceber e inferir sobre o mundo em que vivemos? ´Menas´ poesia, meu querido autor, a vida não é só amor.

  2. Obrigadíssimo, querido doutor José Carlos Werneck, pessoa de extrema sensibilidade, fidalguia, cultura, amizade, fraternidade, honestidade…..

    Obrigadíssimo por nos brindar com tão profunda reflexão do nosso jamais esquecido e sempre lembrado e presente Artur da Távola.

    Confesso-lhe que não consegui ler até o fim. No final do dia, amanhã talvez, volto à leitura por inteiro, porque espero estar recuperado de tanta saudade, de tantas lágrimas.

  3. Meu Velho – Altemar Dutra – YOUTUBE

    É um bom tipo, o meu velho
    Que anda só e carregando
    Sua tristeza infinita
    De tanto seguir andando

    Eu o estudo desde longe
    Porque somos diferentes
    Ele nasceu com os tempos
    Do respeito e dos mais crentes

    Velho, meu querido velho
    Agora já caminha lento
    Como procurando o vento
    Eu sou teu sangue, meu velho

    Teu silêncio e teu tempo
    Seus olhos são tão serenos
    Sua figura é cansada
    Pela idade foi vencido
    Mas caminha sua estrada

    Eu vivo os dias de hoje
    Em ti o passado lembra
    Só a dor e o sofrimento
    Tem sua história sem tempo

    Velho, meu querido velho
    Agora já caminha lento
    Como perdoando o vento
    Eu sou teu sangue, meu velho

    Teu silêncio e teu tempo
    Velho meu querido velho

    OBS: Esta canção me toca profundamento.Enquanto digitava meus olhos marejavam.

      • 1) Tive a honra de conhecer o grande escritor e senador Arthur da Távola na Faculdade de Letras da UFRJ, vez por outra ele ia lá fazer palestra.

        2) Nós do Centro Acadêmico nos alegrávamos com a presença do Paulo Alberto (seu verdadeiro nome), do antigo PTB e depois MDB autêntico, sempre a favor da Democracia…

  4. “logo ele, o provedor,”

    Vou fazer aqui, o que literalmente a maioria faz; vou defender a minha teta.
    E quem sofreu (viveu, mas não sofreu) essa situação; mas, não tem do que reclamar; porque, na familia quem foi o “provedor” sempre foi a mãe; que fez com que o “desaparecimento” do pai, nunca fosse percebido.

    PS: Antes que algum perseguidor vista a carapuçã; digo que estou falando de minha provedora; minha mãe, que hoje recebeu meus parabens, por mais um dia dos provedores.

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