A prisão do almirante Othon Luiz e o papel das Forças Armadas

O almirante Othon é um cientista de projeção internacional

Carlos Newton

Quando afirmamos aqui na Tribuna de Internet que o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva era considerado um herói dos novos tempos das Forças Armadas, sabíamos que isso ia causar forte decepção a muitos comentaristas e leitores, que consideram os militares como a maior reserva moral do país e até defendem uma nova intervenção castrense para dar um jeito no Brasil de hoje.

No jornalismo, é sempre conveniente trabalhar sobre fatos, por ser a única estratégia capaz de evitar erros de interpretação. Fatos existem, não podem ser contestados. As forças armadas têm importantes papeis constitucionais a cumprir, mas devem se limitar a eles. Muitas testemunhas de 1964 ainda estão vivas, a intervenção militar àquela época foi defendida por importantes cultores da democracia, como Sobral Pinto, Ulysses Guimarães, Juscelino Kubitschek e Helio Fernandes, por exemplo. A verdade é que não se podia mais aguentar as loucuras do governo João Goulart, que queria se meter em tudo, até mesmo no aluguel de imóveis. Os estudantes, os intelectuais de esquerda e as classes trabalhadoras adoravam, mas era uma irresponsabilidade total.

(Em caso de dúvida, basta ler o último livro de Wilson Figueiredo, “1964, o último ato”, recém-lançado. Está tudo lá. O presidente Goulart se transformara num líder altamente manipulável, sem perceber estava levando o país para uma guerra civil. São fatos, não podem ser desmentidos, porque nós vimos e acompanhamos.)

SEM ALTERNATIVA

Muitos defensores da democracia foram levados a apoiar os militares porque não havia alternativa. Se o governo não fosse derrubado, o próprio Jango se encarregaria de armar um golpe para instalar uma ditadura no país. Mas ressalve-se: nenhum político de importância jamais apoiou a ascensão dos militares ao poder. O que se pretendia era a derrubada do governo irresponsável de Jango, mas sem ameaças à democracia.

Acontece que os militares tomaram gosto pelo poder e foram montando a ditadura. Com uma semana de governo militar, Sobral Pinto e Helio Fernandes já tinha percebido tudo e estavam na oposição. O “presidente” Castello Branco ainda conseguiu embromar destacados políticos do PSD e da UDN, como JK e Carlos Lacerda, enfeitiçando-os com a possibilidade de convocação de eleições presidenciais, mas era só conversa fiada. E os militares foram ficando. Surgiu a luta armada. E eles foram ficando. Tudo isso são fatos do passado recente, não se trata de “interpretação” de um passado remoto. Não se pode desmenti-los.

O EXEMPLO DO ALMIRANTE

Não há comparação entre os dias de hoje e a agitação de 1964. O país está em paz, com as instituições em pleno funcionamento. O governo do PT não representa nenhuma ameaça à democracia. Pelo contrário, está sendo destruído por ela. Por isso, é errado defender uma nova intervenção militar.

A prisão do almirante Othon Luiz foi bastante oportuna para que façamos uma reflexão a respeito do momento político. Quem defende a intervenção militar está se excedendo. Não há motivos para tanto.

Pessoalmente, tenho muitos amigos militares, a quem respeito e sei que também sou respeitado. Temos em comum a intransigente defesa dos interesses nacionais. Se o Brasil precisar deles, estarão a nosso dispor, não há dúvida, mas não é o caso. Precisamos respeitar a Constituição. Lembremos do Marechal Dutra, que assumiu a Presidência numa fase dificílima e se saiu bem, em termos políticos. Ninguém respeitou tanto a Constituição quanto ele, embora o governo tenha sido um desastre.

19 thoughts on “A prisão do almirante Othon Luiz e o papel das Forças Armadas

  1. CN. Ate aluguel de imoveis voce diz que o Jango “se meteu”? Ora, isso integra politica economica e social de paises. F.D. Roosevelt, presidente dos EUA, CONGELOU alugueis no famoso WEST SIDE de NY e ninguem pensou la em dar golpe por isso. O preco da carne foi congelado e fiscalizado nos EUA durante um bom tempo ate o governo Nixon em 1971. Quem apoiou o golpe aqui na epoca serviu consciente ou inconscientemente os interesses dos EUA e quebraram a cara logo em seguida, a comecar pelo Helio e os demais citados por voce. O general golpista Castelo Branco foi um lacaio do governo dos EUA. A prova e que imediatamente colocou Roberto Campos, que participou do golpe como traidor do proprio Jango em nossa embaixada em Washington, no comando da economia, cassou na primeira lista todos os principais nacionalistas do pais e nos atrelou externamente aos interesses dos EUA.

      • Mas, Roosevelt também congelou aluguéis no país. Citei o WEST SIDE, porque teve consequências desastrosas e até virado tema musical. O governo dos EUA fez até pior. Proibiu que seus cidadãos adquirissem com seus dólares DIVISAS moedas de ouro durante 43 ANOS, enquanto no governo do Jango se comprava e vendia livremente da Praça Mauá até a Rio Branco, nos câmbios Piano e Bordalo Brenha. E bem antes do Jango também se congelava aluguéis no Brasil. Getúlio mesmo congelou.

  2. Para esclarecer melhor. Nos anos 70, ainda nos governos Gerald Ford e Jimmy Carter, os alugueis no WEST SIDE de NY ainda estavam congelados. Se criou problemas e desenvolveu o EAST SIDE, e outro assunto.

  3. Que fase dificilima foi a do Dutra, se o Brasil saiu da 2a Guerra Mundial cheio de reservas? O Dutra governou por DECRETO durante o periodo da elaboracao da CF DE 46, que foram posteriormente aprovados nas disposicoes transitorias. Esteve mais do que foi presidente. Seu unico decreto significativo e polemico na epoca foi o fechamento da jogatina de AZAR, que muitos confundem com a rateada. Se saiu bem, CN? Fez aquele acordo do trigo com os EUA que nos prejudicou e dilapidou rapidinho nossas reservas com bujigangas norte americanas. Se nao respeitasse a CF recem publicada, ai ia ser o fim da picada. Dutra foi um repressor e SIMPATIZANTE do nazismo nos anos 30 e comecinho dos 40, segundo ja foi revelado por documentos desclassificados pelo Departamento de Estado dos EUA. Depois, ja como presidente, foi subserviente dos EUA. Um mediocre completo.

    • Não me fiz entender, Paulo Chamberlain. Estava me referindo à questão do restabelecimento da democracia. Como presidente, Dutra realmente deixou a desejar, você tem toda razão.

      É bom vê-lo por aqui.

      CN

      • Meu nome não é Paulo. Utilizo-me do computador e do tablet de um amigo com esse nome. Hoje, de manhã, por exemplo, como estive fora a serviço para ele, levei seu tablet e enviei de manhãzinha esses comentários acima. Como não sei acentuar em tablet, deixei tudo sem acento, inclusive o c ao invés do cedilha. Retornarei de novo para um local distante 30 km. daqui com o tablet dele para não me isolar.

      • Que democracia? Sempre se REStabelece e o povão sempre leva na cabeça. A partir de Sarney, se inventou a tal de REDemocratização. De 46 até 64, também se deu porrada adoidado no povão. Você não se lembra como a polícia dava porrada nos estudantes que protestavam pelo aumento da passagem do bonde? Como os delegados de polícia, tipo Padilha aqui mesmo na zona sul do Rio, eram abusados e fiscalizavam e reprimiam até corte de cabelo das pessoas? Imagine como pintavam e bordavam Brasil afora. Aliás, como se RESTABELECE, se Arthur Bernardes governou 4 anos sob Estado de Sítio e todos, até Getúlio implantar sua ditadura, também porraram o povo?

        • Lembro bem de tudo isso, Paulo Chamberlain (bonito nome, este). Tenho uma ficha alentada de subversivo, preenchida nos porões da ditadura. Um coronel compreensivo certa vez me perguntou se eu gostaria que a ficha fosse apagada. Respondi que, para jornalista, este tipo de ficha significa mais do que as medalhas da Pátria, que são dadas a qualquer um, como Maluf ou Dirceu.

          Abs.

          CN

  4. Cem por cento dos que apoiaram o Golpe Politico (Civis e Militares) em 1964, trairam a Constituição do Brasil. Se depois, alguns (inocentes, aventureiros em busca de emoção e malandros sem compromisso) se arrependeram, irrelevante. O Mal Maior à Sociedade Brasileira já estava inexoravelmente feito.
    Nossa mazela sócio politica e econômica atual é fruto desta solução de continuidade da Democracia Brasileira de mais de duas decadas.

  5. Atendo-me ao almirante, ficou patente o corporativismo. Foi “preso” para um QG do Exército, onde seguramente foi recebido com as honras de estilo. Até sua escolta era formada pela Policia do Exército. Esse será solto rapidamente, porque não vai contar nada. Ao contrário, teria dito que, se quisesse enriquecer ilicitamente, ganharia bilhões com a venda de segredos de nosso programa nuclear. É dose.

  6. Prezado CN, em geral concordo com suas análises. Hoje sinto-me obrigado a discordar, com registro.
    O golpe de 1964 foi urdido de fora para dentro. Após a crise dos misseis em Cuba, os EUA concordaram em desistir de invadir a ilha. Criaram então a tese do ‘cinturão de proteção ideológica’ para evitar a exportação da revolução cubana para as Américas. O Brasil por sua importância foi eleito como alvo prioritário. Para tanto era necessário ‘implantar’ um governo confiável no país. Através de Vernon Walters e Lincoln Gordon, usando os doláres da Aliança para o Progresso e com a ajuda de brasileiros desprezíveis ( Carlos Lacerda, Golbery, Roberto Campos et caterva) forjaram uma ameaça comunista que jamais existiu. O manual da CIA para a desestabilização de regimes democráticos foi seguido a risca, com atentados terroristas atribuídos as esquerdas, infiltração de agitadores nos meios sindicais e militares ( vide Cabo Anselmo ) e outras ações correlatas. A ação militar em 1964 foi um crime de lesa pátria. O pais foi entregue aos americanos em uma bandeja de ouro. Jango não era um bom presidente, porém agia dentro da ordem democrática. O PTB tinha votos, a UDN não tinha! Pervertidos políticos como Carlos Lacerda, ambicionaram ganhar o poder através de um golpe militar, porque via voto popular não conseguiam. Quebraram a cara! O golpismo é um ato de banditismo, ilegítimo sob qualquer aspecto ético, jurídico, etc..
    Jango deveria ter governado até o final de seu mandato. As eleições resolveriam o impasse entre as oligarquias medrosas de perderem privilégios absurdos e as classes operárias sequiosas em obterem maiores conquistas sociais. Afirmar que Jango era um risco provável, para troca-lo pelo risco real da ditadura militar entreguista, é no mínimo um raciocínio cínico.

  7. Não há como ignorar que tivemos um progresso institucional.

    Não somos mais tão frágeis quanto Venezuela ou Argentina.

    Mas isso integra uma luta diária e apartidária da sociedade brasileira.

    Há muita corrupção na Administração Pública (inclusive na defesa) e esse é o ralo principal que alimenta o nosso subdesenvolvimento.

    As restrições democráticas são excelentes para os corruptos. Eles se sobrepõem à legalidade e pousam falsamente como heróis, muitas vezes deixando, impunes, heranças milionárias depois de uma vida regalada, pois a censura os protege e a estatura os ampara.

  8. A questão de que Jango daria um golpe é extremamente questionável. A maior prova disso é o argumento sempre repetido por Almino Afonso de que se Jango tivesse intenções continuístas ele teria acionado o seu dispositivo militar, que na verdade não existia. O General Assis Brasil que o diga. Outra coisa, o Brigadeiro Francisco Teixeira, herói da 2ª guerra mundial, falecido recentemente aos 94 anos, era o Comandante da Base Aérea de Santa Cruz e ficou implorando por ordens de Jango para bombardear as tropas de Mourão Filho que seguiam pela Rio-Petrópolis saindo de Juiz de Fora para a antiga Guanabara, o que teria liquidado a quartelada da “Vaca Fardada”. Se Jango tinha intenção de dar o golpe, teria reagido, tal como Brizola queria. A avaliação de que o Governo Dutra foi bom também não procede, porque o Governo dele foi desastroso tanto no aspecto econômico quanto no político. No campo econômico foi horrível, porque todas as reservas cambiais acumuladas na 2ª guerra mundial foram usadas para comprar plástico em vez de serem aplicadas no desenvolvimento do país, e sob o prisma político foi terrível também, extremamente repressor e violento contra os sindicatos de trabalhadores e contra o Partido Comunista, que teve seu registro eleitoral cassado em 47, o que redundou na proscrição de sua bancada de 1 senador (Luiz Carlos Prestes) e 14 deputados federais (entre eles Jorge Amado, Carlos Marighella, João Amazonas, Gregório Bezerra), sem falar nos vereadores e deputados estaduais também cassados, entre eles Caio Prado Júnior e Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

    • Respeito sua opinião, amigo Alverga, muito bem fundamentada. Mas mantenho a minha. Jango tinha minoria no Congresso, não conseguiria aprovar nada. O país iria pegar fogo e por aí em diante…

      CN

  9. Sou contra uma intervenção militar, mas talvez o almirante seja uma exceção e não a regra, já os nossos políticos no geral são a regra e não a exceção.

  10. Não há comparação entre os dias de hoje e a agitação de 1964. O país está em paz, com as instituições em pleno funcionamento. O governo do PT não representa nenhuma ameaça à democracia. Pelo contrário, está sendo destruído por ela. Por isso, é errado defender uma nova intervenção militar.

    CONCORDO TOTALMENTE COM O ARTICULISTA! SE FOSSEMOS RACIOCIONAR COM O FIGADO, IA QUERER MAIS DERRUBAR ESSA ANTA E ESSES PETRALHAS DE QUALQUER JEITO, ATÉ MESMO COM UMA INTERVENÇÃO MILITAR!

    MAS DEVEMOS, SIM, RACIOCINAR ANTES DE MAIS NADA COM O CÉREBRO, SENDO ASSIM, NÃO PODEMOS DEFENDER NENHUMA SAÍDA QUE NÃO SEJA RIGOROSAMENTE DENTRO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS, MESMO CORRENDO O RISCO DE TER QUE AGUENTAR ESSES BANDIDOS NO PODER ATÉ 2018.MAS ISSO NÃO IMPEDE QUE MAIS UMA VEZ FAÇA O ALERTA: OU OS POLITICOS DERRUBAM ESSE GOVERNO DENTRO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS OU A COISA PODE TOMAR RUMOS QUE NEM EU E MUITO MENOS O CARLOS NEWTON QUEREMOS!

  11. Carlos Frederico Alverga, tudo o que escreves é verdade. Entretanto pergunto: Se não tinha dispositivo, como o Brigadeiro herói da FEB pediu para bombardear as tropas de Morão? Assis Brasil anos depois já no exílio disse que o dispositivo militar não existia. Existia sim: Não para uma guerra civil e sim para INIBIR OS GOLPISTAS. Se não fora o apoio dos americanos mandando uma “força naval” podesora para as costas do Espírito Santo, não haveria golpe. Afonso Arinos avisou a todo mundo inclusive a Santiago Dantas que comunicou a Jango. Os comandos militares passaram então, quase todos para o lado dos golpistas, vide o general Kruel comparer de Jango.

  12. Prezados amigos Aquino, Newton e colegas, peço desculpas a todos porque fiz confusao (estou na Espanha onde os teclados nao têm til). Na verdade, o brigadeiro que foi herói na Segunda Guerra e que morreu aos 94 anos foi o Rui Moreira Lima, e nao o Francisco Teixeira, que creio que era o Comandante da Base Aérea de Santa Cruz, mas o fato Aquino é que a ordem do bombardeio nao foi dada devido à inoperância do Jango. Só o Presidente teria dado a ordem. Como Jango nao o fez, o Brigadeiro nao quis assumir esse ônus. Abraço pra você amigo Aquino.

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