A relação entre a Copa e os presidentes

Carlos Chagas

A saraivada de entrevistas concedidas pelo presidente Lula a jornalistas especializados em esporte, ocupando redes de televisão e emissoras de rádio, faz lembrar episódio singular de tempos atrás. O presidente era o general Garrastazu Médici, entusiasmado por futebol. Na véspera da partida final entre os selecionados da Itália e do Brasil,  no México, a assessoria palaciana anunciou que o presidente daria uma entrevista  coletiva, coisa rara naqueles tempos bicudos. Havia muito o que perguntar, mas na portaria do palácio da Alvorada os repórteres foram avisados de que Sua Excelência  só falaria sobre futebol. Apesar da frustração, aceitaram.

Logo apareceu um daqueles espécimes que nenhum veículo de comunicação deixa de ter, o sabujo, com a pergunta na ponta da língua: “então,  presidente, vamos  ganhar amanhã? O senhor arrisca um placar?”

Começavam os idos do “milagre brasileiro”, do desmedido ufanismo do “Brasil grande potência”  e do  “ame-o ou deixe-o”.  O general não se fez de rogado, prenunciando  que Pelé, Tostão e companhia venceriam por 4 a 1.

Dia seguinte os jornais abriam as primeiras páginas para a grande decisão e, também com destaque,  para as previsões de Médici. Começa o jogo, pela primeira vez transmitido  pela televisão, e depois de um primeiro  tempo tenso, passa a predominar a categoria do  nosso  time. Minutos antes do apito final, já  éramos campeões do mundo, tranquilamente vencíamos por   3 a1.

O país estava rachado de alto a baixo, diante das telinhas. Metade da população, quando Pelé pegava na bola, gritava entusiasticamente “mais um, mais um!” A outra metade não  continha a exortação: “chuta para trás!”, “joga  a bola pela lateral!”

A explicação era simples: mais um gol e haveria a consagração  do  ditador, confirmando o resultado por ele previsto na véspera. Pois não é que o Pelé dribla dois ou três adversários e, cercado por muitos outros, escorre a  bola  para a lateral direita, de onde surge Carlos  Alberto feito um tanque de guerra, marcando o quarto gol.

A festa durou meses, com as devidas honrarias ao general-presidente, “gente como a gente” como alardeavam seus partidários. Antes, ele costumava frequentar o Maracanã em dias de grandes jogos, mas ia escondido, para não ser vaiado, ficando numa das cabinas destinadas às emissoras de rádio. Depois da conquista da copa, ocupava a tribuna de honra e fazia questão que os altos falantes anunciassem: “acaba de dar entrada no estádio Sua Excelência o Senhor Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici”.

Pasmem todos, tantos anos depois: cem mil pessoas se levantavam nas arquibancadas, aplaudindo delirantemente o ditador…

É claro que  não durou muito aquela aberração. A ditadura continuava prendendo, perseguindo, censurando e até torturando.

Conta-se essa história a propósito da relação  entre as copas do mundo e os presidentes da República. Por mais que se diga não haver relação alguma entre eles, a verdade é  que há. E o presidente Lula percebeu, concedendo múltiplas entrevistas sobre futebol…

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