A presidente Dilma viaja nos números da economia

Vinicius Torres Freire
Folha

O governo do Brasil é um dos poucos do G20 que não estão no vermelho, disse a presidente, durante a viagem a caminho da Austrália, para a reunião de cúpula do G20.

Dilma Rousseff referia-se ao fato de que apenas três ou quatro dos governos das 19 maiores economias do mundo vão gastar menos do que arrecadam: vão ter superavit primário neste ano (a União Europeia é o vigésimo integrante do G20).

É verdade o que diz a presidente. Mas a comparação não tem cabimento quase algum e é irrelevante para o debate dos problemas econômicos brasileiros.

Dilma Rousseff pretendia refutar as críticas de que seu governo estourou as contas de modo inédito desde 1997, o que vai contribuir para as agruras econômicas de 2015.

A presidente referia-se ao saldo primário das contas dos governos, a diferença entre receita e despesa, desconsiderados os gastos com juros. No G20, apenas Arábia Saudita, Itália e Alemanha devem ter superavit primário.

CONTA DE JUROS

Considerada a conta de juros, o Brasil cai na melhor das hipóteses para 11° lugar. Dadas as calamidades recentes, deve ficar em 15º entre 19 países. Mas, posta nesses termos, a querela da numeralha ainda é uma bobice.

Apenas o governo do Egito gasta mais com juros do que o do Brasil, quando se mede tal despesa como proporção do PIB, consideradas as 74 economias mais relevantes do mundo. Trocando em miúdos, isso quer dizer que o governo do Brasil paga caro demais para financiar seus deficits e refinanciar, rolar, sua dívida. A taxa de juros é alta, a dívida é relativamente alta, embora a presidente faça pouco dela, dizendo que é uma das menores do G20.

Considere-se o caso do governo de um país com deficit e dívidas teratológicos, o Japão. A dívida bruta neste ano deve ser de 245% do PIB (Brasil: 65% do PIB), o deficit primário é de 6,2% do PIB (zero no Brasil). O Japão deve gastar 0,8% do PIB com juros. O Brasil, mais de 5%.

O Brasil está entre a dúzia de países com as maiores necessidades de financiamento de curto prazo (o dinheiro que tem de arrumar em um ano). Quer dizer, entre os que mais têm de pedir emprestado para cobrir o rombo anual e refinanciar a dívida que vence no ano, mas que vai rolar para o futuro.

JUROS FAZEM A DIFERENÇA

O Brasil está na companhia ilustre de Japão, EUA e França, de países europeus que praticamente quebraram na crise (Portugal, Espanha, Itália) e de cronicamente endividados, como Hungria.

Mas os governos de Japão, EUA e França pagam juros miudinhos nos empréstimos que tomam para cobrir deficit (entre 0,5% e 2,5% ao ano, para empréstimos de dez anos). O do Brasil paga mais de 12%. Quase todos esses dados baseiam-se no Monitor Fiscal do FMI.

É fácil perceber, pois, que o governo do Brasil tem de ser mais comedido que países com dívidas ou deficits relativamente maiores. O crédito do governo do Brasil é ruim.

De resto, na presente situação, deficits maiores implicam inflação, juros e dívidas maiores, o que prejudica o crescimento, o que prejudica a receita do governo, o que realimenta o ciclo vicioso. Para piorar, a conta de juros alimenta o Bolsa Rico, os juros pagos aos credores do governo, os que têm dinheiro de sobra para emprestar.

4 thoughts on “A presidente Dilma viaja nos números da economia

  1. Somente os imbecis continuam a dar credibilidade que esta mulher fala.

    Comparar o Japão que paga juros próximos a zero e este país que segura uma dívida pública pagando uma taxa implícita de 16,9% ao ano (!!!) é querer gozar na cara dos brasileiros e do entrevistador.

    Aforando o fato de que o déficit nas contas públicas é acompanhado do déficit na Balança Comercial e em todas as nossas transações correntes (Balanço de Pagamento).

    A deterioração de todos os fundamentos da nossa economia é prova cabal da incompetência deste governo que vem falsificando o quadro mediante a sustentação de números artificias sobre o mercado de trabalho que vem se mantendo, inclusive, ao custo da dívida pública, pelo que, quem está evitando a queda drástica do nível de atividade econômica são os bancos oficiais, principalmente o BNDES, que está emprestando às empresas do setor privado dinheiro, não para investirem, mas para usarem como capital de giro.

    O quado é lastimável e talvez, com mais quatro anos, irreversível.

    • Este ano o Governo Central (Tesouro Nacional, Banco Central e INSS), tem tudo para fechar as contas com déficit primário.

      Para um país que não cresce e se descapitaliza com o déficit no Balanço de pagamentos, isso é trágico e deteriorará os fundamentos macroeconômicos de maneira duradoura, senão definitiva.

  2. Notícia divulgada em 17 DE NOVEMBRO DE 2014 (Dinheiro Público & Cia.)

    A economia brasileira permanecerá estagnada neste ano e no próximo, mostram os novos DADOS DO BANCO CENTRAL.

    De janeiro a setembro, a variação da atividade [o PIB] foi de, exatamente, 0,01% na comparação com o mesmo período de 2013.

    É o SUPER MICRO PIBINHOZINHO !

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