A pergunta de US$ 1 milhão (sobre economia)

Fernando Canzian
Folha

O quadro abaixo resume como os ciclos econômicos costumam funcionar. Já os gráficos organizados em formatos de letras, os tipos de recessão que as economias tendem a enfrentar.

O encaixe nesse triste alfabeto depende de vários fatores. Infelizmente, a atual recessão brasileira pode ficar distante do V e do W. Está cada vez mais com cara de U. O pior seria o L.

Ou seja, queda acentuada da atividade e um período relativamente longo de crescimento nulo ou negativo até a recuperação (U). Ou pior, sem grande perspectiva de recuperação à frente (L).

Muito conspira para isso: o país não fará tão cedo o ajuste fiscal necessário para neutralizar a péssima dinâmica de sua dívida e conter gastos. Nesse ponto, a meta de economizar 1,1% do PIB já foi abandonada e pode ficar perto de zero ou negativa

A inflação continua elevadíssima (9,31% em 12 meses) e espraiada por toda a economia. Não somente restrita a tarifas corrigidas fortemente há seis meses (energia, combustíveis etc.)

O desemprego acelera mais rápido do que o previsto e a renda cai. Com impactos diretos nas vendas das empresas, comércio e, principalmente, na arrecadação de impostos para viabilizar o ajuste fiscal

SEM INVESTIMENTOS?

Os investimentos empresariais, que poderiam suprir a falta de demanda dos consumidores, também pararam. Investir para quê, sem perspectiva de vendas e mercado futuro?

Os investimentos públicos caíram e sofrem novos cortes. Seus realizadores, as maiores empreiteiras do país, estão afogados em escândalos

Na política, o Executivo está atônito, mal avaliado e sem comando. Refém da cúpula de um Legislativo investigado por corrupção e capaz de qualquer chantagem para tentar salvar a própria pele

Um dos pontos brilhantes em outras crises como a atual costumava vir da área externa. Como o real se desvalorizou frente o dólar, produtos “made in Brazil” ficam mais baratos lá fora e a indústria poderia dar impulso a segmentos da economia exportando mais.

INDÚSTRIA EM QUEDA

Ocorre que nos últimos dez anos a participação da indústria de transformação como proporção do PIB caiu de 20% para cerca de 10%. Ou seja, sua recuperação terá um efeito bem mais limitado desta vez do que em outras crises.

Mas é de esperar que o ciclo recessivo no qual ingressamos agora (com seus efeitos sobre o emprego e a renda) acabe derrubando a inflação de forma consistente. Permitindo ao Banco Central diminuir a taxa de juros (Selic; 13,75% a.a.), aliviando a pressão de crescimento da dívida pública e o garrote sobre a demanda.

O cenário externo também parece estar se firmando na Europa e nos EUA. Apesar da crise grega, que acabou obliterando uma série de boas notícias recentes nos dois lados do Atlântico Norte (em termos de emprego e crescimento).

CENÁRIO POLÍTICO

Aos poucos, também é de esperar uma mudança no cenário político. Com “expurgos” e políticos inviabilizados pela Lava Jato, com as eleições municipais de 2016 e a presidencial se aproximando em 2018.

O esgotamento do modelo baseado no consumo, na rápida expansão do crédito e de incentivos às expensas das contas públicas também deixou marcas indeléveis. É de esperar, portanto, que a nova configuração política que venha por aí, qualquer que seja, tenha aprendido com os erros recentes e se fie mais na ortodoxia.

Mas isso levanta a pergunta de US$ 1 milhão: com o país e seus consumidores já endividados, a indústria minguada, o setor público sem capacidade de investir e os empresários desanimados e demitindo, de onde virá nossa recuperação no médio prazo?

 

6 thoughts on “A pergunta de US$ 1 milhão (sobre economia)

  1. Vendo esses gráficos acho que o autor deveria procurar um neurologista. A crise de 29, mesmo com o keinisianismo só acabou com a segunda grande guerra. Guerra sempre é uma ótima indutora do PIB. No Brasil mesmo a eleite industrial de SP se formou com ela. Cabeça de excel.

  2. Nos próximos cinco anos, aconteça o que acontecer, teremos fortes investimentos na Infraestrutura nacional por empresas estrangeiras, assim como na compra de ativos nacionais por empresas estrangeiras, exemplo: Petrobrax.

  3. A saída não tem não. Vai acontecer que o país vai definhar até não ter condições nenhuma, vai haver princípios de calote da dívida e o governo vai tentar renegociar como fez fhc em 1994, depois privatiza mais algumas coisas, o governo vai apertar o cinto dos impostos. E depois volta a melhorar. Sempre é assim, por que seria diferente?

  4. Muito provavelmente boa parte do dinheiro que virá do exterior para investimentos na infraestrutura e energia nos próximos cinco anos terá sua origem na remuneração de valores principais hoje já emprestados a Título de Dívida Interna, a partir de hoje remunerados à razão de 14,25% a.a. (A MAIOR TAXA DO MUNDO).

    Ou seja, é grande a chance de que os serviços públicos a serem concedidos, assim como a transferência da propriedade dos ativos nacionais que serão realizados nos próximos anos para estrangeiros sejam realizados com o nosso próprio dinheiro, como por mágica, truque velho, mais que funciona quando se tem este tipo de lobos cuidando do galinheiro. (concessões de serviços públicos federais e venda de ativos hoje patrocinadas pelo PT e PMDB e ontem patrocinadas pelo PSDB e PMDB).

    Pode ser legal, porque quem tem poderes legais para definir esta taxa (em nome de combater um processo inflacionário, em curso e criado por eles mesmos, assim o fez. Mais no julgamento que a História haverá de um dia fazer, estes também serão qualificados como traidores do Povo Brasileiro.

  5. Espetáculo de artigo do Sr. Canzian, com gráficos e tudo mais.

    É lógico que mergulhamos numa armadilha de estagflação em forma de “L”, e a certeza se obtém pela irresponsabilidade do governo que não sabe administrar a coisa pública sem ser perdulário, gastando, sempre, o que não tem.

    Este ano deveria ser finalmente o ano em que o governo levaria as finanças públicas para o azul, produzindo superávit fiscal suficiente para atacar, ao menos os juros da dívida, ao mesmo tempo em que promoveria o enxugamento do excesso de liquidez da economia, tão necessário, para corroborar com a política monetária do Banco Central no ataque aos motivos da carestia, a inflação.

    Mas, não. Esse governo petista vai afundar cada vez mais a economia nesta cilada econômica em que nos meteu e afastará – indefinidamente – a oportunidade para a recuperação.

    Nenhum economista sério, hoje, especula no médio prazo (de dois a cinco anos) a melhora da economia.

    E isso porque estamos desenhando exatamente uma queda em “L” da atividade econômica, isto é, sem prazo definido para recuperação.

    E quanto mais tempo Dilma bucéfalo empurrar para frente o ajuste, mais tempo durará a estagnação econômica.

    Isso tudo é para o povo brasileiro ver o que uma ideologia esquerdista – tacanha, mentirosa, inconsequente e irresponsável – pode fazer com um povo, com um país.

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