A saga de um setentão aposentado

Odoaldo Vasconcelos Passos

Hoje, 30 de novembro de 2011, estou completando setenta anos. Uma idade inimaginável para quem, quando criança, ouvia falar que o mundo acabaria no ano 2000.

Infância pobre e pelas dificuldades, aos doze anos de idade, passei a estudar à noite, para trabalhar durante o dia. Ali, estava iniciada uma trajetória de lutas pela sobrevivência.

Cresci, troquei de emprego algumas vezes, sempre para melhor. Nesse período, parei de estudar no primeiro ano do curso científico. Em 1962, entrei para o Serviço Público Federal, onde, modéstia à parte fiz uma brilhante carreira. Casei-me com uma super mulher e sou pai de três filhas, uma delas me deu duas netas, todas maravilhosas.

Trabalhando, voltei a estudar à noite, fiz vestibular para o curso de Economia, e, em 1977, fui diplomado. Nesse mesmo ano, transferi-me para Belém, capital do Estado do Pará, para, juntamente com outros colegas da região cacaueira da Bahia e os paraenses, ajudar na consolidação da implantação da lavoura de cacau na Amazônia, mais precisamente nos Estados do Pará, Rondônia, Amazonas, Acre, Maranhão, Mato Grosso e Goiás.

Em 1988, por uma atitude precipitada, muito estressado e após 27 anos de serviço público federal, solicitei demissão incentivada promovida pelo incompetente governo Sarney. Daí em diante, começou a minha luta inglória.

Em 1989, me aposentei pela Previdência Social. Por ter contribuído para 20 salários mínimos, esperava uma aposentadoria que viesse a ser compatível com a minha contribuição pelo teto máximo. Ledo engano! A Constituinte de 1988 reduziu o teto para 10 salários mínimos, e com muitos artigos para regulamentar. Fiquei no “buraco negro” e a minha tão sonhada justa aposentadoria, se resumiu em apenas 3,4 salários mínimos.

Foi um desastre de proporções insuportáveis! O mundo todo caiu sobre a minha cabeça. Lutei, apelei e somente após um ano de marchas e contra marchas, consertaram o erro e eu passei a receber o equivalente a 8,8 salários mínimos. Daí em diante, foi só redução do benefício, pois todo ano, motivado pelos constantes Projetos, Decretos e atos irresponsáveis, desumanos e desrespeitosos por parte do governo e do Congresso Nacional, hoje, eu amargo um benefício equivalente a 4,75 salários mínimos. A continuar desta forma, se eu tiver a “desventura” de continuar teimando em viver, deverei encerrar a minha gloriosa vida, recebendo apenas um salário mínimo, conforme é o objetivo do governo.

Por necessidade de melhorar a renda, voltei ao mercado de trabalho por alguns anos.

Durante os meus setenta anos de idade, atravessei muitas tormentas nesta saga de criança pobre, de funcionário público federal e de aposentado da Previdência Social.

No transcurso desta minha longa vida, eu:

– Vi entrar governo e sair governo, coadjuvados por um Congresso Nacional conivente e subserviente, criarem leis que só prejudicam os trabalhadores

– Vi o Congresso Nacional, fingindo que votava Projetos em favor dos aposentados.

– Vi comunistas querendo implantar o regime de Cuba no país e serem repelidos pelas Forças Armadas.

– Estou vendo os comunistas que foram repelidos à época, hoje no poder, negando tudo aquilo que prometiam, tal como ética, honestidade e seriedade.

-Vi candidatos em campanhas prometerem tudo e quando se elegem, agem diferente.

– Vi, segundo dados da Fiesp, nos últimos dez anos, a corrupção desviar dos cofres públicos a inimaginável soma de R$ 720 bilhões.

– Vi Mensalão, dólar na cueca, Ministros de Estado caindo um atrás do outro por corrupção desenfreada.

– Vi a Suprema Corte abdicar do direito de ser a guardiã da Constituição e servir aos interesses do governo naquilo que lhe interessa.

– Vi o Senado votar por unanimidade os Projetos Legislativos 01/07, 3299/08 e 4434/08, que devolverão o que o governo roubou da classe de aposentados e pensionistas, e vi também os presidentes da Câmara engavetarem tais Projetos e não colocá-los até hoje na pauta.

– Vi o Congresso Nacional votar a derrubada do maldito Fator Previdenciário, e o presidente da República, Lula da Silva, pertencente ao Partido dos Trabalhadores, vetá-lo.

– Vi atitudes desses governos que, contrariamente ao que ocorre no resto do mundo, insistem em manter dois níveis de reajustes para uma mesma classe de beneficiários.

– Vi o governo Itamar Franco entregar ao governo FHC, uma dívida interna de R$ 60 bilhões de reais; FHC entregar ao governo Lula a dívida de R$ 645 bilhões de reais, e o governo Lula entregar para o governo DILMA ROUSSEFF, a incrível dívida de R$ 2,388 trilhões de reais.

– Vi FHC (1995/2002) pagar de juros e encargos R$ 278,9 bilhões; de amortização R$ 910,6 bilhões; refinanciamento R$1,533 trilhão. Lula (2003/2010): Juros e encargos R$ 873,8 bilhões; amortização R$ 910,6 bilhões; refinanciamento R$ 3,019 trilhões. Dilma Rousseff: 1º a 24/11/2011: Juros e encargos R$ 121,7 bilhões; amortização R$ 532,9 bilhões. TOTAL PAGO PELO TRIO: R$ 7,537,7 trilhões.

Só não vi onde aplicaram toda essa montanha de dinheiro emprestada pelos Bancos. Qual foi a grande obra realizada nestes governos que justifique tamanho absurdo? Só uma auditoria da dívida pode esclarecer tamanho descalabro.

Apesar de tudo isto, acho que valeu a pena chegar aos setenta anos, pois, se consegui chegar até aqui, é porque fui forte, abnegado, acreditei nos bons propósitos e na vida. Contra todas as adversidades e contra o massacre do governo, cheguei a uma marca onde somente os lutadores conseguem chegar!

 

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