A política entre a utopia e a realidade do seu exercício

Leonardo Boff

Antes de abordarmos, sucintamente, a questão complexa da política, faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a Política com P maiúsculo, que é a busca comum do bem comum, da política com p minúsculo, que consiste na política partidária, que, como a palavra sugere, é parte, e não o todo.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes. Por isso, por um lado, dizem os papas, a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis, como o patrimonialismo e a corrupção. Daí viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representado pelos parlamentares. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, essa é a tendência dominante, particularmente no quadro da pós-modernidade. E está contaminando os jovens.

É PRECISO SONHAR

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonham e que não se orientam por utopias escolheram o caminho de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança, e o desfecho fatal é a autodestruição. A utopia nos faz andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe as funções pelas quais existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política com P maiúsculo quanto para a política com p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios em que estão envolvidos os poderes públicos.

Quando confrontamos a política realmente existente com a utopia da política, notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado, que se regem por uma feroz competição, deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade. Isso faz com que os valores não materiais ocupem um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias.

Ora, desses valores altamente positivos vive fundamentalmente a política que se entende como prática da ética social.

REFORMA POLÍTICA

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam essa ética (ética na política), mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalhe as instituições, os braços longos do poder (que devem ser transparentes) e um serviço público. É nesse campo que ocorrem as perversões da política. Especialmente grave é o financiamento privado das eleições, que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil, com tradição patrimonialista, o político facilmente considera seu o bem público e se apropria dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política reintroduziria a ética na política. Para Aristóteles, política e ética eram sinônimos.

9 thoughts on “A política entre a utopia e a realidade do seu exercício

  1. Já que o articulista termina o seu texto lembrando Aristóteles, nada bem a tempo de usar sua opinião sobre a democracia, que privilegia todo tipo de opinião. Certo ?

    “A democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si.”

    Aristóteles

  2. O ideal é uma ilusão que o Homem cultiva, motivado pela incompreensão de sua própria natureza. Com isso a não aceitação dela, natureza. Uma revolta contra Deus, seu criador, no caso Dele existir.
    Com ele, o ideal, se criou sistemas de dogmas e crenças para revogar as leis da natureza, conhecidos como ideologias ou religiões, o que dá no mesmo, para se chegar ao paraíso.
    Estabelece o ideal o absurdo de que somos iguais.
    E por aí vai.

    Prática de Boff:
    em sua viagem a Cuba, ele a descreve como um ideal de sociedade.
    Até chamou o ditador Fidel de “meu comandante”

  3. Sr. Boff
    Uma perguntinha inócua, em Cuba com que sonham os cubanos? eles ainda sonham?
    alguns sonham com Miami…ou pelo menos poder comer melhor ou quem sabe conseguir alguma coisa que navegue no mar …para fugir da Ilha do seu querido comandante…

  4. Quem apoia Fidel e tantas múmias cruéis, atéias e criminosas, que matam Cristãos diariamente só podemos ler isso, tão medíocre e tristes momentos do Brasil para testemunharmos tantos desatinos à luz do dia ! Que Deus o perdoe e aqueles que ele apóia e fingem serem democratas ou cristãos !!!!!!! Deus, olhai para o Brasil para que nos libertemos do julgo Comunista, Corrupto, Cleptômano e Criminoso para com a Pátria e seu Povo !

  5. Caro jornalista,

    “Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonham e que não se orientam por utopias escolheram o caminho de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança, e o desfecho fatal é a autodestruição. A utopia nos faz andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.”

    Posso estar errado, mas fiquei com a impressao que o articulista formou um texto onde as frases não se completam, como se tivessem sido retiradas de livros diferentes e aqui jogadas, aleatoriamente. Quando o leitor pensa que ele desenvolverá um assunto sobre quiabo, acaba batendo a cara em um ponto e o assunto mudando para pepino…
    No final, tudo acaba virando uma salada!
    Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *