A reforma política para nada

Carlos Chagas 

A imagem é velha, já  utilizada por nós, mas merece ser repetida.  Senadores e deputados integrantes das comissões  especiais da reforma política mais parecem os Cavaleiros de Granada de que falava Cervantes: “Alta madrugada, brandindo lança e espada, saíram  em louca disparada. Para que? Para nada”…

Decidiram os senadores recomendar o voto para deputado apenas nas legendas partidárias,  proibindo que o eleitor escolha pessoalmente o seu candidato. Os caciques se encarregarão de elaborar as listas dos pretendentes e a ordem de apresentação de cada um.   Também optaram, os senadores,  pelo financiamento público das campanhas, quer dizer, o governo destinará aos partidos recursos públicos para seus candidatos percorrerem os estados fazendo comícios, gastando em propaganda e em despesas de seus escritórios eleitorais.

A comissão da Câmara ainda não se pronunciou mas a tendência no Senado  parece a de prestigiar  exclusivamente   as cúpulas dos partidos. Porque serão elas a elaborar as listas, evidentemente colocando-se nos primeiros lugares e elegendo-se sem fazer força. Mais ainda, caberá às direções partidárias receber os recursos do governo e destiná-los a seus candidatos, na proporção que bem entenderem.

Salta aos olhos que essas duas propostas não serão aprovadas pelos chamados  grotões, ou seja, as maiorias silenciosas de deputados e senadores que pouco aparecem na mídia mas constituem o poder decisório nas duas casas. As cúpulas fazem espuma na defesa de seus interesses, mas o rumo e o ritmo da corrente é dado pela massa alijada dos grandes debates.   São eles que decidem, votando os projetos.

 VOLTA AO PASSADO

De duas, uma: ou a Polícia Federal exorbitou, promovendo escutas telefônicas clandestinas, sem autorização judicial, ou o Superior Tribunal de Justiça anda regredindo aos tempos anteriores à invenção do telefone. Fica inexplicável  a decisão dessa corte,  esta semana, de não aceitar gravações como prova em processos destinados a apurar atos de corrupção. Quem se beneficia são os corruptos, caso anuladas as peças processuais baseadas na escuta   mundialmente  aceita em todos os tribunais, desde  que, vale repetir, autorizada por um juiz.

DINHEIRO MOLE

Ontem em Washington, amanhã em Acapulco, terça-feira  que vem em Londres. Três palestras a 200 mil dólares cada uma renderão ao ex-presidente  Lula 600 mil dólares. Somando-se o que já ganhou e, especialmente, o que vai ganhar, a conclusão é de que vale à pena ser ex-presidente da República, em especial tendo sido torneiro-mecânico e líder de expressão  mundial.  Ótimo para ele, ruim para os antecessores. Fernando Henrique não recebe 20 mil  por palestra. José Sarney, Itamar Franco e Fernando Collor,  nem isso.

Continuando as coisas como vão  nos próximos quatro anos, logo o Lula integrará a relação dos dez brasileiros  mais ricos. Se estiver mesmo a fim de retornar ao poder, poderá criar uma Fundação com o seu nome, destinada a minorar as agruras dos menos favorecidos e combater a miséria e a pobreza. Será o primeiro caso de um governo paralelo aplaudido pelo governo de fato. Dilma Rousseff deve estar exultante.

 DINHEIRO SUADO

Agora que está valendo o novo salário mínimo de 545 reais, já se dizem arrependidos muitos dos deputados e senadores que votaram  a favor da proposta do governo. Menos porque as nomeações prometidas para o segundo escalão vem saindo a conta-gotas, quando saem, mais por uma espécie de dor de consciência. Afinal, de janeiro para cá, a cesta básica aumentou consideravelmente nas principais capitais, os transportes públicos elevaram-se acima da inflação e dos remédios nem se fala. 

Fica impossível aplicar a Constituição, que determina dever o salário mínimo bastar para o trabalhador e sua família arcarem com despesas de alimentação, habitação, transporte, vestuário, educação, saúde e até lazer.

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