A realidade, mais fascinante do que a ficção

Carlos Chagas 

Oito anos atrás, fomos dormir, ou ficamos acordados, imaginando como tinha sido possível um torneiro-mecânico suceder um sociólogo na presidência do Brasil. Vivíamos uma democracia,  é claro, com eleições livres, mas pela primeira vez na História chegava ao poder alguém despojado das credenciais clássicas  das elites ou da burguesia.

O desconhecido se desatava à frente, sem carta de marear, talvez navegar não fosse possível, diria o saudoso dr. Ulysses, se ainda estivesse entre nós.
A realidade  revelou-se mais fascinante do que a ficção. Ainda que Luiz Inácio da Silva tivesse divulgado sua “Carta aos Brasileiros”,  prometendo manter as instituições, os compromissos externos e a economia de mercado, muitos  duvidavam. Outros previam e até ansiavam pelo  inusitado.

Transcorridos dois mandatos, o Lula vai para casa levando a maior popularidade jamais conquistada por um presidente da República. Estava certo quando repetia o singular  “nunca na História deste país”… Além de contentar as elites e redimir as massas, atendeu a classe média.

Retomou o desenvolvimento, voltamos a crescer, inseriu o Brasil em novo patamar internacional e fez mais: sozinho, escolheu e elegeu uma auxiliar há oito anos desconhecida pela opinião pública. Uma mulher, acrescente-se.
Claro que o Lula cometeu erros. Não realizou tudo o que pretendia. Mas deixa um saldo  excepcional. Merece todos os elogios. 
 
EM BUSCA  DAS DIFERENÇAS

Começa que é mulher, a primeira a exercer a presidência da República. Há que buscar outras diferenças. Jamais se poderá esperar que Dilma exprima um papel-carbono ou um  vídeotape do Lula. Nem seria desejável, em termos de futuro.

De início, o berço. A nova presidente vem de uma família de classe média alta, jamais passou fome, exceção quem sabe nos três anos em que ficou presa. Outra diferença: o presidente que se despede só permaneceu uma semana na  cadeia. Não pegou em armas contra a ditadura, se considerarmos que discursos, greves e passeatas constituem outro tipo de armas.

Ela, não.  Assumiu a luta impossível, certamente um erro ideológico, mas profundamente  respeitável. Em termos de personalidade também  diferem. Tolerância tem sido a marca do Lula. Dilma é áspera. Cobra resultados e não hesita em levantar a voz e passar pitos em quem quer que seja, maquiadora ou ministro.

Perfeccionista, uma, sempre atenta ao conjunto,  sem esquecer o varejo. O outro, cuidando mais do atacado, ainda que preocupado com certos detalhes. Semelhanças,  é claro que também existem. Ambos cederam a pressões  político-partidárias, na hora da  composição de  seus ministérios.

Para contra-atacar, ele revelou-se maior do que seus ministros e seu próprio partido, não raro relegando-os à indiferença.   Ela, pelo jeito, vai pelo mesmo caminho.

Politicamente, são de esquerda, mas moderada, nunca furibunda. Quanto ao social, o Lula  começou combatendo a fome. Dilma promete extirpar a pobreza. Ambos, no entanto, atentos ao mercado e suas sutilezas.

No final de seu segundo mandato, o Lula tornou públicas as críticas aos Estados Unidos,  que  fazia na intimidade.  Dilma talvez demore um pouco, mas certamente  não se  deixará seduzir  pelo canto da sereia que por sinal comparece à sua posse.

Em suma, não é o desconhecido que se desata à frente, mesmo sendo inevitáveis as tempestades. Só que a caravela e a carta de marear são outras.

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