A perspectiva singular do papa ao propor uma ecologia integral

01Leonardo Boff
O Tempo

O papa Francisco operou uma grande virada no discurso ecológico ao passar da ecologia ambiental para a ecologia integral, que inclui a ecologia político-social, a mental, a cultural, a educacional, a ética e a espiritual.

Há o risco de que essa visão integral seja assimilada dentro do costumeiro discurso ambiental, não se dando conta de que todas as coisas, saberes e instâncias são interligadas. Ora, é essa cosmologia que leva o papa a dizer: “Nunca maltratamos e ofendemos nossa casa comum como nos últimos dois séculos”.

Como superar essa rota perigosa? O papa responde: “Com uma mudança de rumo” e ainda mais com a disposição de “delinear grandes percursos de diálogo que nos ajudem a sair desta espiral de autodestruição na qual estamos afundando”. Se nada fizermos, podemos ir ao encontro do pior. Mas o papa confia na capacidade criativa dos seres humanos.

Para enfrentar os múltiplos aspectos críticos de nossa situação, o papa propõe a ecologia integral. O pressuposto teórico deriva da nova cosmologia, da física quântica, da nova biologia, do novo paradigma contemporâneo que implica a teoria da complexidade e do caos. Nessa visão o repetia um dos fundadores da física quântica, Werner Heisenberg: “Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos; tudo é relação, e nada existe fora da relação”.

TUDO EM RELAÇÃO

Seguramente, a mais bela e poética das formulações é encontrada no número 92 da encíclica, no qual enfatiza: “Tudo está em relação, e todos nós estamos unidos como irmãos e irmãs (…) com todas as criaturas que se unem conosco”.

Essa visão existe já há quase um século, mas nunca conseguiu se impor na política e na condução dos problemas sociais e humanos. Todos permanecemos ainda reféns do velho paradigma que isola os problemas e para cada um procura uma solução específica, sem se dar conta de que essa solução pode ser maléfica para outro problema.

A encíclica poderá servir de instrumento educativo para apropriarmo-nos dessa visão inclusiva e integral. Por exemplo, como assevera a encíclica: “Quando falamos de ambiente, nos referimos a uma particular relação entre a natureza e a sociedade; isso nos impede de considerar a natureza como algo separado de nós. Somos incluídos nela, somos parte dela”.

E continua, dando exemplos convincentes: “Toda análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, trabalhistas, urbanos e da relação de cada pessoa consigo mesma, que cria um determinado modo de relações com os outros e com o ambiente”. Se tudo é relação, então a própria saúde humana depende da saúde da Terra e dos ecossistemas. Todas as instâncias se entrelaçam para o bem ou para o mal. Essa é a textura da realidade, não opaca e rasa, mas complexa e altamente relacionada com tudo.

Se pensássemos nossos problemas nacionais nesse jogo de inter-retrorrelação, não teríamos tantas contradições entre os ministérios e as ações governamentais. O papa nos sugere caminhos certeiros que nos podem tirar da ansiedade em que nos encontramos face ao nosso futuro comum.

Teilhard de Chardin tinha razão quando, nos anos 30 do século passado, escrevia: “A era das nações já passou. A tarefa diante de nós agora, senão pereceremos, é construir a Terra”. Cuidando da Terra com terno e fraterno afeto no espírito de são Francisco de Assis e de Francisco de Roma, podemos seguir “caminhando e cantando”, como conclui a encíclica, cheios de esperança. Ainda teremos futuro e iremos irradiar.

4 thoughts on “A perspectiva singular do papa ao propor uma ecologia integral

  1. Caro Boff,

    A maior ameça à humanidade é a superpopulação, que nos levará ao caos e nos destruir se nada for feito.
    Estamos nos reproduzindo feito baratas – e quanto mais atrasada é a sociedade, mas os seus membros se reproduzem em maior quantidade.
    Quanto ao planeta, prosseguirá girando em torno do sol após todos nós termos partido, pelos próximos 4,5 bilhões de anos, da mesma forma que continuou após a extinção dos dinossauros, provavelmente com algum outro animal assumindo a posição humana…
    Não devemos nos preocupar com o planeta; ele é indiferente a nossa presença. Devemos nos preocupar é com a humanidade!

    Abraços.

    PS: “Se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada.” Richard Feynman

    • Estimado Francisco Vieira Brasilia – DF … saudações!

      A questão quântica é motivada pelo duplo comportamento partícula e onda que se OBSERVA a nível atômico … wikipedia tem: “A dualidade onda-partícula, também denominada dualidade onda-corpúsculo ou dualidade matéria-energia, constitui uma propriedade básica dos entes físicos em dimensões atômicas – e por tal descritos pela mecânica quântica – que consiste na capacidade dos entes físicos subatômicos de se comportarem ou terem propriedades tanto de partículas como de ondas 1 .”

      Creio que há equívoco; pois o comportamento particulado é característica de qualquer e todo objeto – que se movimenta in totum, certo? a irradiação decorrente do deslocamento é ondular – relativa ao comprimento do objeto que se movimenta … … … é o que acontece quando jogamos pedra em lago – a pedra vai afundando … e as ondas são proporcionais à pedra, correto?

      Nos entes físicos subatômicos o deslocamento e a irradiação são coincidentes … limitados ao quantum – wikipedia tem: “Quantum (plural: quanta) é o menor valor que certas grandezas físicas podem apresentar. São exemplos de grandezas quantizadas a energia e o momento angular de um elétron em um átomo.1
      História[editar | editar códigoo-fonte]
      Embora a palavra quantum já fosse usada na literatura científica ao longo do século XVIII,2 foi a partir do trabalho de Max Planck sobre a radiação de corpo negro, publicado em 1900, que o termo passou a ser largamente empregado na física.3”
      … … …
      Ou seja: quantum tem mesmo valor no deslocamento particulado e na ondulação radial!!!

  2. Em recente artigo na web li que, com esta Encíclica Ecológica, o Papa insere o Catolicismo no âmbito do Evolucionismo. Protestantes e Evangélicos continuarão sendo Criacionistas… e assim vai aumentando a distância entre os ramos principais do Cristianismo…

  3. Parei de ler os artigos de boff.
    Da mesma forma que não leria os de Stalin.
    Sei que podem conter algumas verdades, mas o intuito principal de ambos é o mal.

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