A primeira crise do governo Dilma Rousseff pode começar hoje, antes do início da contagem dos votos, se houver a reunião dos partidos coligados, convocada por Michel Temer

Carlos Newton

Foi intensa a movimentação em Brasília, nos bastidores da campanha presidencial da candidata Dilma Rousseff, para evitar que a primeira crise do próximo governo ocorresse exatamente no dia de sua eleição, ou seja, dois meses antes da posse.

O sinal vermelho surgiu há cinco dias, quando circulou a informação de que o candidato a vice-presidente Michel Temer iria aproveitar a eleição para fazer uma demonstração de força. Assim, ao invés de acompanhar a apuração dos votos junto com a cúpula da campanha de Dilma, no Palácio Alvorada, como seria de se esperar, Temer resolveu convidar os dirigentes dos partidos coligados ao PT/PMDB para acompanharem a contagem na casa dele – ou melhor, na mansão oficial do presidente da Câmara, às margens do Lago Paranoá, onde a mordomia é gratuita, às custas dos cofres públicos.

A idéia era de promover uma grande reunião dos partidos que integram a coligação oficial de Dilma, formada por PDT, PSB, PR, PCdoB, PRB, PTN, PSC e PTC (além de PT e PMDB, é claro). O prato do dia seria a divisão do Ministério e dos cargos nas estatais, e cada dirigente partidário apresentaria a Temer sua lista de reivindicações.

Com isso. Temer não só se fortaleceria, como também se transformaria no grande articulador político do próximo governo, reservando para si essa fatia do poder. Daqui para a frente, não seria apenas o vice-presidente, mas o principal interlocutor e comandante da chamada base aliada.

Quando circulou a notícia de que Temer estava organizando essa reunião, que contaria com a participação também de outros partidos que não estão coligados, mas que já querem aderir ao novo governo (que nem eleito foi), diversos coordenadores políticos do Planalto entraram em ação, tentando abortar (êpa!) a  realização do encontro suprapartidário.

Com muita habilidade e astúcia, Temer saía de banda, justificando que seria apenas “um encontro festivo, para comemorar a eleição da candidata do PT”, e não se trataria da divisão de cargos, que ficaria para outra oportunidade. E ainda prometeu levar toda a base aliada ao Palácio Alvorada, para cumprimentar Dilma e o presidente Lula, assim que fosse confirmada a vitória nas urnas.

Até ontem à noite, os coordenadores do Planalto continuavam insistindo para que Temer não promovesse a reunião. Haja ou não esse encontro da base aliada, o mal já está feito, porque Temer se fortaleceu de tal forma com a simples manobra, que nem precisa mais concretizar a reunião. Na hora H, é claro que os dirigentes partidários terão de se acertar com a presidente eleita Dilma Rousseff, para a divisão do bolo federal, que tem mais de 40 mil cargos. Mas antes terão que procurar Temer, para adiantar o serviço e contornar dificuldades. Traduzindo: Temer se autonomeou comandante-em-chefe da base aliada.

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PS – Michel Temer votou de manhã em São Paulo e seguiu para Brasília no início da tarde. Disse que irá acompanhar a apuração “junto com a Dilma”. Vamos aguardar.

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