A realeza, a religião, a fantasia pertencem à aventura humana

Pedro do Coutto

Talvez um bilhão de pessoas no planeta tenham assistido fascinadas, através da televisão, pelo menos por algumas sequências, ao casamento do príncipe William com a jovem Kate Middleton, muito elegante e bela, sem dúvida, mas não integrante da Casa de Windsor. Assim poderá, no futuro, tornar-se a primeira princesa, caso a Inglaterra fuja dos padrões milenares do reino. Mas não é esta a questão. Tampouco desejo contestar os que se opõem à Monarquia, e seu estilo, que resiste no século 21. Não é isso. Os regimes monárquicos no mundo, ao longo da história, colocaram-se sempre ao lado da colonização, porém nem sempre a favor da escravatura.

A Inglaterra, neste segundo caso. Jornalista político há muitos anos, quanto ao belo e eterno episódio de sexta-feira 29, não quero falar de política. Se o fizesse, no caso da Grã-Bretanha, teria que me referir à luta heróica do governo de Winston Churchill contra o nazismo. Os ingleses, sozinhos, enfrentaram a Alemanha de Hitler, de agosto de 39 a dezembro de 41. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, afirmou o primeiro-ministro durante a guerra.
No título coloquei que a fantasia pertence à aventura humana. Reafirmo. Não se vive sem ela e tão intensamente que, por seguidas vezes, ela se incorpora à realidade. Daí a admiração eterna que temos pela arte, pelos artistas, pelos atletas, pelo futebol, por seus gênios. Como Pelé, Garrincha, para ficarmos em dois exemplos das emocionantes histórias de bola.

A fantasia é um sonho que nos envolve a cada momento e nos transporta a voos imaginários nem sempre tentados, quase nunca realizados. Mas seguimos em frente. Vamos tocando, vamos sonhando, vamos vivendo. A fantasia, no fundo, é uma ruptura livre, como a arte com o espaço e com o tempo. Imaginamos e flutuamos. Como se voássemos num balão e, de repente, puxássemos a corda para voltarmos ao plano da realidade. É assim a vida. A fantasia é uma viagem de cada um dentro de si mesmo. Está na profissão, está na economia, está no sexo. Está na visão sensual que temos da mulher.

A Abadia Anglicana, corrente Protestante, de Westminister estava plena de magia e fantasia na manhã de 29. A elegância, o charme, o bom gosto, a organização, a simetria dos passos, o vestido de noiva – que Nelson Rodrigues imortalizou em sua maior obra – exerceram um fascínio natural em todo mundo. Pompa e Circunstância. Se não fosse importante o fascínio, ele  não despertaria a atenção de todas as redes de TV, todos os jornais e revistas da Terra. O casamento de Kate e William só perde para a plateia da Copa do Mundo. Dito isso está dito tudo. A quantidade de público e a qualidade da imagem estética respondem a qualquer dúvida.

A religião também é uma fantasia. Uma ponte que leva o ser humano da vida terrena à vida eterna. Todas elas asseguram e oferecem a eternidade. Nós nunca desejamos deixar de existir. A religião fornece uma saída para a dúvida que, melhor do que ninguém, Shakespeare colocou no Hamlet. Não será a morte um sono? – perguntou o príncipe da Dinamarca. E, se for um sono, não terá pesadelos? Ser ou não ser é a questão essencial, acrescentou  o poeta. Do sono ao sonho, na realidade, nós vivemos a nossa aventura incorporando-nos à aventura. Ao mistério da fé, dos outros. Só poder falar de Shakespeare, Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Freud, Chaplin, Einstein, Karl Marx, este como analista da história, já é viajar no tapete mágico da fantasia.

Sartre afirmou que o inferno são os outros na peça Huis Clos. Esqueceu apenas que o Céu também são os outros. Todos temos tudo a ver com os outros. Sem a vida dos outros não haveria arte no mundo. Será um deserto de emoção. Agradeço a William e Kate pela fantasia. Entrei com eles, pela Globo News, sexta-feira, em Westminster.

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