A saga da família Odebrecht parece uma novela repleta de ganância e ódio

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Marcelo agora tenta se vingar do próprio pai, Emilio

Carlos Newton

A revista Veja desta semana noticia mais um capítulo da saga da família Odebrecht, que parece essas novelas de TV que retratam ascensão e queda de clãs bilionários, com enredos marcados por cenas de ganância e disputa de poder. No caso da Odebrecht, já sugerimos aqui o título de “O mau filho à casa torna”, pois o vilão da história é justamente o herdeiro Marcelo, que está fazendo o que pode – e até o que não pode – na tentativa de se vingar do próprio pai, Emilio Odebrecht.

A trama é interessantíssima, porque Emilio Odebrecht sempre tentou proteger  Marcelo, deixando-o de fora das ilegalidades cometidas pela empresa. Mas deu tudo errado, porque Marcelo fez questão de participar e exigir a presidência do grupo, uma obsessão que acabou por levá-lo à cadeia.

O HERDEIRO – Representante máximo da quarta geração da dinastia de empreiteiros que se iniciou em 1923 com seu bisavô, especialista em concreto armado, Marcelo é um pobre menino rico, prepotente e soberbo. Na verdade, ele simplesmente herdou o império consolidado por seu avô Norberto Odebrecht e pelo pai Emilio, que cometeu o mau passo de corromper o próprio filho, ao instruí-lo sobre tenebrosas transações com agentes públicos e formação de cartéis empresariais para acumular enriquecimento ilícito.

Quando Emílio resolveu deixar a direção do grupo em 2002, Marcelo já tinha 34 anos. Para protegê-lo, o patriarca preferiu passar a presidência ao executivo Pedro Novis, contra a vontade do herdeiro, que não aceitou essa decisão e passou a lutar contra ela.

UM GRAVE ERRO – Inconformado, Marcelo tanto fez que em 2009, no final do segundo governo Lula, acabou convencendo o pai a colocá-lo na presidência e transferir Novis para integrar o Conselho de Administração da holding. Foi o maior erro que pai e filho cometeram.

Até então, as negociações de bastidores com o governo Lula continuavam a ser fechadas pessoalmente por Emílio Odebrecht, a quem Lula chamava de “chefe”. O novo presidente Pedro Novis sabia de tudo, acompanhava as manobras escusas, mas não se metia na “política” dos negócios.

Ávido pelo poder, Marcelo Odebrecht resolveu assumir a empresa “au grand complet”, como dizem os franceses. Colocou o pai para escanteio e passou a se comunicar pessoalmente com o presidente Lula e depois com a sucessora Dilma Rousseff, fechando acordos, irrigando o caixa dois do PT e pagando altas propinas.

UM OTÁRIO – O pobre menino rico Marcelo Odebrecht julgava-se muito esperto, mas na verdade era um tremendo otário,  em meios a espertalhões de todo tipo. Por isso, jamais lhe passara pela cabeça que o pai, ao nomear um executivo para presidir o grupo, estivesse tentando protegê-lo e afastá-lo desses negócios ilegais e imorais.

Na madrugada de 19 de junho de 2015, quando foi acordado pela equipe da Polícia Federal, Marcelo Odebrecht não imaginava que seria preso e passaria 30 meses atrás das grades. Achava que logo seria solto. Em Curitiba, gritava e ofendia seus advogados. Quando o pai Emilio foi visitá-lo, fez o mesmo, exigindo que ele mandasse libertá-lo imediatamente.

Na mesma época, convocado a depor na CPI da Petrobras, Marcelo Odebrecht esnobou os parlamentares, criticou e ironizou as delações premiadas. A ficha demorava a cair, ele continuou pensando que logo seria libertado.

CRISE NA FAMÍLIA – A prepotência de Marcelo foi levando o pai ao desespero. Emilio Odebrecht se sentia culpado por tudo, sabia que não devia ter aceitado colocar o filho na direção da empresa. E o tempo foi passando. Ricardo Pessoa, da UTC, e Otavio Azevedo, da Andrade Gutierrez, fizeram delações e foram soltos. A situação de Marcelo e da Odebrecht se complicava, mas ele seguia irredutível.

Sem alternativa, Emilio Odebrecht procurou a força-tarefa e se ofereceu para ficar preso no lugar do filho. Responderam que era impossível, porque não havia provas contra ele. A solução foi o próprio Emilio prestar depoimento e obrigar 71 executivos da Odebrecht a fazerem delação premiada.

Somente assim Marcelo Odebrecht aceitou colaborar com a força-tarefa, mas sempre a contragosto, e continuou brigado com o pai.

FORA DA CADEIA – No dia 19 de dezembro, Marcelo Odebrecht deixou a cadeia em Curitiba e seguiu para São Paulo num jatinho particular, para cumprir mais dois anos e meio em prisão domiciliar, alojado na sua mansão em São Paulo. Ele não pode exercer cargo na empresa, mas tem interferido à vontade.

O pai protegera alguns executivos, para que seguissem tocando a empresa, mas Marcelo não aceitou e delatou todos eles.  Agora, não vai mais ter membro da família Odebrecht na direção do grupo.

Marcelo não fala com o pai e também reluta em se relacionar com a mãe. É uma família destroçada pela ganância e pela ilusão de poder. Sua trajetória comprova a tese de que dinheiro não traz felicidade. Tudo o que Emilio Odebrecht desejava era abraçar e beijar o filho, a nora e as três netas numa festa de Natal. Mas este prazer o dinheiro não pode comprar.

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P. S. 1
–  Emilio Odebrecht enviou cartão à redação da Folha desmentindo a interferência de Marcelo na empresa e dizendo que Newton de Souza é que pediu para sair, mas fica difícil acreditar.

P.S.  2 – Pessoalmente tenho desprezo pelo drama dessa famiglia. Mas gostaria de ter conhecido o patriarca Norberto Odebrecht, que dedicou o final de sua vida ao mais importante projeto social já realizado no Brasil – o programa Baixo Sul da Bahia, que estava melhorando a qualidade de vida de onze municípios carentes. Com a morte do Dr. Norberto em 2014 e a crise da empreiteira, o projeto também já deve ter sido sepultado. Ou será que na famiglia Odebrecht alguém liga para a extraordinária obra do Dr. Norberto? (C.N.)

3 thoughts on “A saga da família Odebrecht parece uma novela repleta de ganância e ódio

  1. Em Portugal, dizem que quando se for comprar uma propriedade, deve-se procurar comprar de quem herdou e nunca de quem também comprou.
    A afirmação se baseia no fato de quem comprou, sabe o valor, já quem herdou, não sabe.
    Assim se sucede com as empresas familiares, que foram construídas por um indivíduo competente e conhecedor do ramo.
    Por força dos laços familiares, este cidadão deve deixar seus bens aos filhos, geralmente nascidos em berço de ouro e sem noção do custo e trabalho que teve o patriarca para construir o bem.
    Parece ser o que esta acontecendo com esta e outras empresas, que também são administradas por incompetentes, apenas pelo fato de ser o herdeiro do fundador da empresa.
    Agora já na quarta geração, parece que a tal Odebrecht, começa a voltar as origens, ou seja, nada.

  2. É sintomático que os defensores ardorosos da iniciativa privada não se interessem por este tipo de matéria. Aqui se desvenda o véu que encobre o mito da competência dos grandes empreendedores, e o que vemos são pelo menos duas gerações de irresponsáveis e embusteiros. Que, certamente, não são um caso isolado.

    Pode-se imaginar os bilhões de reais apropriados em desonerações fiscais, anistia de multas e sonegação, etc., ao longo da história, por esses gigantes do capitalismo de compadrio.

    Por outros comentários que já fiz aqui, pode parecer ideia fixa, ou que eu esteja determinado a desconstruir a imagem do grande Juscelino, mas na verdade trata-se apenas de um resgate histórico; não posso me furtar de lembrar o que mostra essa matéria no UOL, para quem gosta de História é um prato cheio, recomendo a leitura:

    “Casamento de empreiteiras com poder começou com JK e teve lua de mel na ditadura”.

    https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/11/21/casamento-de-empreiteiras-com-poder-comecou-com-jk-e-teve-lua-de-mel-na-ditadura.htm

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