A República foi proclamada sem povo

Resultado de imagem para marechal deodoro proclamação da republicaCarlos Chagas

O sol não tinha nascido quando um grupo de jovens oficiais do Exército, rebelados contra o primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, bateram na porta de uma casa modesta, próxima do Campo de Santana. Vinham pedir ao morador que os liderasse, pois faltava um general de desenvoltura política que, à frente das tropas  insubordinadas, depusesse o ministério. Sem dormir por toda a madrugada, o marechal  Deodoro da Fonseca sofria de dispnéia, respirando mal e até, conforme seus vizinhos, talvez não passasse do dia 15, que nascia. Os boatos eram sobre a dissolução do  Exército, substituindo-o pela Guarda Nacional. Também se falava da iminente prisão de Deodoro.

Com muito esforço, e acreditando na boataria, o marechal fardou-se e tentou montar no cavalo baio a ele oferecido. Não conseguiu, ocupando então uma charrete. Tomou o rumo de São Cristóvão, onde se localizavam regimentos dispostos a aderir à rebelião. No meio do caminho, às margens do Mangue, um pequeno riacho, confraternizaram a comitiva do marechal e dois batalhões que deixavam os quartéis,  marchando para a sede do ministério da Guerra, onde se encontrava reunido o ministério. Da janela do segundo andar, o primeiro-ministro dava ordens ao ajudante-geral do Exército, marechal Floriano Peixoto, para acionar as tropas legalistas e tomar de assalto os poucos canhões apontados contra o governo. Referiu-se à superioridade dos soldados fiéis, lembrando que na recém encerrada Guerra do Paraguai, em condições muito mais adversas, peças inimigas tinham sido tomadas à baioneta. Floriano, sem posição definida na rebelião, justificou a inação: “é, senhor ministro, mas no Paraguai lutávamos contra paraguaios”.

Deodoro chegou, mandou abrir os portões e agora a cavalo, irrompeu pelo pátio interno, com a tropa entusiasmada gritando “viva Deodoro! Viva Deodoro!” Como gesto peculiar adquirido na guerra, ele saudou a tropa tirando e colocando o quepe por diversas vezes. E gritando “viva o Imperador! Viva o Imperador!”

Naquela hora, já haviam chegado ao prédio do ministério partidários da proclamação da República, como Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Aristides Lobo e outros, que subiram com Deodoro as escadarias para o salão onde o ministério estava reunido. Ouro Preto não se levantou e ouviu as queixas do marechal, falando na humilhação porque passava o Exército. Ardendo de febre, Deodoro repetiu diversas vezes que o Exército se sacrificara nos pântanos do Paraguai e não merecia o desprezo do governo. Em dado momento, replicou o primeiro-ministro: “Olha aqui, marechal, sacrifício muito maior estou  fazendo agora ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!”

Dali para Deodoro anunciar que Ouro Preto estava deposto e preso foi um minuto. Aproximaram-se os republicanos e os militares, quando Benjamin Constant aproveitou para sugerir a Deodoro que melhor oportunidade não havia para proclamar a república, naquela hora.  O marechal refugou, lembrou que o Imperador era seu amigo, mas ouviu que se a República fosse proclamada, o país seria governado por um ditador. Ele mesmo.

Quando todos se retiravam, Ouro Preto para a  cadeia, Deodoro montou o cavalo baio e saudou de novo a tropa, agora gritando “viva a República! Viva a República!”

Decidiram os militares   empreender a “marcha da vitória”, com a tropa desfilando pelas ruas do centro do Rio, com banda de música e a população ainda sem saber porque, já que a República fora proclamada sem povo, quase de madrugada. Foi preciso que à tarde, José do Patrocinio, republicano e vereador na Câmara Municipal, realizasse uma sessão solene participando aos presentes que o Brasil era uma república. A sequência do acontecido fica para outro dia.

6 thoughts on “A República foi proclamada sem povo

  1. Mas porque a República Federal foi proclamada sem participação Popular?

    O Imperador D. PEDRO II depois de Governar 49 anos, estava velho e cansado. Sua Herdeira era a Princesa ISABEL, casada com o Francês Conde d´EU, ela considerada muito “Papista”, dependente do Papa, que lhe deu a Condecoração Vaticana ” O Rosário de Ouro” por seu apoio na disputa Política Italiana entre o Papa e o Reino da Itália, que havia “expropriado” os Estados Papais, inclusive a Capital, Roma. O Conde d´EU muito impopular.

    Dentro dessa Conjuntura:
    1- O Imperador D. PEDRO II, muito Liberal, deixou formar-se um Partido Republicano com Imprensa e tudo, alguns Representantes no Parlamento, que embora fosse muito Minoritário, constituiu-se num Núcleo importantíssimo mais tarde.

    2– A Maçonaria Brasileira em grande Maioria, temendo uma repressão forte num futuro Governo da “Papista” Princesa ISABEL, secretamente apoiava a República Federal.

    3- Para desestabilizar o outro forte apoio do Império, a IGREJA CATÓLICA, a Maçonaria provocou a IGREJA, e certos Bispos sob a Liderança do Srs. Bispos de Olinda/Recife- PE, e de Belém-PA reagiram e acabaram infringindo a Lei do Padroado que regulava as relações entre o Império e a Igreja, o que obrigou a D. PEDRO II prender os Senhores Bispos, perdendo importantíssimo apoio da Igreja, sem ganhar nada da Maçonaria.

    4- Ingenuamente, a Princesa ISABEL estando na Regência por ocasião de viagem internacional de D. PEDRO II, através da “Lei Áurea” ( 13 Mai 1888) ABOLIU a ESCRAVIDÃO” sem “indenização, nem com Títulos do Tesouro de maturidade 100 Anos”, NADA, perdendo totalmente o apoio dos Fazendeiros, espinha dorsal da Economia do Império ( Café & Açúcar basicamente). O famoso Barão de COTEGIPE ( Realista Impedernido) discursou no Parlamento no mesmo dia da Lei Áurea: “Depois da Abolição, a República”, e não deu outra.

    5- E a espoleta que acionou o detonador foi o EXÉRCITO. A Maçonaria já havia feito Grão-Mestre do Oriente do Brasil ao Gen DEODORO DA FONSECA, herói da Guerra do Paraguai.
    A grande Arma do Império era a MARINHA DE GUERRA. O EXÉRCITO era uma Força secundária de +- 25.000 Homens. A maior parte da Segurança Interna era feita pela GUARDA NACIONAL comandada por Coronéis, baseada quase que só na Cavalaria. Com a Guerra do Paraguai o efetivo do Exército ( Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia, Intendência, etc) foi elevado para +- 250.000 Soldados, e agora esse grande Contingente Vitorioso, ,que havia “sangrado nos pântanos do Paraguai” estava sendo desmobilizado e reduzido a insignificância Política. Por falta de habilidade do Governo, principalmente do “TOSCO” Primeiro-Ministro Visconde de OURO PRETO, que achava que estava sólido e confortável, sentado em cima das baionetas do Grão-Mestre da Maçonaria, Gen. do Exército DEODORO, e Gen FLORIANO PEIXOTO seu Ministro da Guerra, na famosa “Reunião” do dia 14 Nov 1889 à noite, quando as Tropas rebeladas foram ” demitir o Primeiro- Ministro Visconde de OURO PRETO, e na exposição de motivos do Gen DEODORO, que falava das injúrias aplicadas ao EXÉRCITO que tanto se sacrificara e sangrara no Paraguai e que de lá só saiu Vitorioso, o Visconde de OURO PRETO dispara: “Mais sacrifício faço eu aqui ouvindo as baboseiras de V. Excia” , e aí foi imediatamente preso e Proclamada a República, com POVO ou sem POVO. No caso SEM POVO mesmo.

  2. Chagas tens escrito sobre a Proclamação da República por diversas vezes durante uns quinze anos. Sempre apresentas um fato que não é novo mas é pueril. Como diria Helio Fernandes: Uma pergunta ingênua: Como querer povo se o povo não tinha cidadania? Nem compreendia direito a libertação dos escravos. População pequenissíma quase toda analfabeta. Como querer que um povo nessas condições soubesse de alguma coisa? É querer demais. A República foi proclamada. As versão se afastam da realidade e caem na fantasia. A Internet dá diploma de historiador a quem quizer. A história não é para neófitos.

  3. A independência do Brasil também foi proclamada sem povo, num rincão interiorano. Também o golpe de 1964 não teve participação popular, a favor ou contra, um tempo atrás um jornalista gaúcho publicou que o governo de João Goulart teria altíssimos índices de aprovação popular, segundo pesquisas daquele tampo, e no entanto, não houve mobilização contra sua deposição. No Brasil o governo tende a ser algo muito distante do povo, as lutas políticas tendem a ser ‘brigas de cachorros grandes’, que poucas diferenças fazem para as pessoas simples.
    O império brasileiro era uma instituição acabada, era tão indissociável da escravidão que só sobreviveu à abolição por um ano e meio. D. Pedro II era visto pela população como um homem senil, e as pessoas não queriam ver o país sob um governo dominado pelo marido da Princesa Isabel, o Conde d’Eu, que além de ser estrangeiro teve sua reputação gravemente manchada pela sua atuação questionável na fase final e muito cruel da Guerra do Paraguai, conduzida a contragosto do exército brasileiro – Caxias queria a guerra tivesse sido encerrada com a queda de Assunção.

  4. Alvarez, você e qualquer pessoa pode dizer o que quiser. Mas a história não tem lugar para neófitos. O mesmo digo ao Pedro. História não é ler e estudar, é antes de tudo comparar e interpretar. Quantas eram as províncias da “América Espanhola”? Pedro misturou tudo e não disse nada. Em 1950 ingressei na Marinha quando Getúlio elegeu-se presidente. Sou testemunha ocular da história. Longe de mim ser o dono da verdade. Mas aos 84 anos tenho uma visão mais próxíma dos acontecimentos. E sou modestamente da história um diletante.

  5. Marechal Deodoro da Fonseca era amigo de D. Pedro II que ficou sabendo do movimento pro república quando estava em Petrópolis. Voltou imediatamente, pensando que os revolucionários queriam mudança de Ministério. Enganado (ou traido) recebe uma comunicação que o regime mudou e que ele deveria providenciar sua retirada com toda a familia do Brasil.
    Morre exilado de sua terra.
    Enquanto preparavam seu corpo, um pacote lacrado foi encontrado no quarto com uma mensagem escrita pelo próprio Imperador:

    “É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”.

Deixe uma resposta para Antonio Santos Aquino Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *