A República, que não era a dos nossos sonhos, e continua não sendo. Toda INDIRETA, IMPLANTADA e não PROMULGADA, chegamos aos 121 anos, pagando pelos erros do início. Quando REVOLUCIONAREMOS?

Helio Fernandes

No mundo ocidental, foi uma das últimas, estranha e surpreendente, pacífica e pacificada, quando se esperava que fosse revolucionada e popularizada. Toda indireta, comandada por dois marechais (Deodoro e Floriano) que como coronéis vieram brigados da também estranha e surpreendente Guerra do Paraguai.

O Exército que não existia (a única força era a da Marinha) foi formado exatamente para essa “guerra”. Com os famosos “voluntários da Pátria”, e os prisioneiros, que receberam a proposta irrecusável: se alistariam, se morressem, era o fato consumado. Se sobrevivessem, outro fato, compromissado e consumado: ganhariam a Liberdade.

A República brasileira surgiu 100 anos depois da mortífera francesa e 102 da corretíssima americana. Esta foi toda direta, com povo em todos os momentos, até mesmo na terrível guerra civil de 1860.

Nesse mesmo 1860, um grupo de jovens republicanos lançava o jornal diário “A Republica, o que mostrava e demonstrava que os “Propagandistas da República”, (como se denominavam) era um movimento verdadeiro, com o que de melhor existia naquela geração.

A “Guerra do Paraguai”, (uma covardia teleguiada pela Inglaterra) Brasil, Argentina e Uruguai, todos contra um único país que vinha em grande caminhada de progresso, atrasou a República. Não só pelo fato de ter durado de 1864 a 1870, mas também pelas consequências desastrosas internas, aqui mesmo.

Os que voltaram da “guerra”, começaram a reivindicar recompensas, favores, privilégios. A distribuição de terras foi de tal ordem, que era impossível governar ou conter a bagunça geral. Que foi de tal ordem. que elevou a inflação a níveis inimagináveis, que vieram a explodir na República. Foi o famoso “encilhamento”, já com Rui Barbosa Ministro da Fazenda e totalmente impotente.

Em 1885, os “Abolicionistas” (outro grupo de extraordinários jovens, que gerações) se aproximavam dos “Propagandistas, o fortalecimento é total, o Império se sente ameaçado, tentam abrir conversações.

Em 1886, o Primeiro-Ministro, Visconde de Ouro preto, procura Rui Barbosa. Diz a ele: “Em nome do Imperador, venho convidá-lo para Ministro da Justiça”. Rui recusa imediatamente, vejam a grandeza e o desprendimento de Rui, mas também a perfeição da forma, que hoje, 121 anos decorridos, os homens públicos não alcançaram.

Resposta textual de Rui Barbosa: “Visconde, agradeça ao Imperador por ter se lembrado do meu nome. Mas por favor, diga a ele que estou envolvido num movimento que será efetivado COM ELE, se for possível, SEM ELE, se for necessário. Era a República, mas vejam a linguagem admirável.

O Império está completamente enfraquecido, os “Abolicionistas” e os “Propagandistas” marcham aceleradamente para a vitória. A situação tem todo o jeito de positiva para a derrubada do Império, impossível dizer quem vencerá primeiro. Mas ninguém duvida: a vitória de um movimento, levará à vitória do outro.

Os empresários-escravagistas montam então a farsa do “ventre livre”. Com a mesma mentalidade dos empresários-escravagistas do Sul dos EUA, (“Sem os escravos, iremos à falência”) criam um decreto que lhes dá mais 9 meses de “sobrevivência”, não podem fazer outra coisa a não ser mistificar.

Como dominavam inteiramente o Império, os empresários escravagistas conseguem que Dom Pedro II, mesmo com relutância, improvise uma viagem ao exterior, passando o governo à Princesa Isabel, que então assina a “Lei do Ventre Livre”, mistificação completa. Não salva o Império, mas entra na História.

Para comprovar a total falta de Poder de Dom Pedro II, basta constatar o seguinte: De 1846, a última Constituição do Império, e o fim do próprio Império, foram organizados 47 Gabinetes: 43 anos e 47 Primeiros-Ministros, média de 11 meses para cada um.

Só que os “Propagandistas” não tiveram o sucesso dos “Abolicionistas”. Estes acabaram com a amaldiçoada escravidão, o próprio Exército se recusava a perseguir escravos fugidos.

Já os que lutavam pela República, viram sem sonhos destruídos pela ambição de muitos e o Poder de poucos, na verdade, de DOIS, os “Marechais das Alagoas”. Alguns civis foram aproveitados, já disse aqui muito antes: não existe ditadura CIVIL ou ditadura MILITAR. Eles se fundem, se acumpliciam, confundem a todos, principalmente o povo, que não participa de nada.

O grande jornalista Aristides Lobo, já Ministro da Justiça, dá entrevista ao Jornal do Commercio, (então, o maior do país), manchete do dia 18: “O povo não tomou conhecimento de nada, não participou, soube de tudo, B-E-S-T-I-A-L-I-Z-A-D-O”. Deliberadamente, trocou a palavra comum, BESTIFICADO, pela outra, incomum, não rotineira, mas muito mais expressiva.

Fizemos tudo errado, basta verificar o que aconteceu nos 121 anos decorridos. Aristides Lobo sabia das coisas, a partir do 15 de Novembro de 1889, tudo foi INDIRETO.

No próprio dia 15, sem povo, sem povo, sem urna, Deodoro foi feito “presidente”, chamado durante 12 meses de CHEFE DO GOVERNO PROVISÓRIO. Deodoro foi nomeado Ministro da Guerra, dividindo o Poder com o marechal ex-inimigo.

No dia 15 de novembro de 1890, era empossada a Constituinte INDIRETA, ratificada (por quem?) indiretamente no dia 24 de fevereiro de 1891. E no dia seguinte, 25, consolidavam o majestoso PODER INDIRETO, “elegendo” Deodoro “presidente” e “Floriano” vice.

(Mal comparando, tudo se repete agora, quem indicou ou elegeu Dilma e Temer? Se não fossem eles, que autenticidade teriam Serra e seu índio sem nenhuma tribo?)

***

PS – Em 8 de novembro desse mesmo 1891, Deodoro fechava tudo, prendia ministros, magistrados, jornalistas, ficava ditador. Mas como quem tinha a força era o “vice” Floriano, se apossou do Poder, Deodoro “fingia que renunciava”, no dia 23 do mesmo novembro.

PS2 – Floriano teria que CONVOCAR ELEIÇÃO em 30 dias, sem ele candidato, resolveu rasgar a própria Constituição INDIRETA e permanecer no Poder até 1894. Rui senador, protestou, quis exigir a eleição DETERMINADA pelo Supremo, teve que fugir, perseguidíssimo.

PS3 – Nesta manhã chuvosa, triste, quem sabe estaria assim em 1889, temos pelo menos a certeza de que precisamos fazer alguma coisa, REVOLUCIONAR para valer. Mas quem começará chamando o povo para participar e consolidar a República, que “até agora não é a dos nossos sonhos” (Saldanha Marinho, 29 anos diretor do jornal “A Republica”, senador, preso por ordem de Deodoro, quando discursava no Senado).

PS4 – Meu grande amigo Helio Silva, que escreveu mais de 10 livros magníficos sobre a República, colocou como título do primeiro: “A República não esperou o amanhecer”.

PS5 – Para mostrar a deslealdade geral e a hipocrisia dominante, apenas este exemplo: acadêmicos insistiram com Helio Silva para se candidatar. Resistiu, até que aceitou.

PS6 – Foi VETADO, muitos (alguns ainda estão lá) que não tinham e não têm 1 por cento da grandeza, desprendimento, valor ético, moral, humano e intelectual do grande historiador.

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