A política de rapinagem transformou a mais rica colônia francesa num inferno chamado Haiti

A violência eclodiu depois que o presidente do Haiti foi assassinado na quarta-feira.

O presidente foi fuzilado quando estava nesse automóvel

Eurípedes Alcântara
O Globo

‘Koudeta’. As crianças em idade escolar no Haiti são familiarizadas com essa palavra. É como se escreve em creole “coup d’État”, golpe de Estado em francês. Foram mais de 30 golpes ou trocas violentas de poder na história do país, que divide com a República Dominicana a Ilha de Hispaniola, como os conquistadores espanhóis chamaram sua possessão no Caribe depois de visitada em 1492 por Cristóvão Colombo.

Quase três séculos depois, no mesmo mês de julho de 1794 em que Robespierre perdeu a cabeça na guilhotina, pondo fim ao reinado do terror da Revolução Francesa, a Espanha cedeu a porção ocidental da ilha para a França. O creole é idioma resultante da mistura do francês com as línguas faladas pelos escravos trazidos à força da África Ocidental.

PRESIDENTE FUZILADO – Quase posso ouvir agora as crianças comentando o assassinato do presidente Jovenel Moïse, ele próprio autor de um golpe destinado a alongar seu mandato, fuzilado na semana passada por mercenários na residência oficial em Porto Príncipe: —Koudeta.

Poucas imagens me emocionaram mais do que ver crianças haitianas em seus impecáveis uniformes com camisas brancas imaculadas indo para a escola de manhã, brotando como flores dos becos de bairros sórdidos e caminhando com o cuidado das garças sobre o piso imundo das ruas da capital.

Era 1994, e o Haiti tentava escapar dos desdobramentos de mais um golpe de Estado, desfechado pelo militar Raoul Cédras contra o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide. Às meninas e aos meninos de braços dados, eu perguntava se sabiam por que havia tantos militares nas ruas. Mal me olhavam, repetindo automaticamente sem interromper o passo: — Koudeta, blan mwen.

UM PAÍS INVIÁVEL – A política de rapina da direita, da esquerda e do centro nunca deu uma chance às crianças haitianas. Quando elas deixam seus uniformes, só lhes resta a tragédia cinicamente armada por gerações de adultos sem lei que fingem aceitar ajuda de instituições estrangeiras, apenas para se livrar do dever de construir suas próprias.

A fina camada de civilização foi esgarçada a ponto de não poder mais ser recuperada, como a antes frondosa vegetação desmatada com fúria e varrida para o mar pela erosão das encostas.

Assisti em Porto Príncipe a uma briga que começou depois de o condutor de um carrinho de pedreiro carregado de carvão bater a roda numa pedra, e a caçamba tombar, espalhando pela rua sua “valiosa” carga. Quando homens quase se matam por pedaços de carvão, a situação chegou ao limite. Os políticos do Haiti se matam por um país calcinado.

TRISTE COMPARAÇÃO – Gêmeos idênticos criados por famílias separadas são o melhor laboratório de estudos sobre nature vs. nurture, entre a genética e a criação, envolvendo aqui o ambiente familiar, os amigos, a cultura e a educação formal.

A Ilha de Hispaniola oferece a mesma clareza de comparação entre Haiti e República Dominicana, destino frequente de Anitta e de 6 milhões de turistas de todo o mundo antes da pandemia.

Os dois países são geograficamente vizinhos, mas seus moradores estão mais distantes entre si que os cariocas do Leblon estão do Deserto de Gobi. A República Dominicana, sem ser um exemplo histórico de democracia ou justiça social e econômica, produziu políticos melhores e instituições mais sólidas, tendo sofrido três interrupções bruscas de poder — contra as mais de 30 do Haiti.

UMA COLÔNIA RICA – A República Dominicana educou melhor seu povo, cuidou de suas riquezas naturais e teve a sorte de ser menos pilhada pelos colonizadores — até mesmo por ser, originalmente, mais pobre que o vizinho.

O Haiti foi a colônia francesa mais rica. Centenas de milhares de escravos africanos, usados na produção de açúcar, café, coco e algodão, tornar-se-iam mais tarde deserdados do destino.

Mesmo tendo feito uma guerra vitoriosa contra as tropas de Napoleão Bonaparte, nunca conseguiram estar em paz consigo mesmos, destruindo-se de koudeta em koudeta.

One thought on “A política de rapinagem transformou a mais rica colônia francesa num inferno chamado Haiti

  1. O primeiro país independente da América Latina – me corrijam se estou enganado.
    Mas nunca teve sua independência respeitada. França, EUA…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *