A saga dos trabalhadores que constroem palácios onde jamais poderão sequer entrar

Compositor Lúcio Barbosa - Palco MP3

Lúcio Barbosa compôs a música em homenagem ao tio

Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta e compositor baiano Lúcio Barbosa tornou-se conhecido, em 1979, quando sua música Cidadão foi gravada pelo cantor Zé Geraldo no LP Terceiro mundo, da CBS.

Segundo Lúcio Barbosa, a música Cidadáo foi composta em homenagem ao seu tio Ulisses, cuja letra narra a saga de um pedreiro, que, em razão da sua condição humilde, não pode frequentar nenhuma das obras por ele construídas. A inspiração veio do fato do tio também ser pedreiro, ter construído inúmeras obras na cidade grande, mas não possuir casa própria.

A música aborda o preconceito e a discriminação que os nordestinos sofrem nas grandes cidades e faz referência a alguns problemas sociais, tais como moradia, educação e trabalho. E o título Cidadão é proposital para demonstrar distanciamento entre os indivíduos privilegiados, em pleno gozo dos direitos civis e políticos, ou no desempenho de seus deveres para com o Estado e demonstra que a sociedade burguesa pode ser muito cruel, quando não considera as pessoas pobres como cidadãs.

CIDADÃO
Lúcio Barbosa

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz, desconfiado
Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?

Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar

Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar

Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também

Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse

Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

6 thoughts on “A saga dos trabalhadores que constroem palácios onde jamais poderão sequer entrar

  1. Letra muito boa que canta o eterno choro do retirante nordestino. Precisamos também de músicas que elevem o homem, que o estimule a lutar – e vencer. As músicas antigas exaltavam também o sofredor, o corno choroso, o fraco (O Ébrio é um exemplo). Eis um consolo para isso:

    Nossa sorte foi dividida
    E posta em pote e penico:
    O reino do céu para o pobre
    E o da terra para o rico!

    E é preciso bem entender
    Que ao rico cabe mandar
    E ao pobre sempre obedecer!

  2. Não conhecia esse compositor, mas essa letra é simplesmente genial.

    Parabéns Peres, por nos brindar com essa letra maravilhosa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.