A realidade política e a oposição no Brasil

Pedro do Coutto

Em artigo publicado na edição de ontem da Folha de São Paulo, o professor e historiador Marco Antonio Villa, também cientista político e historiador, dentro de seu estilo sempre primoroso, analisou o que deveria ser a política brasileira e o desempenho da oposição ao governo Dilma Rousseff, a partir da organização das forças que se opuseram ao presidente Lula, e que, como todos sabem, foram derrotadas nas urnas por larga margem.

Marco Antonio, segundo ele próprio afirma, desacredita no êxito da administração que chega ao final e lamenta que PSDB-DEM-PPS não tenham conseguido organizar-se em torno de um projeto definido de ação e contestação. Perfeita a colocação, porém individual, idealista, fora do quadro real. Como historiador, deveria considerar que a oposição, pelo menos desde a redemocratização de 45, atuou sempre em função das eleições e não de programas.

Por exemplo. Em 1945, a UDN do brigadeiro Eduardo Gomes foi derrotada pelo PSD de Eurico Dutra, que recebeu o apoio essencial de Vargas, portanto do PTB. Entretanto, firmou acordo com o governo e aceitou os ministérios dos Transportes (então Viação e Obras Públicas) e da Educação. Foram titulares destas pastas, aliás excelentes figuras, Maurício Joppert e Clemente Mariani.

Cinco anos depois, Getúlio Vargas vencia a sucessão. Derrotou novamente o brigadeiro Eduardo Gomes e o candidato do PSD, Cristiano Machado. Nomeou para o Ministério dos Transportes o udenista José Américo de Almeida que, para assumir, afastou-se do governo da Paraíba. Nomeou Cristiano Machado para embaixador junto ao Vaticano.

Em 1955, Juscelino em aliança com o PTB, derrotou Juarez Távora (PDC-UDN), Ademar de Barros (PSP) e Plínio Salgado (PRP, herança do integralismo). Trabalho e Previdência (à época um só) e Agricultura couberam ao PTB. Ademar de Barros indicou Maurício Medeiros, médico ilustre para a Saúde, Plínio Salgado indicou o presidente do Instituto Nacional de Imigração e Colonização, Guido Mondim, depois eleito senador pelo Rio Grande do Sul.

JK, numa entrevista a mim, para o Correio da Manhã, destacou que seria eternamente essencial qualquer governo  assegurar a maioria parlamentar. Citou então o exemplo da Françaantes do retorno de De Gaulle em 58, quando crises se sucediam sem parar acarretando a queda de gabinetes parlamentaristas. Toda vez que, no mundo, um governo perde a maioria no Parlamento, disse, desequilibra-se. Vargas havia perdido a maioria.

Jânio Quadros não obteve a maioria. João Goulart a manteve em sua primeira fase. Tancredo Neves, do PSD, primeiro-ministro. A UDN, apesar de Carlos Lacerda, participou de seu governo: Gabriel Passos nas Minas e Energia, Virgílio Távora nos Transportes, Afonso Arinos de Melo Franco embaixador do Brasil na ONU. Excelente escolha, era um homem de altíssimo nível. Início de 61. No final de 62, chegaram as eleições, a UDN teve que romper. Virgílio Távora e Gabriel Passos saíram. Afonso Arinos permaneceu nas Nações Unidas. Eu trabalhava nos Transportes e era repórter. Ao lado de Virgílio Távora, ouvi em sua sala a resposta ao apelo que Jango fazia ao amigo pessoal para permanecer.

“Não posso”, respondeu Virgílio. “Eu sou partidário, represento a legenda na governabilidade. Se o partido decidiu romper, eu não posso ficar”.

Sarney garantiu a maioria, mas, apesar disso, acabou impopular. Collor perdeu a maioria, deu motivos de sobra para sofrer o impeachment. Fernando Henrique assegurou ampla maioria. Tanto assim que instituiu a reeleição no Brasil. Lula garantiu a maioria. Cinco ministros são do PMDB. São, todas essas, situações reais. Não ideais. Quem fala em política fala em viabilidade, nas arte e técnica do possível. Não se baseia em contextos de sonho. Mesmo porque, como certa feita definiu Alceu Amoroso Lima – o ideal não existe. É um sonho. Marco Antonio Villa voou em vão no tempo e no espaço.

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